As legítimas havaianas

Fomos, eu e família, convidados para um casamento chic, na praia, a ser celebrado na areia, à beira-mar, ao pôr do sol. Tá lá no convite, tudo direitinho: os nomes dos pais do noivo e da noiva, local, data, horário, como convém. No cantinho inferior, à direita, a frase: ‘Não esqueça suas havaianas!’.

Isso remeteu à minha adolescência, no interior, quando meus pais receberam um convite de casamento, no mínimo, curioso. As famílias dos nubentes resolveram fazer a festa no clube de campo da cidade. Uma inovação para a época. Famílias da mais alta sociedade, diga-se. As comemorações dos enlaces matrimoniais dos abastados geralmente eram nas casas dos pais da noiva, verdadeiros palacetes. No convite tradicional, no cantinho inferior, à direita, a frase: ‘Leve faca’.

Depois da cerimônia religiosa na paróquia local, ia rolar o maior churrasco. Nada de bufês contratados da capital, para servir os parentes e amigos dos noivos, como era costume nas festonas dos graúdos de então. Não se falava em outra coisa na cidade. Comentários na saída da missa das 10, onde a sociedade se reunia todos os domingos: como é que as famílias dos noivos, gente bem, têm a coragem de mandar um convite desses… nunca vi nada mais cafona em toda minha vida… imagina os convidados enchendo a cara e partindo pra briga…

A aporrinhação das mulheres com os maridos era a mesma: esse moleque vai se furar com essa porcaria, olha só o que eu tô te dizendo… As facas, obviamente, foram levadas pelos homens, longe do alcance das crianças. Alguns, mais discretos, seguiram para a igreja portando suas ‘armas brancas’ no bolso lateral do paletó; outros, na lapela, com os mais variados tipos de cabos pra fora, como se fossem lenços. Houve até os que colocaram as facas nos cintos, como revólveres dos filmes de bangue bangue, disfarçadas sob os paletós. E ainda os que foram com canivetes pendurados nos chaveiros. Todo mundo ‘armado’ para o grande acontecimento. Um sucesso, vale registrar. Carne de primeira, chopp gelado, música animada. O bolo de três andares, com os dois bonequinhos simbolizando os noivos, foi a sensação no Country Club.

Bem, voltemos para a praia. O assunto é como a mulherada vai resolver a questão das sandálias para a festona dos graúdos de agora, à beira-mar. A idéia de os próprios noivos oferecerem as havaianas, como virou moda nos casamentos mais descolados de hoje em dia, foi logo descartada pelo pai do noivo: sem frescuras, cada um leva a sua…

Além dos vestidos, adaptados ao ambiente proposto, todas vão ter de comprar novas havaianas, pra combinar com as roupas. Os maridos também irão às compras, porque as mulheres não admitirão seus pares na festa com sandálias usadas e chulezentas. Sem contar o estresse de um ou outro casal, com o olhar atento da patroa: vou te marcar um podólogo amanhã, sem falta, pra dar um jeito nesse pé, nessas unhas horrorosas, nesse calcanhar rachado…

A mulherada não vai querer vestir sandálias iguais uma das outras. Para isso há solução: junto com a lista das lojas de presentes, também as que vendem havaianas. Assim, as vendedoras podem assinalar quem comprou qual: essas das tiras prateadas já foram vendidas, senhora, as que saíram primeiro; ainda tem as coloridas…

Já vão pra cerimônia calçando as havaianas ou as levam num saquinho plástico de supermercado? Carregar nas bolsas, nem pensar. Bolsas de casamento foram feitas pra guardar batom, celular e maço de cigarro, com isqueiro dentro, no máximo. E olhe lá! Alguém, por acaso, tem sacola de praia combinando com a roupa e a bolsa, pra levar as havaianas? E a toalhinha pra secar os pés, depois de lavarem a areia da praia, deve combinar com o vestido, com a bolsa ou com as sandálias? Tem torneira por perto?

E o padre, coitado! Nunca ninguém viu padre de batina e sandálias havaianas. Para esse caso específico, devem liberar as franciscanas.

Alguém pensou na limpeza da praia? Tenho uma amiga que já avisou: não vou fazer o pé pra pegar bicho de pé, nem morta! Tem cocô de cachorro pra tudo quanto é canto naquela praia…

Pensaram nas senhorinhas, que nunca usaram sandálias havaianas na vida? Será que existe esse tipo de calçado para o pessoal da chamada melhor idade, de pele sensível? Certamente vão sair da cerimônia com bolhas imensas nos vãos dos dedos. Quem tem joanete, então, não deve comparecer à festa, com toda certeza.

Bacana a idéia de casamento à beira-mar, ao pôr do sol. Mas bem que os pais dos noivos poderiam pedir pra varrerem a areia da praia. Assim, a mulherada iria calçar seus sapatos de saltos altos à vontade e desfilar toda sua elegância, como convém. Sem frescuras.

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