A irmã do Pigmeu

Esbarrar com amigos de infância depois de longa data rende histórias e boas risadas, sempre. A sensação é que nos vimos no dia anterior, tamanha afinidade. Ninguém para de falar. Nem de beber. Semana passada, reencontrei-me com alguns deles – Policarpo, Anta, Minduim, Lulinho, Greguinho, Tito – num bar e…

— E o Pigmeu, lembra?

— Grande Anísio!

— Esse mesmo! Alguém tem notícias dele?

— Sumiu, o Pigmeu.

— Ele não tinha uma irmã? 

— É verdade… 

— Como é mesmo o nome dela?

Ninguém mais quis saber do paradeiro do Pigmeu, mas, sim, por onde andava a irmã dele. Ou pelo menos lembrar o nome dela.

O Tito contou que um dia foi na casa do Pigmeu jogar botão e surpreendeu a irmã saindo do banho enrolada numa tolha; quando o viu, abriu-a, sem a menor cerimônia.

Lembramos na hora da história do Queijinho com o Marcolino. Impossível esquecer aquela cena.

Queijinho era o apelido do Padre Luiz, baixinho, de óculos, que dava aula de matemática no Salesiano. Severo e moralista, como convém a todo professor dessa apreciada matéria, não cumprimentava nem falava com ninguém nos imensos corredores do colégio. Certa vez, numa quermesse, o Padre Queijinho exagerou nos quentões, ficou todo vermelho e, em fração de segundos, para espanto de todos, surgiu no centro do círculo da quadra de futebol de salão que rolava a festa, com os olhos vidrados, olhando para todos os lados, como que procurando alguém. Caminhou em linha reta em direção ao Marcolino – o mais bonitinho da turma –, passou a mão na cabeça, nervoso, amassando seu cabelinho liso e escovinha para trás, e tirou os óculos. Queijinho, sem querer saber se a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, abriu sua batina ao melhor estilo cartum, mostrou seu Pitágoras ao assustado Marcolino e proferiu, com seu sotaque italianado, a célebre frase que não nos esqueceremos jamais: “Quer ser feliz, Marcolino?” Nunca poderíamos imaginar que alguns padres já andavam de olhos compridos pra cima de alguns inocentes fieis, que a pedofilia rolava solta naquele estabelecimento religioso de ensino. Marcolino saiu pela tangente, morrendo de medo de o Queijinho querer traçar uma bissetriz com ele num canto qualquer do colégio. Marcolino, a primeira pessoa vítima de bullying brabo que tivemos notícia, não escapou às gozações dos colegas por muitos e muitos anos. Mas isso é uma outra história.

— Abriu a toalha, na maior, Tito?

— Foi.

Recordamos das muitas vezes que subíamos nos muros do Nossa Senhora Auxiliadora, o colégio das freiras, que ficava no quarteirão de cima do dos padres, para ver, pela janelinha do banheiro, as meninas fumando (tabaco) escondidas e, principalmente, levantando a saia do uniforme para fazer xixi. Era um perereco quando a irmã do Pigmeu aparecia para o seu pipi-stop do recreio.

— Como é que ela se chamava mesmo, Tito?

— Num lembro, acho que começava com eme…

Ligamos para o Turco da Casa Guanabara que sabe o nome (e sobrenome) de todo mundo até hoje. Ele atendeu assustado, visto que já devia estar babando na fronha, e nos mandou solenemente para aquele lugar, desligando o telefone, sem nos revelar o nome (e sobrenome) da irmã do Pigmeu. 

— Deu pra ver tudinho, Tito?

— E mais um pouco!

Apesar de baixinha, a irmã do Pigmeu foi a primeira da turma dela do Auxiliadora a ter corpo de mulher, isto é, seios. E, sabedora de seus predicados, quando saía da escola, desabotoava o botão de cima da blusa do uniforme para exibir o belo colo juvenil e nos deixar… na mão.

Tentamos o Zelão de Ponta Grossa (cidade do Paraná) – também conhecido como Alain Delon, porque, quando jovem, se achava (só ele) a cara do galã francês –, que também não se lembrou do nome da irmã do Pigmeu, apesar de se gabar que já havia dado uns pegas nela. Porém, não se esqueceu da cor da calcinha que ela sempre trajava quando flagrada em nossas escaladas no paredão descolorido do colégio das freiras: vermelha. Um escândalo para a época. E com risquinha branca do lado, fez questão de acrescentar.

— Sem calcinha, Titão?

— Por tudo que é sagrado!

 

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