Armando confusão

Armando demorou-se para casar, segundo padrões da época, início dos anos 1970. Já estava com mais de trinta e nada de levar a noiva para o altar. A família dela já desconfiava da masculinidade do rapaz. Diziam que ele era esquisito, onde já se viu, nessa idade, solteiro: ainda não casou porque a fruta que ele gosta é outra.

Armando resolveu, finalmente, contrair matrimônio. Não agüentava mais a pressão e desconfiança da família da noiva. Até o sogro duvidava dele: se não casa, é porque é bicha-louca. No dia da cerimônia do civil, na residência da noiva, reuniu todos os presentes – pais, irmãos, avôs, tios, primos, padrinhos, etc – e disse que tinha uma revelação importante a fazer, muito séria, na frente do juiz. Foi o maior ti ti ti: não te falei, o cara vai sair do armário, meu!

Armando pediu silêncio. Solicitou a todos que o que iria contar era para ficar ali, entre os familiares, entre aquelas quatro paredes, que ninguém, além dos presentes, soubesse. Ninguém! Todos concordaram, loucos de curiosidade. O irmão mais velho da noiva cochichou para a esposa: eu dou um tiro na boca desse boiola!

— É o seguinte pessoal… – abaixou a cabeça, colocou o rosto entre as mãos, fez suspense. Desembucha, criatura! – gritou a avó da noiva, impaciente. Shhhhh. Ele levantou a cabeça, tomou coragem e falou:

— Eu sou o Zorro!

Quase apanhou da família da noiva. Bebeu e dançou e bebeu a festa inteira. Embarcou com a jovem esposa, no dia seguinte, bem cedo, na maior ressaca, para a lua de mel: Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, Pão de Açúcar. Ventania lá em cima. Cheio de jovens casais, assim como eles, em lua de mel. Atencioso e solícito, Armando se oferecia para tirar fotos dos pares. Naquela época não existia essa história de casal pegar a câmera digital, se auto-fotografar, e depois, na mesma hora, conferir se ficou bem enquadrado, se não saiu com os olhos fechados, se o cabelo ficou bom. As fotos eram reveladas e demoravam dias para sair. Armando tirou fotos de vários casais no Pão de Açúcar, que sorriram, ajeitaram os cabelos, fizeram caras e bocas e poses para ele. E pediram ‘só mais uma pra garantir’. E ele fotografou, de propósito, os casais, da barriga pra baixo. Só as pernas. Todos.

De volta da lua de mel, foi trabalhar com o sogro e o cunhado mais velho, numa fábrica de brinquedos e de artigos para o Natal, da família da esposa. Corria o mês de novembro, período que a fábrica trabalhava a todo vapor. Armando, talvez pensando numa vingança aos novos parentes, que acharam que ele jogava água pra fora da bacia, colocou um anúncio nos classificados do Estadão: Precisa-se de anão para trabalhar no período de Natal, de 20 de novembro a 22 de dezembro. Salário tal (de executivo). Favor comparecer à rua tal (no Jabaquara), para entrevistas com o senhor fulano de tal (o cunhado). Pegar metrô e descer na Estação Saúde. Início imediato.

O metrô, recém-inaugurado, era atração turística em São Paulo. No dia marcado para as entrevistas, Armando foi logo cedo para a Estação Saúde e ficou lá, de butuca. Jamais vira uma coisa daquela em toda sua vida. Nunca imaginara que tivesse tanto anão em São Paulo. Também, com o salário oferecido… Tinha anão pra tudo quanto é lado. Nas escadas rolantes da estação, eles já competiam entre eles. Um querendo ultrapassar o outro, correndo, com aquelas perninhas curtas, tentando pular os degraus de dois em dois. Tinha anão alto, baixo, gordo, magro, perfumado, de jeans, de terno, de tudo quanto era jeito. Armando ali, atrás da coluna, morrendo de rir.

Na fábrica, o cunhado mais velho não entendeu o motivo de aquele monte de anão procurando por ele. Como todos queriam falar justamente com ele, achou que não tinha como negar que não fora ele o responsável pelo anúncio. Afinal, não se pode brincar assim com um ser humano. E, segundo o pai, podia pegar mal para a reputação da fábrica. O cunhado mais velho passou quase uma semana preenchendo ficha de pedido de emprego de anão.

Armando fez 69 em janeiro. Pela centésima vez, segundo ele. Está casado há 38 anos, esposo amantíssimo, pai exemplar. Sempre foi um cidadão pacato, trabalhador, família. Adora contar (e ouvir) histórias de parentes. Jura, até hoje, para a família da esposa, que não foi ele quem colocou o anúncio dos anões no jornal. E diz que se arrepende das confusões que armou.

Um tremendo gozador. Um grande amigo.

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