À mesa

Éramos sete lá em casa: meu pai, minha mãe, duas irmãs, mais velhas, dois irmãos, um mais velho e outro mais novo, e eu. Era o quarto filho, o penúltimo. Almoço e jantar, todos à mesa. Meus pais sempre fizeram questão.

E, todos à mesa, o pau quebrava. Ou melhor, era ali que discutíamos os problemas da casa. A questão mais recorrente era os bifes. Sete. Um pra cada um. Não que meu pai fosse pão-duro (mais ou menos), longe disso. É que ele e minha mãe resolveram regular os bifes, porque a empregada fazia um monte e era a maior briga pra ver quem comia o segundo ou até o terceiro, já que sobravam. Os mais velhos levavam vantagem, por serem maiores e por terem os braços mais compridos. Então, ficou combinado: um bife pra cada um e não se fala mais nisso. E quem pegava o maior bife? Os mais velhos, porque a preferência era por ordem de idade. Tudo bem. Mesmo assim, minha mãe ordenou que a empregada cortasse e batesse (naquele tempo batia-se muito nas carnes) bem os bifes, deixando-os praticamente do mesmo tamanho.

Teve um dia, hora do jantar, divisão dos bifes, que o meu irmão mais velho veio com a história que eu havia sonhado com a Soraya – uma turca bunduda, que morava em frente à nossa casa. Sonhado e falado o nome dela, todo excitado, entregou. Além dos glúteos avantajados, a Soraya não era nenhuma Sophia Loren. Fui pra cima dele, logo contido, aos berros, pelo meu pai. Meu irmão disse mais, que eu levantava as mãos e dizia: quero um bife, quero um bife do tamanho da bunda da Soraya! Gargalhada geral. Perdi o apetite.

Meu irmão mais velho continuou me gozando e o meu pai foi dar um coque nele, logo repreendido pela minha mãe:

— Na cabeça, não! Na cabeça, não! Prejudica.

Dar umas palmadas até que tudo bem, mas jamais na cabeça. Não tomou um coque, mas um castigo: tratar dos passarinhos, que eram vários, e davam muito trabalho. A pena era soprar os farelos de alpiste, trocar a água e colocar uma folhinha nova de almeirão, em cada gaiola. Eram umas trinta. Depois, varrer o alpiste do chão. Castigo pra valer.

Sobremesa, outra briga. Quase todo dia, a mesma: doce de leite com ameixa-preta em calda. Meus irmãos tiravam uma da minha cara dizendo que aquele doce com aspecto marrom meio escuro, com pelotas pretas, era mais um produto da FELSA (Fábrica e Empórios Leonel Sociedade Anônima). Ficava puto dentro das calças, curtas. Todo lugar que a gente ia e tinha comida com aspecto ruim, só pode ser da FELSA (leia-se ‘felza’, com o esse como se fosse um ze), diziam.

Lá em casa havia três quartos grandes e apenas um banheiro, imenso. Um quintal, na parte de cima, com laranjeiras, limoeiros, mangueira (espada), jaboticabeira, parreira de uva e até galinheiro, lá no fundo. Matavam-se as galinhas com um corte certeiro no pescoço. De vez em quando, aproveitava-se o sangue para o molho pardo. Teve uma empregada que quis trucidar as penosas destroncando o pescoço, mas minha mãe logo coibiu esse método: a bichinha sofre muito desse jeito, coitada.

Outro quintal, mais abaixo, com varanda e mesa de pingue-pongue, que também servia pra jogar botão. E mais uma área aberta, em declive, onde eu e meus irmãos jogávamos futebol com os amigos. O time que atacava pra baixo sempre goleava. O terreno da casa era bem grande. Nessa varanda ficavam penduradas as gaiolas com os tais passarinhos: bicudos (canto de rara beleza, que valiam um bom dinheiro) e curiós.

Num dos quartos, dormíamos eu e meus dois irmãos; no outro, minhas irmãs, e, no terceiro, meus pais. Num dos nossos jantares, meu irmão mais novo sugeriu uma troca de quarto com as irmãs. Houve harmonia nesse dia. Todos concordaram, apesar de a minha mãe achar que ia ser muita alteração. Até que enfim eles estão se entendendo, piscou a minha mãe para o meu pai.

Trocamos de aposentos, operação que durou uma tarde inteira, afinal, eram cinco camas e dois guarda-roupas sendo arrastados pela sala que unia os quartos. E os travesseiros? Tudo misturado. Eu tinha mania de cheirar. Cheirava tudo: comida, roupa, sovaco, chulé, cangote das meninas, tudo. Logo fui intimado pelos irmãos para pegar os travesseiros e descobrir qual era de qual. Tarefa concluída em poucos minutos. Não ligava muito pra essa história de eu ser ‘cheirador’. Só não gostava quando meu irmão mais novo falava que eu tinha cheiro de onça. Ficava uma onça e enchia ele de porrada. Caçula sempre apanha, não tem jeito. Cheiro de onça?

Antes de dormir, pedia a ‘água da noite’ pra minha mãe, que, pacientemente, todos as noites, levava um copo e deixava no pé da cabeceira da minha cama. E, todas as noites, eu me levantava, meio que dormindo em pé, pra fazer xixi no único banheiro da casa. Estava condicionado: saía do quarto, atravessa a sala, entrava na copa à esquerda e virava à direita, para o banheiro. Tudo com luz apagada. A iluminação dos postes da rua era suficiente. Levantava a tampa da privada e mijava.

Na primeira noite nos ‘quartos novos’, bença, mãe!, bença, pai! mãe, a minha água da noite!, como sempre. Na calada, lá fui eu, meio que dormindo em pé, pro banheiro, cumprir com meu ritual. Fiz todo o caminho direitinho: em frente, à esquerda e à direita. Fui cair no quarto dos meus pais. Eles estavam com os abajures acesos (conversando???) e perceberam minha entrada. Viram que eu estava ‘dormindo’. Deixa ele, deixa ele, pediu minha mãe. Abri o criado-mudo do meu pai, cheio de documentos e tranqueiras, e devolvi toda a água da noite lá dentro. Minha mãe conteve meu pai.

— Não acorda ele, não! Sonâmbulo não pode ser acordado. Prejudica.

Pela primeira vez na vida, a família não se juntou à mesa para o almoço. Tamanha gozação. De todos.

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