Barra Funda

1

Ambulante de sucos (amarelo, laranja, verde, roxo) e doces (maria mole, cocada, paçoca), expostos sobre um isopor, chaveca uma mulher-cliente vestida com calça verde-oliva grudada nas pernas grossas e curtas e uma blusa tomara-que-caia pink com os seios imensos à mostra. Passa uma viatura da polícia, bem devagar na frente deles, fazendo a ronda.

O ambulante:

— Bom dia, meu patrão!

O policial do banco do carona faz um sinal de positivo para o ambulante, sem olhar pra ele.

— Meu bródi, sangue bão – gaba-se o ambulante para a jovem.

Ela parece não ouvir, está entretida em engolir a maria mole rosada.

— Então, o suco é cinquenta centavos o copo menor; o doce é cortesia pra princesa.

 

2

Homem dos seus 30 anos, camiseta surrada, calça jeans suja, tênis velhos, bem-humorado, vai passando pelos comerciantes – vendedor de churrasco grego, lojinha de chaveiro, carimbos, capinhas de celular, boteco de cerveja – da rua atrás da estação do Metrô, brincando com cada um deles. Nisso, vê um mendigo dormindo no chão, coberto até a cabeça. Dá um totó na bunda dele.

— Meio-dia! Perdeu a hora? Vai se atrasar pro serviço, teu patrão te coloca no olho da rua!

 

3

O rapaz moreno, alto e magro está alterado na fila pra carregar o Bilhete Único. Ele já é o próximo a ser atendido num dos três guichês disponíveis (outros quatro fechados). Atrás dele umas dez pessoas. Sou o último.

— ESSA FILA NÃO ANDA? ISSO AQUI É UMA PALHAÇADA! – brada.

Chega a vez dele. Começa a gritar com a moça atrás do vidro blindado do guichê.

— COMO NÃO É AQUI? FIQUEI NESSAPORRA DE FILA MAIS DE MEIA-HORA, CARAIO, E NÃO É AQUI? TÁ DE BRINCADEIRA COMIGO!

— …

— FOI ELA! AQUELA BOCA-ABERTA (refere-se à mocinha que fica do lado de fora orientando as pessoas)!

Ele sai de lá e vai direto conversar com a mocinha. Aos berros.

— SUA BOCA ABERTA DE MERDA!

— O senhor que não entendeu, expliquei direitinho pro senhor – diz ela delicadamente.

— NÃO ENTENDI É A PUTAQUITIPARIU!

— Não tenho culpa se você acordou estressado.

O rapaz enfileira palavrões. A mocinha perde a compostura e responde com os dela. Cadê o segurança? A fila permanece calada, como se nada tivesse acontecendo. E aumenta. Nem as pessoas que entram na estação do Metrô dão atenção à baixaria. Apressadas, parecem acostumadas àquilo. A fila anda, tá chegando a minha vez. O rapaz vai embora xingando todo mundo. Um velhinho com poucos dentes e barba por fazer, logo atrás, fala baixinho pra mim, sorrindo tímido:

— O vizinho esquentou a cama dele.

 

4

Dois moradores de rua, entre 30 e 40 anos, acabam de acordar, estão recolhendo seus pertences – agasalhos e cobertores – de cima de dois colchões de espuma jogados na caçada.

Um diz pro outro:

— Quero saber quem pegou meu desodorante e meu perfume que eu comprei ontem à noite?

— Sei nada disso não!

— Mostra aí as suas tranqueira!

— Pode olhar! Tá me estranhando, mano? Sou boiola não! Perfume…

 

5

Dona de barraca de doces ao lado da estação do Metrô, reclama para uma cliente:

— Pensa que eu já não pensei em me jogar da ponte?

— Nossa!

— Jogar da ponte da Marginal, sim senhora! Mais de uma vez! Meu marido só bebe, meu moleque só quer saber de jogar bola, não para em casa, nem sei se está metido com esse negócio de cigarrinho do capeta…

— Nossa!

— E se eu vou embora, quem é que vai lavar as louça lá de casa?

 

 

 

 

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