Almoço de domingo

Estava saindo para almoçar fora com a família, atrasado, quando a tempestade desabou. Cinco minutos. O suficiente para o dia virar noite, acabar com a energia elétrica do meu apartamento, do prédio, da rua, do bairro. Chuva de ‘granito’, como dizia um dos meus filhos maiores, quando menor.

Ouço uma movimentação diferente no hall de entrada, alguém batendo na porta do elevador.

— Tem um cara preso no elevador – avisa o vizinho da frente (são quatro apartamentos por bloco, mas apenas dois se comunicam no ‘hall social’).

A porta do elevador está aberta, sem a cabine – parou quase que completamente no andar de cima, sobrando apenas uns 15 centímetros de abertura para o meu. Só dá para ver os pés do cara (com tênis e meias curtas, dessas que dão a impressão de que a pessoa está sem) lá dentro. É o morador do décimo-segundo. Está calmo.

— Tá tudo bem. Fui caminhar no Ibirapuera, voltei correndo pra fugir da chuva… Olha no que deu. Tranquilo.

— Então, nós vamos deixar as portas dos apartamentos (uma de frente para a outra) abertas, pra entrar luz e também um pouquinho de ar pra você aí dentro, enquanto não volta a energia – comunico.

— Tranquilo. Obrigado!

— Quer alguma coisa, uma água, uma cerveja? – oferece o vizinho.

— Pode ser uma água, por favor.

Como a cabine está parada no quinto andar, e a porta aberta no quarto, onde estamos, o que vemos é um buraco na nossa frente, o fosso do elevador. Tudo escuro. Só dá pra enxergar as grossas correntes que suportam a cabine. Um perigo para as crianças. Nem bem pensei nisso, meu filho caçula e o amigo, ambos com sete anos, aparecem correndo para ver o que está acontecendo.

— Nossa, pai… Irado, cara!

— Quietinhos aí. Muito cuidado! Não cheguem perto. Fiquem encostados na parede!

Os dois adoram a ‘aventura’ e sentam-se no chão do hall, comportados, juntos comigo e o vizinho.

— Ainda bem que não é o velhinho de 92 anos, do décimo-quinto, preso aí dentro, já pensou? – tento puxar conversa.

— Tô tranquilo, gente. Vocês podem entrar. Obrigado!

— Eu não saio daqui enquanto o elevador não andar – decreta o meu pequeno.

— Eu também não – o amigo é solidário. — Olha só a corrente, cara, manêra!

— Não se mexam daí!

A mulher do vizinho aparece, estressada, porque não consegue falar com a Eletropaulo (“Isso é uma merda, tô tentando faz mais de meia hora!”). Peço para o vizinho ir, pelas escadas da área de serviço, ver se tem alguém nos apartamentos do quinto andar (“Aí, a gente pede para o zelador tentar abrir a porta do elevador e ele sai por lá.”).

— Vai logo, seu Mané! – diz uma das crianças, imediatamente repreendida.

— Se for pra ficar dando palpites, vão pro quarto e é já!

— Isso nunca! Desculpa.

— Pode ser mais um copo d’água, por favor?

Não tem ninguém nos apartamentos que se comunicam com os nossos pela ala social do quinto andar. O porteiro grita, lá de baixo, pelo buraco do elevador, que o técnico da Atlas (marca do elevador) já está a caminho.

— Sempre Atlasado – lembro-me dos elevadores antigos, onde os moradores escreviam, à chave ou à canivete, sei lá, as letras ado, na frente da marca estampada na cabine. Mas parece que não entenderam ou não acharam a menor graça no meu senso de humor.

Surge da cozinha de casa, a velhinha bem-arrumadinha-penteadinha-cheirosinha-educadinha, do oitavo andar, de braços dados com a moça responsável pela limpeza do condomínio. Estava voltando da farmácia, onde fora comprar remédio para o intestino, e teve de subir, às pressas, pelas escadas mesmo, porque estava de piriri. Não agüentou mais e parou no meio do caminho. Como a porta estava aberta…

— Não acredito! O banheiro está a maior zona por causa das crianças – cochicha minha mulher.

— Agora não tem jeito, a velha vai se borrar toda aqui no meio da sala e vai ser pior. Relaxa.

— As crianças devem ter feito xixi na tampa. Ai, que vergonha…

A moça da limpeza pede licença, porque a velhinha não está se agüentando, e invade o meu apartamento. Entram no banheiro.

A esposa do cara preso no elevador aparece, para alívio do marido.

