Amarelinhas

Ganhei da minha namorada uma camisa amarela da seleção brasileira de futebol. Isso faz tempo.

— É do Tostão!

— Tostão? Nossa! Obrigado!

A mãe dela conseguiu duas: a 9, do Tostão, e a 10, do Pelé. Tinha mania de colecionar camisas de jogador de futebol. Eu queria mesmo era a do Rei, mas tudo bem a do Tostão.

A do “Mineirinho de Ouro”, como era conhecido o dono da 9, não estava fedendo suor, só suja. Imunda. Tinha uma mancha de sangue logo acima do distintivo da CBD, do lado esquerdo do peito. Mandei lavar, com a recomendação de esfregar bem a nódoa. Minha namorada teve um chilique (nossa primeira briga), perguntou se eu estava louco ao mandar a camisa do Tostão!, da seleção tricampeã do mundo!, para o tanque!

Disse que a mãe dela guardara a do Pelé, sem lavar. Mais: mandara colocar a 10 em uma moldura, com vidro dos dois lados. E pendurado no teto da sala da casa dela, junto com inúmeras outras da sua coleção. Fiquei encafifado com aquilo. E se a camisa do Craque Café estivesse malcheirosa? E o que poderia acontecer, se alguém resolvesse tirá-la dos vidros que a protege, depois de um tempo?

Não via a hora de estrear a amarelinha do Tusta. Eu jogava bola toda segunda-feira, de centroavante (camisa 9), num campo de areia na Vila Olímpia, em São Paulo, onde hoje virou condomínio de várias torres com apartamentos minúsculos. Fazia meus gols por lá, pode crer.

Os companheiros, à princípio, não acreditaram tratar-se da camisa do consagrado craque mineiro, formado em Medicina. Depois, morreram de inveja. Teve um que até me pediu emprestada para fazer bonito para a moça da qual estava a fim, que era apaixonada pelo jogador. Ela, a garota, dizia que ele, o Tostão, tinha cara de menino carente e desprotegido, que precisava de colo. Não emprestei, lógico. Tinha certeza que ele, o amigo, jamais me devolveria relíquia tão preciosa nem ganharia a mina, como de fato ocorreu.

Além de jogar futebol com a 9 do craque, também a usava em eventos sociais, como churrascos com os amigos e almoços na fazenda da sogra. Peguei gosto pela amarelinha.

Com o tempo, a gola e as mangas começaram a alargar. O tecido foi ficando puído depois de tantas lavadas. E a do Pelé, intacta, suja e provavelmente fedorenta, lá na sala da casa da mãe da minha namorada. Minha sogra não me olhava na cara havia meses.

Já não dava mais para desfilar uniformizado de seleção por aí – naquela época era motivo de orgulho para qualquer um.

Numa das últimas peladas com os amigos, a 9 rasgou no sovaco. O lance foi o seguinte (sem querer me gabar e já me gabando): recebi a bola na ponta esquerda, dei um chapéu num zagueiro, um drible da vaca num outro na sequência, e um corte no goleiro, que me puxou violentamente pela manga. Só não entrei com bola e tudo porque tive humildade em gol.

Mais algumas partidas e a 9 do escrete nacional ficou mais machucada ainda. Não dava mais pra jogar bola. Virou pijama. Minha namorada teve outro chilique (briga feia).

Depois de uns meses rolando na cama, a amarelinha esgarçou-se de vez. Ficou imprestável.

— Joga fora não, seu Leonel – disse a mulher que tralhava em casa. — Isso aí dá um belo pano de chão. O tecido é do bom, olha isso, passa a mão pro senhor ver.

E assim foi feito. A camisa 9 tricampeã do mundo deu um verdadeiro show no tapete verde do chão da minha casa, por muito tempo, para o último chilique da namorada. Muitos anos depois, leio no jornal que a camisa 10 do Pelé, de uma renomada colecionadora brasileira, usada pelo Rei na partida entre Brasil e Inglaterra, na Copa do Mundo de 1970, fora arrematada em um leilão, em Londres. Por uma verdadeira fortuna.

Comments are closed.