As mulheres da Homem

No início dos anos 1980, eu trabalhava na Editora Três. Produzíamos as chamadas publicações masculinas da casa, isto é, de mulher pelada. Fazíamos 28 títulos por mês, quase uma revista por dia – a Homem era o carro-chefe. A equipe não era grande. Apenas jovens recém-saídos das universidades, querendo uma oportunidade no mercado.

O trabalho para tamanha produção era o mesmo de qualquer tipo de revista: fazer reuniões de pauta, marcar e realizar entrevistas, pesquisar nos jornais e revistas (não havia internet) os principais acontecimentos nacionais e internacionais, escolher as melhores fotos, responder às centenas de carta dos leitores, cuidar das seções, revisar todo o conteúdo, etc. Só que tudo voltado para o erotismo.

As produções de nus no Brasil, para revistas, na época, estava engatinhando. A maioria das mulheres vinha de fora, importada por agências de imagens. Loiras aguadas (norte-americanas e escandinavas, a maioria), peitudas (não se usava silicone, ainda), peludas (não se depilavam, ainda).

Eu era o responsável pelas publicações. Na redação, havia uma sala, pequena, só pra mim, que dava para uma outra, bem maior, onde ficava a equipe – redatores, nas suas máquinas de escrever, e diagramadores, nas suas pranchetas. Não havia porta, apenas o batente. Quer dizer, ninguém batia na porta pra entrar. Entravam.

Certo dia, fazia frio, entra na minha sala uma mulher alta, estilo perua: ruiva, sobretudo amarelo, botas de saltos altíssimos, vermelhas, unhas das mãos pintadas combinando com as botas, supermaquiada. Bonita, até. Perto dos 40.

— Escuta aqui, quero sair na revista amanhã, sem falta! Pago o que for preciso. Quanto é, diretor?

Da minha mesa, vejo o pessoal trabalhando na sala grande. Estão tranqüilos, mesmo com visita tão salerosa à redação, no meio da tarde.

— Onde é que é o estúdio pra mim tirar as fotos? Quero pra amanhã! Não precisa maquiador nem cabeleireiro. Tô pronta!

Tento explicar, com jeito, que a coisa é demorada, não é bem assim, de um dia pro outro…

— É que o meu marido me deu um pé na bunda por causa de uma vagabunda aí. Acho que até que é de menor. Uma franguinha, coitadinha. Isso dá cadeia! Só quero ver a cara do desgraçado quando ver eu na capa da Homem.

Capa? Argumento, mais uma vez, sobre o tempo gasto para produção de uma revista mensal, todo o processo, mas ela não está nem aí.

Toca o telefone. A secretária diz que tem um homem nervoso querendo falar comigo. Atendo. O cara do outro lado tá bravo mesmo. Fala alto, grita. Por um instante, pensei que fosse o marido da perua, que a seguiu até a redação, que estava num orelhão ali na frente da editora, armado até os dentes. Diz que é namorado de uma mulher que apareceu na edição do mês anterior, na ‘Colher de Chá’ (seção onde publicávamos fotos de mulheres nuas, enviadas pelos leitores; a maioria tirada em motéis, quase todas escondendo o rosto), a página mais vista da revista.

(Cabe aqui um parênteses. Henfil, o genial cartunista mineiro, assinava a Homem só por causa da ‘Colher de Chá’. “Adoro aqueles pés sujos”, dizia. “Prefiro a Homem do que a Playboy, com aquelas mulheres todas limpinhas e cheirosas”.)

O homem nervoso diz que vai me pegar por ter publicado uma foto da ‘mina’ dele pelada. A perua acende um cigarro (naquele tempo podia-se fumar em qualquer lugar), levanta-se, fica andando de um lado pro outro na minha frente, impaciente. Tento explicar ao homem furioso que as fotos publicadas na ‘Colher de Chá’ sempre vêm com autorizações (ficha pronta na própria seção, onde o leitor recorta, preenche, autoriza, assina e envia), que eu precisava perguntar pra minha secretária onde estavam os documentos, que nunca publicamos fotos sem autorizações.

Por sorte a tal edição está em cima da minha mesa. O cara fala sem parar pelo telefone: vai me dar um cacete, vai me dar um tiro na boca, vai me esperar na saída. A perua, pra lá e pra cá, dando baforadas, batendo as cinzas pra todos os lados. Peço para minha secretária trazer os documentos. A perua apaga o cigarro no chão, com a sola da bota vermelha. Vira-se para mim, abre o zíper do sobretudo até o fim, levanta os braços. Está nua, em pelo, por baixo daquilo.

— Olha aqui se eu não sirvo prum pôster duplo, diretor!

Fulmino a mulher com os olhos. Ao mesmo tempo, tento manter a calma ao telefone, quero evitar uma surra do homem nervoso, namorado traído. Faço gesto para a mulher fechar a roupa. Ela abre mais ainda o sobretudo amarelo. Tudo no lugar.

— Um instantinho só, senhor. Quer fazer o favor de fechar essa roupa? Mais um momentinho, por gentileza. Pode entrar alguém aqui a qualquer momento, não fica bem.

A mulher acalma-se um pouco, fecha o sobretudo, mas não puxa o zíper. Senta-se, cruza as pernas, fica me olhando com cara de desliga-logo-essa-merda. Pega uma revista em cima da mesa, começa a folhear sem prestar atenção em nada. O homem nervoso, do outro lado, fica mais puto ainda: tô vendo que isso aí é uma zona, cambada de vagabundo sem-vergonha!

A secretária entra com as autorizações. Vejo a foto da namorada do cara na revista. Está de costas, ajoelhada na cama de um motel (pés sujos, Henfil). Não dá pra reconhecer. Pode ser qualquer mulher. Digo isso ao homem nervoso. A perua tira a revista da minha mão, observa a mulher. Faz cara de nojo, ânsia de vômito. Peço para minha secretária se retirar. Ela sai, de olho na perua. Pergunto pro cara como é que ele sabe que é ela. O senhor acha que eu pego ela por onde, xará? Conheço essa mina até pelo avesso. Olha a marca da vacina. É ela! Digo que a foto da namorada está autorizada. Percebo um leve tumulto na sala grande. Olho pra lá, com cara de podem-trabalhar-que-tá-tudo-sob-controle. Cada um vai pra sua mesa. Autorizada por quem??? Respondo que não dá pra entender a letra, a assinatura. Tô indo praí!!! Bate o telefone na minha cara. Desligo, com delicadeza.

Imediatamente, a mulher joga a revista na mesa, levanta-se e abre o sobretudo amarelo novamente.

— Olha isso daqui, diretor! Tudo natural!

Com muita paciência, preocupado com o pau que eu vou levar do namorado traído que está a caminho, peço para a perua traída se cobrir, falo que pode entrar alguém e pensar que eu estou me aproveitando da minha condição de diretor. Isso não fica bem, insisto.

— Vai dizer que não sente atração por mim, diretor?

— Não é nada disso, você é uma bela mulher. Só não quero que me julguem de uma maneira equivocada.

Um custo convencer a perua a fechar a roupa. Não quer mais me ouvir, se é que me ouviu. Fecha o macacão, sai batendo os saltos. Para na sala grande. Todos de olhos nela. Joga o cabelão pra trás.

— Nunca imaginei que uma revista de mulher pelada tivesse um diretor boiola. Eu, hein!

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