— Amor?

— Graças a Deus, você apareceu, amor! Estou explodindo de vontade de fazer xixi Pega alguma coisa aí, pelamordedeus!

— Calma, amor… O que você quer que eu faça?

— Sei lá! Vamos, rápido!

A vizinha prontamente surge com uma garrafa pet de Coca-Cola Zero, vazia. Passa para o cara, pelo vão dos 15 centímetros. A esposa sai de fininho, envergonhada com o que pode acontecer. Em respeito ao cidadão, todos afastam-se do local.

— Quero ver ele mijar na garrafa, pai!

— Tem uma batata frita aí, alguma coisa, tia?

Minha mulher me chama de lado.

— Acho melhor cancelarmos esse almoço. Essa velhinha não vai conseguir subir o resto da escada para a casa dela nesse estado…

A moça da limpeza aparece na sala, diz que acabou o papel higiênico. Minha mulher corre para a despensa.

O cara preso no elevador nos chama para devolver a ‘Coca-Cola Zero’.

— Tá cheia?

— É… Tá… Mais ou menos…

— De pé, ela não passa. Tem de deitar a garrafa. Cadê a tampinha?

— Vocês me deram a garrafa sem a tampinha…

— Putamerda! – diz a vizinha, entrando no apartamento.

As crianças voltam para o hall. Meu filho, que está aprendendo violino na escola, surge com o instrumento, e começa a ‘tocar’, isto é, a deslizar o arco nas cordas, tirando um som esquisito.

— Mas que alarme é esse agora? Voltou a luz? Que barulho insuportável! – grita a vizinha, lá da sala do apartamento dela, com o celular no ouvido.

Quando ela percebe que é a criança que está tocando violino, fica toda sem jeito.

– Pensei até que fosse o caminhão do gás… Que gracinha! Nunca imaginei que ele tocava violino nessa idade… Até que toca direitinho…

O técnico da Atlas chega e faz com que a cabine suba, bem devagar, até o sexto andar. A garrafa pet sobe junto. Nisso, várias pessoas já estão dando palpites pelo vão do elevador; cada uma sugere uma ação, completamente diferente, uma da outra.

— Atenção, silêncio! – grita o técnico da Atlas, lá de cima. – Eu vou falar e apenas o rapaz que está preso responde. Apenas um por vez! Positivo? Em que andar você está?

— Aqui, no quarto andar! – gritam, em uníssono, as duas crianças.

— Calem a boca! – repreende a vizinha, com a tampinha branca da pet na mão, sem a menor paciência.

— Melhor voltar para o quarto andar, porque a porta do elevador daqui está aberta – grita o vizinho, ao mesmo tempo em que se vira para as crianças, olha feio para elas, e coloca o dedo indicador nos lábios.

A velhinha do oitavo andar sai do banheiro, deixando a porta aberta. Ainda bem-arrumadinha e penteadinha, como se nada tivesse acontecido. Amparada pela moça da limpeza, senta-se no sofá da sala, e a dispensa (“Agora está tudo bem, minha filha, pode ir.”). Minha mulher, disfarçadamente, acende um incenso.

— Boas vibrações, pessoal, pra ver se a luz volta logo.

— Só às dezessete, dezoito horas! – anuncia a vizinha, que, finalmente, conseguira falar com a Eletropaulo.

O técnico da Atlas faz com que a cabine desça até o nosso andar (“Inverti o mecanismo, você vai descer. Fica encostado no fundo, longe da porta! Positivo?”).

O cara sai do elevador, suando em bicas. Esquece a ‘Coca-Cola Zero’ no cantinho da cabine. E sobe, pelas escadas, para a casa dele, pulando os degraus de dois em dois (“Obrigado por tudo, gente!”).

A velhinha arrumadinha-educadinha diz que está tudo bem e que consegue subir as escadas (“Só mais quatro andares, eu agüento; já estou boa.”). Minha mulher faz um gesto com a sobrancelha para eu acompanhar a senhorinha até o oitavo andar. Ela pega no meu braço e partimos para as escadas. No trajeto, percebi que ela cometeu, pelo menos, quatro flatulências; todas disfarçadas com um assopro, desses que a gente dá quando está cansado e solta o ar.

A porta do vizinho já está fechada.

— Que tal um miojo? – minha mulher propõe às crianças.

— A gente não ia almoçar fora, tia? Quero contar pro meu pai como é manêro o elevador sem elevador do prédio do meu amigo.

— Irado, cara!

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