As canarinhos

Uma camisa amarela de algodão, com a gola careca, as pontas das mangas e um número 9 nas costas, verde, foi o primeiro presente da minha primeira namorada em São Paulo. Recém-chegado do interior, acostumado com os mimos das minas de lá – perfumes (Lancaster), meias (Lupo), lenços (Presidente), chocolates (Kopenhagen), drops (Dulcora, A delícia que o paladar adora), balas (Piper) –, estranhei. Camisa de futebol de presente… E usada?

— É do Tostão!

— Ah, obrigado.

Foi logo depois da Copa do México, 1970. A mãe da minha namorada ganhou duas: a 9, do Tostão, e a 10, do Pelé. Ela tinha mania de colecionar camisas de jogador de futebol. As amarelas em questão eram do jogo Brasil e Inglaterra. Foi aquele em que o Tostão driblou toda a defesa britânica, tocou para o Pelé, que rolou para o Jairzinho, o Furacão da Copa, entrar na área e fazer o único gol da memorável vitória. Conquistamos o tri, ali.

Eu gostaria mesmo de ganhar era a do Pelé, mas tudo bem a do Tostão. Sempre tive mais simpatia pelo Atlético MiGeiro (como diziam meus filhos maiores, quando pequenos, por causa do Atlético/MG), o Galo, e o migeiro em questão era do Cruzeiro, apesar de cantar de galo na área adversária. Como seleção é seleção, deixa pra lá.

A jaqueta do Mineirinho de Ouro estava com cheiro de suor e suja. Tinha uma mancha de sangue logo acima do distintivo da CBD. Mandei lavar, com a recomendação de esfregar bem a nódoa. Minha namorada teve um chilique (nossa primeira briga), perguntou se eu estava louco de mandar a camisa do Tostão!, da seleção tricampeã do mundo!!, para o tanque!!! Disse que a mãe dela nunca lavou as usadas que colecionava. E emoldurou a 10 com vidro dos dois lados. E pendurou no teto da sala da casa da chácara onde morava, ao lado das inúmeras outras do seu acervo maria-chuteira.

Fiquei encafifado com aquela moldura. E se a camisa do nosso Craque Café estivesse fedorenta? Não que achasse o Pelé malcheiroso, pelo contrário, sempre imaginei (ainda imagino) o melhor de todos os tempos um cara perfumado, desses que por onde passa deixa sua fragrância no ar. Mas num jogo de Copa do Mundo, disputado, pegado, suado, tudo é possível. Ainda mais com um Rei em campo. Já pensou o que poderia acontecer se alguém resolvesse tirá-la dos vidros que a protegia, depois de um tempo? Como ficaria a imagem do nosso maior futebolista e até do país?

Eu não via a hora de estrear a minha 9 da seleção canarinho, do Tusta, no areião do campo da Gomes de Carvalho, travessinha da Santo Amaro.

Batia minha bolinha duas vezes por semana. Centroavante. Fazia meus golzinhos de vez em sempre. Os companheiros, a princípio, custaram a acreditar que o meu uniforme de pelada era do consagrado craque, diplomado em Medicina. Teve um lá, que até me pediu a camisa amarela emprestada, pra fazer bonito para a garota que ele estava afim, fã do jogador. Ela, a garota, dizia que ele, o Tostão, tinha cara de menino carente e desprotegido, que precisava de colo. Não cedi, lógico. Tinha certeza que ele, o amigo, jamais me devolveria relíquia tão preciosa, e nem ganharia a muié.

Além de jogar bola com a camisa do Tostão, também a usava em eventos sociais, como churrascos com os amigos e fins de semanas na casa de campo da sogra. Peguei gosto pela canarinho.

Com o tempo, depois de tantas lavadas, a gola começou a alargar, as mangas idem. E a do Pelé, intacta, suja, suada (fedida?), balançando lá na sala da minha sogra, que não me olhava na cara havia meses.

Já não dava mais para desfilar com a amarelinha por aí. Num dos últimos rachas com os amigos, por conta de um marcador implacável, ela rasgou no sovaco.

Mais algumas suadas, a 9 ficou detonada de vez. Não servia nem pras peladas. Virou pijama. Minha namorada teve mais outro chilique (nossa penúltima briga).

Depois de um tempo rolando na cama, a camisa tricampeã mundial esgarçou-se de vez. Ficou imprestável.

— Joga fora não, seu Leonel! Isso aí dá um belo pano de chão. O tecido é do bom, repara aqui. Estica ela pro senhor sentir. Suga uma água que é uma beleza.

A camisa 9 que brilhou nos gramados mexicanos deu um verdadeiro show no tapete verde do chão da minha casa por um bom tempo.

Muitos anos depois, leio no jornal que a camisa 10 tricampeã mundial, de uma colecionadora brasileira, usada pelo Rei na partida entre Brasil e Inglaterra, na Copa do Mundo de 1970, fora arrematada em um leilão, em Londres, por uma verdadeira fortuna.

Fiquei mais encafifado ainda: será que o feliz dono vai ter a infeliz ideia de libertar a canarinho dos vidros que a prendeu durante tanto tempo, pra bater uma bolinha?

 

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