Lugar Incerto e Não Sabido

Dona Mariquinha desperta todos os dias, religiosamente, às 5h, para rezar o terço. Depois, levanta-se, faz café, toma seu banho e arruma-se para trabalhar. Ela mora e trabalha no mesmo local: Sanatório Clemente Ferreira, que cuida de tuberculosos, distante poucos quilômetros da cidade. Cidade do interior. Funcionária exemplar, vive se gabando: sou a primeira a [...]

Olhar popular

Outro dia, ao dar minha caminhada diária, após o almoço, pelo meu bairro (Itaim Bibi, em São Paulo), vejo uma viatura da PM fechando a João Cachoeira, a partir da Pedroso Alvarenga. Justamente o meu trajeto. O local está cheio de populares (popular é todo cidadão ou cidadã que está na rua e não protagoniza [...]

Amigos para sempre

Assim que chegou à maternidade, Lúcia foi encaminhada para os procedimentos. Sua bolsa rompera antes de completar oito meses de gestação, mas estava tudo sob controle. Alberto, o marido, ficou no corredor, ansioso, andando pra lá e pra cá, esperando notícias. Primeiro filho. Como será? A cara do pai ou da mãe? Ou uma mistura [...]

Armando confusão

Armando demorou-se para casar, segundo padrões da época, início dos anos 1970. Já estava com mais de trinta e nada de levar a noiva para o altar. A família dela já desconfiava da masculinidade do rapaz. Diziam que ele era esquisito, onde já se viu, nessa idade, solteiro: ainda não casou porque a fruta que [...]

Oportunidade perdida

Diz um provérbio chinês que há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra proferida e a oportunidade perdida. No início dos anos 1980, eu trabalhava na Editora Três, editava a revista Homem, tida masculina. Resolvemos fazer uma edição especial com as chacretes, nuas, algo inédito, e uma entrevista exclusiva [...]

Primeira Comunhão

Estou de terno de calças curtas, azul-marinho. Camisa, gravata borboleta, lencinho na lapela e fita pregada na manga esquerda do paletó, tudo branco. A fita começa com um laço enorme no ombro e desce até o cotovelo, como se fosse uma gravata, com franjas na extremidade. Nessa fita, desenho de um anjo, dourado. Luvas igualmente [...]

Carnaval…

Carnaval bom mesmo era o dos meus tempos de moleque, em Lins. O grande ícone da folia linense era um negro musculoso, bem-humorado, humilde: Paíca. Ele ainda está vivo, graças a Deus, com seus oitenta e tralalá. O carnaval da cidade é que morreu, faz tempo. O Paíca era dono da única escola de samba [...]

Um príncipe

Ele já não é nenhum garotão, apesar de fazer a linha. Perto dos setenta. Setenta anos de idade. Alto, bem alto; forte, muito forte. Marrento. Simpático. Pele permanentemente bronzeada. Cabelos brancos penteados para trás. Esportista desde sempre. Machão. Separado. Namorador. Um galã à moda antiga. Pra se ter uma idéia da estampa do cara, ele [...]

O Peru da Noiva

Ela conheceu ele, bem mais velho do que ela, quando foi passar a entrada de ano na praia. Ele não deu bola pra ela. É muita areia pro meu caminhãozinho, pensou ela. Mas eu ainda fico com ele. Ele tem casa na praia, num condomínio. Separado, três filhos, homens, jovens. Ela está mais pra idade [...]

Caras de pau

Quando eu saí de Lins pra São Paulo, no início dos anos 1970, fui me enturmando aos poucos na grande cidade. Havia os amigos do Banco do Brasil, onde trabalhava, os da faculdade, os da minha cidade que moravam na Capital, entre outros. Entre outros, destaco uma turma diferente, a dos festeiros (os baladeiros de [...]