Ala masculina

— Tipo de rosto! Repara o seu tipo de rosto. Não pode aparecer a nuca de jeito nenhum, nem as orelhas! Seu rosto é que nem o meu, olha só. Tem que ter as manhas da estética, tá compreendendo?

— Tira mais dos lados.

— Fica frio. Já participei de concursos no Brasil inteiro, inclusive no exterior. Tem muita gente que aprendeu comigo. Mas eu sou espada, tá compreendendo?

— Corta pouco!

— Fica frio, deixa comigo… Repara bem nessa altona que tá entrando, essa segurando o lanche, de sandália havaiana e anel no dedo do pé. Olha o jeito dela… Mas como eu estava dizendo, já dei o ar da minha graça em muitos concursos por este Brasil… Tá vendo a gordinha ali no fundo, a de toca branca? Presta atenção!

— Tá bom! Assim tá bom!

— Ganhei vários concursos. Já participei competindo, já fui jurado, já fui de tudo. Até em Manaus eu já concorri. Conheço o mundo inteiro, tá compreendendo?… Experimenta esse abacaxi que a copeira está servindo. Mel puro. Nunca vi tão doce. Toda quarta, o alemão aposentado do prédio da frente manda frutas para a manicure, a morena ali de branco. Compra na feira da rua de cima e traz pra ela.

— Não demora, né?

— A grandona magrela veio fazer o pé. Vem toda semana. Tá sempre de sandália havaiana, com esse pé comprido e esse anel de prata no dedo. Tenho a maior aflição de anel no dedo do pé, tá compreendendo? Mas espera ela cruzar as pernas pra você ver só uma coisa… A gordota, até que não é tão gorda assim, maldade minha. O colo dela é que chama a atenção. Semana sim semana não, ela aparece ‘pra esconder a raiz’. Já entra falando. Fala pra caramba!

— Cuidado aí nas pontas.

— Então, o alemão, parece que trabalhava numa firma alemã do Grande ABC, se não me falha a memória. O coroa viu a morena, morena é modo de dizer, viu a mulata na feira e se apaixonou por ela. Não larga do pé dela. Viúvo. Dizem que a família mora na Alemanha. Vive sozinho no Brasil, ali naquele predinho sem elevador.

— Mais baixo. Deixa mais baixo aí em cima.

— Fica frio. A do peito grande que não para de falar separou do marido e casou com o melhor amigo dele, tá compreendendo?… A canela fina é manequim e modelo. Manequim-modelo que se diz, né? Chega aqui à tardinha, sempre comendo sanduíche e tomando milk-shake. Não olha pra ninguém, quase não fala… Já imaginou a sua esposa com o seu melhor amigo, meu querido?

— Será que não vai ficar um rabão atrás?

— Fica frio. Pode ser magra, mas é linda. Olha a pele dessa moça! Pêssego! E os dentes? Sorriso de rainha, meu querido. Deixa ela sentar pra você ver o par de coxa… Primeiro, o alemão começou mandando flores, mas a mulata não aceitava, mas aceitava, tá compreendendo? Estava noiva, de aliança e tudo, com casamento marcado. Mas cada vez que chegavam as flores os olhos verdes dela brilhavam. Além do mais, tem olhos verdes, reparou?

— Tira pouco aí atrás.

— Mas eu tava contando da peituda que trocou de marido. Saíam os quatro – ela, o dito-cujo, o melhor amigo dele e a esposa. Os quatro. Iam pra chácara dos pais dela aqui perto… Olha, lá, olha lá, a lindona cruzou as pernas! Não te falei pra você? Pelamordedeus, o que que é aquilo! Ninguém imagina que uma canela fina dessa e esse pé magro tem uns coxão deste tamanho, imagina?

— Dá um trato atrás da orelha.

— Isso é no fim, fica frio. Não é que o alemão foi se aproximando, mandando flores, depois fruta, chocolate, fruta. Ele sempre fez questão de entregar em mãos para a morena. Muito simpático. Simpático e vermelho. Nunca vi um cara mais vermelho do que ele na minha vida, te juro pra você… Olha aquilo, cruzou as pernas pro outro lado. Isso aí é coxa pra quatrocentos talheres, tá compreendendo? Ela é muito linda. Presta atenção como joga o cabelão de um lado pro outro. O pé é que estraga. Deve calçar uns quarenta, por baixo.

— Menos. Menos aí do lado.

— Então, os dois casais iam pra chácara e ficavam bebendo vodca com suco de laranja, fumando um cigarrinho, jogando conversa fora a noite inteira. O dito-cujo apagava logo, colocava pijama e ia dormir. A mulher do amigo também não agüentava nada. Na segunda tragada, tava roncando no sofá.

— Aí já é demais! Tá bom desse jeito.

— Lógico que o noivo da mulata estressou. Rolou o maior barraco o dia que o alemão vermelho passou aqui cheio de frutas pra morena e o noivo engomadinho apareceu de moto, de surpresa… Olha isso, a coxuda descruzou as pernas. Viu a calcinha amarela no fundo, que loucura? Só usa calcinha amarela essa daí.

— Cuidado aí na frente!

— Então, o dito-cujo roncando no quarto e a esposa do melhor amigo babando no sofá. Não deu ostra! Conversa vai conversa vem, a fafá-de-belém beijou o melhor amigo do esposo na boca, tá compreendendo? Isso na calada da noite, com os vagalumes dormindo… Não, não olha agora! A pernuda tá de butuca no espelho. Mas ainda dá pra ver a calcinha amarelinha no fundo.

— Cuidado com a franja!

— Fica frio. Fica frio. Percebeu o estilo da mulatona manicure? Era ou não era pro alemão quase ter um piripaque quando viu esse corpão todo rebolando na feira? Acredita que ela terminou o noivado de não sei quantos anos com o playboy só para ficar com o velho?… Essa magrela coxuda é invocada, mano!

— Pra que essa navalha?

— Fica frio. É só pra tirar isso aqui de trás… Não durou mais do que uma semana o casamento da peituda, depois do feriadão na chácara. O marido descobriu e encheu ela de porrada, tá compreendendo?. Isso já fazem uns 10 anos. Teve até filho com o novo marido. O pentelho vem aqui, de vez em quando… Pode olhar agora, mas já fechou as pernas. Acho que a magricela percebeu que a gente tava olhando. É sempre assim. Ela provoca, provoca e se esconde. Nunca vi um par de perna desse, te juro pra você… Acredita que o atual marido da peitudinha tagarela e o corno voltaram a ser amigos? Vai entender…

— Ótimo. Ficou ótimo!

— Então, esta é a última semana da mulata. Vai pra Alemanha com o velho. Papel passado e tudo que tem direito. A manicure não é fraca, não, meu irmão… Pronto! Terminou os pés. Agora a modelo-manequim empina o nariz, passa o cartão e vai embora. Coxuda!

— Perfeito!

— Olha lá, não te disse pra você? Pintou as unhas de vermelho. Aí é que chama mais a atenção pros pés esse vermelho-sangue. Pra quê isso? Eu não falo nada, fico na minha. Tenho as manha da estética feminina, tá compreendendo?

— Valeu!

— Meu negócio é na ala dos homens, não me meto no lado de lá. Não quero nem saber dessa mulherada. Tô fora! Elas falam demais, tá compreendendo?

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