A Justiça por um fio

O Poder Judiciário está implantando, aos poucos, a videoconferência, para fazer interrogatórios de presos e audiências judiciais a longa distância. Com a novidade, segundo as autoridades, vai dar para ver e ouvir uma pessoa de qualquer parte do país, sem a necessidade de seu deslocamento, muitas vezes oneroso e perigoso. Com isso, elimina-se o risco de fugas e tentativas de resgates, que sempre colocam em risco a segurança da população.

A iniciativa, penso, é louvável, mas ainda não vingou em todo o território nacional. Falta os deputados em Brasília votarem a lei para alterar o Código de Processo Penal. Só isso. Aí, a tecnologia vai se encarregar de botar a Justiça para correr.

Já participei de algumas videoconferências. Trata-se de uma reunião que acontece em dois, três ou mais locais ao mesmo tempo. Os participantes se falam e se veem, via satélite, em telões instalados nesses lugares.

Funciona mais ou menos assim: do lado de cá, você e outras pessoas ficam sentados em volta de uma mesa, com muitas cadeiras – sala de reunião – sob a mira de uma minicâmera, escondida estrategicamente em algum lugar da sala, para que ninguém a perceba e até a esqueça. Em cima da mesa ficam alguns microfones, que mais parecem discos-voadores de brinquedo, perdidos entre os papéis.

Todos diante de uma tela gigante com imagem das outras pessoas dos outros lugares que fazem parte da videoconferência. A imagem principal, a que aparece em tamanho maior, é a do local de quem está com a palavra naquele momento. Na parte de baixo, no canto lateral direito desse telão, tem um pequeno quadro com a imagem de nós aqui, a mesma que todos de lá nos assistem. As imagens, diga-se, não são nenhuma maravilha do século da globalização.

É importante registrar: todos os participantes primam pela elegância – homens de paletó e gravata, mulheres com roupas de festa, e perfumadas.

As mulheres e os homens mais vaidosos (a maioria) não tiram os olhos do quadrinho da direita. É ali que está o negócio. Sabem que vão aparecer do lado de lá em tela gigante, em ‘cinemascope’, assim que proferirem quaisquer palavras. Estão ligados nisso. A preocupação na reunião é essa.

É um tal de jogar os cabelos para trás (mulheres), apoiar o queixo com a mão e fazer expressão séria e compenetrada (homens), cruzar e descruzar braços (e pernas, que não aparecem no ‘vídeo’), e até olhar com o rabo do olho (mulheres e homens) para o lado para ver a performance do colega diante das câmeras.

Terminada a videoconferência, o deus-nos-acuda: o que foi mesmo que a histérica da loirinha de franjinha disse? pra quando é que temos de fechar o orçamento? segunda-feira? segunda, sem falta, começo meu regime e dou um jeito nesse meu cabelo! ninguém merece…

Videoconferências com delegados, promotores, advogados, escrivães, meliantes… têm de ser avaliadas com muita atenção pelos nobres deputados. Tudo pode acontecer em uma reunião como essa. Antes de mais nada, o responsável por acionar a parafernália toda tem de estar à disposição das autoridades 24 horas por dia. Às vezes, o satélite pode não dar sinal na hora marcada para o interrogatório, a energia pode cair ou a pessoa encarregada em ligar e desligar a videoconferência pode estar na padaria da esquina tomando um pingado ou um rabo-de-galo. E a Justiça não pode esperar.

O delegado, certamente, não vai ter tempo nem paciência para conectar essa quantidade de fios, apertar botões, acertar enquadramentos e verificar microfones. Vai estar ocupado, trancado no banheiro em frente ao espelho, arrumando os cabelos (os poucos que ainda lhe restam), lavando o rosto, cheirando debaixo dos braços, ajeitando o revólver no peito, na altura ideal para aparecer na ‘televisão’ apenas o cabo da arma no coldre, e até experimentando os velhos e bons óculos escuros rayban, fazendo cara de mau. Antes da videoconferência, o delegado estará tenso, porque não tem a quem recorrer para saber como “está” para enfrentar as câmeras. Imagine o delegado perguntando a alguém na delegacia: “estou bem?” Perde o moral.

De última hora, o promotor pode inventar de mudar sua posição na mesa, porque não fotografa bem do lado da risca do cabelo, lembrando-se das fotos de seu casamento, motivo de críticas da esposa (e das duas filhas) até hoje. O advogado de defesa pode perfeitamente desejar adiar a videoconferência porque varou a noite estudando o processo e está com olheiras horríveis.

Sem contar o preso, sim, o elemento também tem o direito de dar um tapa no visual. Pode querer trocar a camiseta surrada que colocaram nele por uma camisa ‘Volta ao Mundo’, branca, limpinha. Tomar um bom banho, fazer a barba, pentear-se, passar uma lavanda… E depois de tudo, ‘na moral’, pedir uma cópia da ‘fita’ pra mandar pra família.

Por que não?

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