A bela da tarde

O sol brilha, nenhuma nuvem no céu. A piscina do condomínio está lotada. A maioria ocupada por jovens casais e seus filhotes. Também os solitários marcam presença, ainda que discreta, afastados das famílias.

Os pais/maridos conversam em círculo, dentro da piscina, na parte rasa, tomando cuidado para nenhuma criança derrubar as latinhas de cerveja na água. As mães/esposas tomam sol na beirada, de olho nas suas crias, e conversam e cochicham e dão risadas.

A adolescente peituda, cabelos longos e cacheados, piercing no nariz e no umbigo, tatuada até o pescoço, com óculos escuros, mantém a cara fechada sem olhar para ninguém (ou para todos, por trás daquelas lentes?). Não tira os óculos nem quando entra na piscina, lógico que bem longe dos pequenos.

O cinquentão dos olhos claros está sentado estrategicamente ao lado da adolescente, de frente para a jovem senhora solitária (divorciada?), que inicia a leitura, à sombra, de ‘A viagem do elefante’, de José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, como destaca a capa. Ele, o cinquentão, não tira os olhos da adolescente, principalmente quando esta se levanta para o banho de piscina, e muito menos da solitária, que até dá umas olhadas disfarçadas para ele, por trás dos óculos de leitura.

Ao lado do cinquentão, torrada pelo sol, deitada de costas com a parte de cima do biquíni solta, está a ‘Raimunda’, velha conhecida da comunidade, pelo belo corpo que ostenta. Não dá para precisar a idade correta dela, mas já passou dos cinquenta, fácil.

Algumas avós também estão por ali, como aquela senhora obesa, preocupada com a neta que quer de todo jeito jogar-se na parte funda da piscina. A filha, a mãe da criança, magérrima, deitada de lado, de costas para a mãe e a filha, discute a relação com o pai da pequena destemida, pelo celular, com a voz alterada, chamando ele a toda hora de seu folgado.

Os pais/maridos conversam sobre negócios, crise política, alguns favoráveis à volta da ditadura militar (“Tem que prender e matar esse bando de sem-vergonhas corruptos!”) futebol, restaurantes baratos e hotéis-fazenda. O assunto entre as mães/esposas são os seus pimpolhos e a volta às aulas, que não veem a hora. E a criançada se diverte e pula e grita sem parar.

— Ai, Bianca, não espirra água!

— Bruno, cuidado com essa bola!

O cinquentão acende um charuto bem embaixo da placa de proibido fumar, abre sua lata de cerveja importada e oferece um gole, levantando a sobrancelha, para a solitária do Saramago, que faz que não é com ela. A adolescente emburrada, bem ao lado dele, se faz de ausente, distante, nem aí com a fumaça fedorenta. “Raimunda’ parece dormir.

— Mô, me passa o balde, a Laurinha fez xixi no chão!

Nesse momento, surge, enrolada numa canga indiana estampada, a bonitona do condomínio, a gostosona do pedaço. Cabelos compridos aloirados lisos e soltos, óculos escuros, nariz empinado, dá uma geral no ambiente. Não cumprimenta ninguém. Percebe que o local está lotado, todas as espreguiçadeiras ocupadas com roupas, toalhas e brinquedos. Faz caras-e-bocas de quem não está nem um pouco satisfeita com o que vê.

Os homens começam a pigarrear entre eles, falam baixo, uns ajeitam suas partes íntimas por baixo d’água.

— Olha só o pitelzinho… – fala um dos pais/maridos, barrigudo, com as costas já bem avermelhadas.

— Você não dá conta disso aí, não, mané — diz um deles.

— Depois que inventaram o azulinho encaro até a Marquezine, meu chapa.

A musa vai para um canto, estende a toalha branca no chão e prepara-se para ‘tirar a roupa’.

— Pronto, chegou a vagabunda! – diz uma das mães/esposas, ao mesmo tempo que assopra a bóia de braço da filha.

A bela observa todo o ambiente, tira as sandálias brancas de borracha, de saltos, e as jogas displicentemente para o lado. Tem as unhas dos pés pintadas de azul-escuro e uma imensa tatuagem no tornozelo esquerdo.

