A secretária

A secretária é vistosa até hoje. Balzaquiana. Apenas alguns quilos acima. Já foi miss da cidade do interior de onde veio – diz que perdeu o concurso de Minas Gerais porque tinha dois centímetros de quadris a mais do que o padrão estabelecido. Está sempre com roupas justas; seios fartos à mostra. Aliás, os seios são sua marca registrada, alvo dos olhares masculinos, de todas as idades. Solteira. É cobiçada pelos homens do trabalho e também pelos clientes e também pelos amigos e também…

A secretária não dá bola pra ninguém, só quer saber do Robertinho, o filho do dono da firma; logo ele, o terror da mulherada. Comenta-se no departamento que na adolescência e juventude Robertinho namorava três ou quatro ao mesmo tempo. ‘Você aguenta ficar com uma só?’, vivia perguntando pros amigos. Agora, bem mais maduro, trintão, no trabalho…

No trabalho, as mulheres morrem de amores por ele, a começar por ela, lógico, a secretária. Esta suspira pelos cantos quando o vê passar e tem palpitações quando ouve sua voz ao telefone, nas dezenas de vezes que transfere ligações para ele, por dia.

— Fulano(a) para o senhor…

— Obrigado!

Um simples ‘obrigado’ é o suficiente. Às vezes, nem isso, apenas um resmungo basta (Robertinho é insuportável na parte da manhã). Ela se abana com as folhas de sulfite A4, que marca as ligações do mês, e avisa a moça do café, sua principal colega e confidente: ‘Ainda pego esse gato de jeito!’. No que a outra se diverte: ‘Muita areia pro seu caminhãozinho, amiga!’. No que ela retruca: ‘Eu sou mais eu, uai!’.

Ele não dá a menor atenção pra ela.

Duas mulheres ligam para o Robertinho todos os dias – umas cinco, seis vezes, no mínimo, cada uma: Luciana e Jurema.

A secretária implica mesmo é com a Luciana; sotaque carioca, simpática, sempre educada.

— Por favorr, o Robéirrtinho?

— Doutor Roberto está em reunião!

‘Pelo jeito de falar deve ser periguete de quinta! Tá de brincadeira comigo! Isso aqui é um lugar de trabalho!’, exclama pra do café.

Já com a Jurema…

— Olá, minha querida, tô te passando o Beto.

‘Jurema… nome esquisito… voz de taquara rachada… deve ser um estrupício… deixa ela, coitada…’, cochicha pra colega da copa, tapando o bocal do telefone, antes de passar a ligação.

Quem é apaixonado de verdade pela secretária é o gerente-adjunto de contas a pagar do principal cliente da firma. Este liga toda hora, é do tipo que ainda manda flores, convites para almoços, happy-hours…

— Não falei que eu estou em horário de trabalho? Hoje eu não posso! – Desliga o telefone.

‘Se eu gostasse de bebê, abria uma creche’, fala pra colega querida. E o cliente até que não é tão jovem assim, dizem, apenas imberbe. Se for conferir, talvez tenha a mesma idade da secretária, ou mais.

A secretária e a moça do café estão na copa; dividem um bolo de laranja com coco ralado espalhado por cima, enquanto aguardam a água do café ferver.

— Olha só a coincidência… – diz a do café, com a boca cheia de bolo, assoprando coco pra todos os lados – sabia que a minha irmã por parte de pai trabalha na expedição da firma desse moço?

— Que moço?

— Esse aí que você chama de bebê e bate o telefone na cara toda hora. A minha irmã me contou que ele paga o maior pau pra você, amiga. Parece que é um moço sério, com muito futuro pela frente.

— E eu tô preocupada com futuro? Meu negócio é o presente, minha querida. E o meu presente é o Betinho, o meu gatinho!

A rotina de trabalho da secretária é a mesma, todos os dias, todos os meses…

— Por favorr, o Robéirrtinho?

— Doutor Roberto está em reunião!

Ou:

— Olá, minha querida, tô te passando o Beto.

Ou ainda:

— Não falei que eu estou em horário de trabalho? Hoje eu não posso!

 

Alguns meses depois…

A moça do café pega a secretária aos prantos, na copa.

— Mas o que foi que aconteceu, amiga? Quem morreu?

— Que mané morreu o quê! Vira essa boca pra lá!

— Então que que foi?

— Você não vai acreditar! O Robertinho vai se casar! O meu gatinho vai se casar!

— Grandes novidades… Não se fala outra coisa na firma. Tá mais do que na hora desse playboy tomar vergonha na cara.

— Sabe com quem? Com a Jurema! A taquara rachada! A Jurema! Traidora!

— Príncipe Encantado só tem um e casou-se com a Cinderela, amiga.

— Cinderela com nome de ervilha!?

 

Mais alguns meses depois…

A secretária e a colega pra todas as horas estão na copa, pra variar; dividem um naco do resto de um bolo de fubá, enquanto passam um cafezinho fresquinho.

— E aquele bebê da empresa que a sua irmã trabalha? Nunca mais ligou… Sumiu! Será que aconteceu alguma coisa com ele?

— Esse daí? Pode ir tirando o seu cavalinho da chuva, amiga. A minha irmã me contou que ele foi pros estadosunido fazer aqueles negócio de pedágio. Voltou de lá tem uma base de uns três meses. Virou diretor-executivo, tá todo todo.

— Ah é, é?

— É!

— Estados Unidos… – balbucia a secretária, olhando para o chão.

— É isso daí que você ouviu. E voltou dos esteites todo cheio de marra… de bigode, acredita? E casado com uma loira aguada, com uns peitão deste tamanho!

A secretária pega o naco inteiro do bolo de fubá, coloca duas colheres de açúcar na xícara do café recém-coado, e vai para sua mesa atender ao telefone, batendo o salto alto no assoalho.

— Eu ainda sou mais eu, uai!

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