A juventude do Seu Nonô

Seu Nonô nasceu e viveu na fazenda dos pais, em Minas Gerais, até ir para a faculdade de Medicina, no Rio de Janeiro. Aprendeu a ler e a escrever na roça mesmo. Iniciou sua vida sexual com a fauna local, como sempre fez questão de contar.

Nonô foi um menino saudável, vivia solto na fazenda, andava a cavalo, bebia leite direto das tetas das vacas, tomava banho no rio, dormia e acordava bem cedo. Era querido por todos os empregados. Adorava ouvir radionovela na casa dos peões. Ficava imaginando os personagens, como era o mocinho, o bandido, o cenário. Até com o corpo desnudo da mocinha, ele sonhava e acordava todo suado.

Teve uma história dessas, ouvida no rádio, onde a personagem principal era uma jovem que vivia em uma cadeira de rodas, em uma fazenda. Certa vez, ela estava no meio do pasto, sozinha, quando estourou a boiada. Não tinha ninguém para tirá-la dali. Ela ficou nervosa, desesperada, ao ver os bois se aproximando. Aqueles animais iam passar por cima dela, seria pisoteada e, talvez, morresse ali mesmo. Daí aconteceu o milagre: não tendo como fugir daquela situação, levantou-se e saiu correndo. Curada. E ainda casou-se com o mocinho no final da história.

Nonô nunca mais se esqueceu dessa cena da radionovela. ‘Quer dizer que em situações de desespero, o milagre pode acontecer?’, indagava.

Ele devia ter uns 11 anos quando um casal de amigos, com a filha da mesma idade, foi visitá-los na fazenda. A garota era paraplégica. Nonô ficou um bom tempo mudo, impressionado com aquela menina na cadeira de rodas, ali no meio da sala. Suas primeiras palavras, de uma vez só: “Quer passear comigo? Tem um lugar aqui na fazenda, num morro, onde a gente vê três cidades lá do alto. É a vista mais linda da região!”. A garota olhou para os pais, que consentiram com a cabeça. Só ele e ela.

“Lá em cimão tem uma árvore imensa, você vai adorar”, foi contando Nonô, empurrando a cadeira com a visita, morro acima. Chegaram ao topo. Ele sugeriu que ficassem um pouco à sombra, para apreciar a paisagem. Os marimbondos ainda estavam lá, naquele galho mais baixo. ‘Vou fazer essa menina andar’, pensou, enquanto pegava um pedaço de galho caído. Levou a garota bem embaixo dos marimbondos, deu uma porretada na caixa e saiu correndo: “Vamos, corra!” disse ele, fugindo em disparada. Os marimbondos voaram para cima da garota, que saiu morro abaixo, em alta velocidade, com sua cadeira de rodas, toda picada. A menina teve de ser internada num hospital, para curar as ferroadas e as escoriações do tombo que tomou lá embaixo. Nonô levou a maior surra dos pais.

— Eu só queria ajudar ela a andar, pai!

Já com 14 anos, adolescente, Nonô estava de olho na filha de um dos peões, mulatinha bem apanhada, bunda arrebitada. Toda vez que passava pela casa dela, encontrava a avó da moreninha, sentada na porta. Era sempre a mesma ladainha.

— Como vai a senhora, dona Benê?

— Levando, meu filho. Aqui, abandonada. Não tem uma alma penada pra acabar com esse meu sofrimento e me levar pro céu.

Nonô convidava a menina-moça para passear e nadar no rio, pelados.

No dia seguinte, a mesma coisa:

— Como vai a senhora, dona Benê?

— Levando, meu filho. Aqui, abandonada. Não tem uma alma penada pra acabar com esse meu sofrimento e me levar pro céu.

Nonô foi se enchendo daquilo e resolveu dar um susto na velha. Pegou a garrucha do pai e a carregou de pólvora.

— … não tem uma alma penada…

— Não por isso, dona Benê! – Nonô sacou a arma e pum! A mulher caiu desmaiada para trás, a cara e a roupa pretas de pólvora. Acordou alguns minutos depois, com a neta a abanando.

— Uai, minha neta! Mas você morreu também?

Todo sábado havia baile na cidade mais próxima da fazenda. Nonô não perdia um. Tinha a turma dele, que vivia de briga com os rapazes da cidade vizinha, também ali perto – uma das que se avistava do alto do morro. Toda semana quebravam o pau e ele, via de regra, chegava em casa com as roupas rasgadas e o olho roxo. Apanhava de novo.

O salão do clube era suspenso – ficava mais ou menos a um metro e meio de altura. Havia uma única escada de acesso, de madeira, com rodinhas embaixo. Essa escada, estreita, onde só dava para subir ou descer uma pessoa por vez, era colocada no lado oposto do palco, nos dias de bailes. Os jovens faziam fila para entrar (e depois sair) no salão. ‘Hoje eu me vingo desses bostas’, pensou Nonô, uma semana depois de levar outra tunda da turma rival. Chamou seus companheiros: “Vamos simular um briga entre nós, bem perto desses merda. Quando eu subir no palco, o fulano vai na caixa e apaga a luz. E o sicrano tira a escada de lá. Combinado?”

Quando começou a briga de mentira, bem ao lado dos rapazes da outra turma, Nonô subiu no palco e pegou o microfone. Fulano apagou a luz. Sicrano tirou a escada. Ninguém tinha como sair dali. Ele gritou:

— De faca não!

Estudante de Medicina no Rio de Janeiro, Nonô viajava pela Panair, entre o Rio e São Paulo, quando viu a Marta Rocha no avião. Ela tinha acabado de perder o título de Miss Universo, por duas polegadas a mais no quadril. Ele estava com uns colegas de turma.

— Eu vou pegar nos peitos da Marta Rocha – avisou aos companheiros.

— Você ficou louco, Nonô! Vão acabar te colocando na cadeia! E de que jeito você vai fazer isso? Impossível!

— Eu vou pegar nos peitos da Marta Rocha! Quer apostar?

Nonô levantou-se e ficou andando pelo corredor da aeronave, bem próximo da Miss Universo número 2. Foi só vir a próxima turbulência.

— Ai! Ui! Mas o que é isso?

— Oh, desculpe! Foi sem querer.

Nono formou-se médico, conheceu Cota e casou-se com ela. Viveram juntos por 75 anos.

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