 — Vai tirar! Olha lá! – se anima outro pai/marido, de óculos de graus embaçados, boné com o símbolo do Palmeiras.

A estrela senta-se no chão, vira-se de costas, para decepção da distinta plateia, e desenrola a canga, meio desengonçada, sem o menor glamour. Ajeita a parte de cima do biquíni, azul-marinho, dá uma conferida na parte de baixo, vermelho-escuro estampado com flores. Vira-se para a piscina. Seios fartos pulando para fora do biquíni.

— Isso aí não morre afogada – sussurra uma das mães/esposas, abrindo um pacote de bolachas, na beira da piscina.

— Sei lá se isso é silicone, mas eu bem que brincava ali – murmura o mais barrigudo da turma, virando a latinha de cerveja na boca para um último gole, dentro da piscina.

As crianças continuam soltas e estridentes. Agora ninguém mais (pais e mães) presta atenção nelas, que não param um segundo.

O cinquentão levanta-se, encolhe a barriga, e vai tomar uma ducha no chuveiro que fica ao lado de onde a sereia está deitada, no chão, agora de barriga pra cima e pernas abertas para o muro lateral da área da piscina. Ele passa bem próximo a ela, que não lhe dá a menor bola. A solitária do Saramago fecha o livro sem ter avançado uma página na leitura, coloca a bermuda jeans, calça as havaianas roxas e se retira do recinto, ao mesmo tempo que veste a camiseta do lado avesso. A adolescente ajeita os óculos escuros, fecha a cara mais ainda, e concentra-se nos cadernos que trouxe para estudar. Raimunda nem aí, continua deitada de ‘cara’ pra cima. A avó, mãe da mãe separada, olha com admiração para a musa.

— Corpo bonito dessa moça, hein, filha?

A miss universo levanta-se, empina a bunda e vai rebolando pegar duas cadeiras de mesa lá do outro lado. Volta. Senta-se em uma e coloca os pés na outra. Tem uma fitinha vermelha do Nosso Senhor do Bomfim amarrada (e bem desgastada) no tornozelo direito, o não-tatuado.

— Capa de revista! – exclama um deles.

— Celulite, não falei? – diz uma delas.

Nisso, um dos pais/marido, o mais discreto de todos, resolve socorrer a beleza pura que ainda não se acomodou direito. Vai até a espreguiçadeira onde estão seus pertences – toalha, roupa de criança, baldinho, bóia, revista Veja e outros cacarecos –, tira tudo e coloca no chão.

— Pode sentar aqui.

— Obrigada.

A mulher dele grita para a filha que está se divertindo no barquinho inflável:

— Luiza!

Pelo tom de voz, a menina entendeu que acabou a farra.

— Mas, mãe!

— Não tem mais nem menos! Tá na hora!

Outra mãe/esposa fala para o marido que a mãe dela, a sogra, já deve estar estourando por aí. A mulher do careca nem avisa e sai da piscina com o filho esperneando no colo. Sentindo a barra pesar, o marido que foi gentil com a beldade, recolhe a tralha toda e sai, com a mulher no encalço dele, falando entre os dentes.

— Vamos conversar em casa, simpatia! – e dá um beliscão nas costas queimadas do maridão gente fina.

Em pouco tempo pais/maridos e mães/esposas, com seus filhos/filhas reclamando e chorando, abandonam o local. A avó com a neta e a filha/mãe magrela já estavam mesmo de saída. O cinquentão dos olhos claros vendo que não agradou, olha o seu relógio de pulso imenso e dourado, encolhe a barriga, e também tira o time de campo, sem antes passar bem rente ao seu objeto de cobiça, que finge dormir. A adolescente mal-humorada sumiu no meio das famílias. Raimunda continua lá, já com a ‘cara’ bastante vermelha.

De repente, a pérgola está vazia.

Raimunda amarra a parte de cima do biquíni, levanta-se, não entende mais nada, fala para a musa.

— Ué, que silêncio! Cadê o povo?

A bela da tarde tira os óculos escuros, olha em volta, joga o cabelo pro lado.

— E eu é que sei?

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