Caras de pau

Quando eu saí de Lins pra São Paulo, no início dos anos 1970, fui me enturmando aos poucos na grande cidade. Havia os amigos do Banco do Brasil, onde trabalhava, os da faculdade, os da minha cidade que moravam na Capital, entre outros. Entre outros, destaco uma turma diferente, a dos festeiros (os baladeiros de hoje). Festeiros de casamentos.

Eu só me encontrava com os festeiros na festas. Nos grandes enlaces da cidade. Sempre sem ser convidado. Festa com convite, não tinha a menor graça.

A coisa era organizada. Cada um da turma ‘cobria’ uma região da cidade. Cada um ficava atento aos bufês de festas – já moda em São Paulo – e comunicava aos outros: hoje tem um casamentão no Torres, o medalhão de filé de lá é covardia. Não havia internet naquele tempo, pra gente entrar nos sites dos bufês e descobrir as festas dos finais de semana. Cada um passava no bufê da sua área, entrava, perguntava, e comunicava a turma.

Regra número 1: ir de terno e gravata, banho tomado, brilhantina e perfume (o velho e sempre bom Lancaster). Nos trinques. Como em festa de casamento ninguém conhece ninguém da outra família, íamos tranqüilos. Entrávamos separados. O pessoal do noivo achava que éramos parentes da noiva e vice-versa. O segredo era nunca se aproximar do noivo e da noiva, ao mesmo tempo. Quem não beijasse (no rosto) a noiva, estava excluído da próxima festa.

Na nossa turma de festa de casamento, como em qualquer outra, havia de tudo: o tímido, o gordo, o magro, o galã, o feio, o atrapalhado, o palhaço, o simpático, o mal-humorado. A missão era ver quem pegava mais mulher. Tirou pra dançar, 1 ponto; colou o rosto, 5; encouxou, 10; beijou no ouvido ou na nuca, 15; beijou na boca, 20; transou depois da festa, 50. Um de nós (sempre o tímido, o da letra bonita) era o encarregado da planilha. Anotava tudo. Às vezes, brigávamos: um dizia que encouxou e nem colou o rosto; outro, que beijou na boca no corredor do banheiro, e nem tirou pra dançar. O que somava mais pontos no mês era o campeão, o líder. Cabia ao líder escolher as próximas festas – às vezes aconteciam vários casamentos ‘bons’ no mesmo dia. Quem mais ganhava a liderança, depois do galã, era o atrapalhado (a mulherada morria de rir com ele) e o palhaço (idem).

A missão (impossível) que nunca ninguém conseguiu realizar, nem o galã, e essa valia 100 pontos, era paquerar a noiva, e ser correspondido. Sim, conquistar noiva. Uma vez, o magro, já trelelé, entrou naqueles trenzinhos que o pessoal faz no salão de dança, e grudou nas costas da noiva. Soltou a pérola, no ouvido dela: ‘casamento é a única prisão que você ganha liberdade por mau comportamento; vamos fugir, minha princesa?’. A noiva meteu um tapão na orelha do magro, veio o noivo, o pai da noiva, os amigos dos noivos. O pau comeu. Acabou a festa. Deu até beó na polícia.

Depois disso, ficamos meio manjados. Íamos cada vez menos às festas de casamento. Fomos amadurecendo (como era natural), namorando firme (como se dizia), noivando (como era costume), casando (como era normal), tendo filhos (como era esperado). Responsabilidades. No entanto, nunca deixamos de nos ver nesses anos todos. Pelo menos uma vez por mês, nos encontramos em uma churrascaria, pra relembrar os bons tempos das festas de casamento. Quase todos gordos e carecas. O galã, que se achava a cara do Alain Delon, foi o que pior ficou. E continua se achando.

Outro dia, faleceu a mãe do magro (até hoje). Fomos todos lá dar uma força pra ele, pra irmã (casou-se com o tímido) e, principalmente, pro pai dele (grande figura, amigão de toda a turma). O pai ficou tão feliz em rever a turma completa, que prometeu um churrasco, pra depois que a tristeza passasse.

Pouco mais de um mês, o magro chama a turma pro churrasco, na chácara do pai, pertinho de São Paulo.

Espanto geral. O viúvo nos recebe com uma namorada. Da idade dele. Loira. Rosto esticado, seios rijos à mostra, maquiada, brincos deste tamanho, colares, roupa colorida, sandálias prateadas de salto alto, esmalte vermelho (nas mãos e nos pés). Perfume francês? Perua!

— Vamos nos casar, pessoal!

Fomos logo buzinar na orelha do magro. Tá bem de madrasta, hein, companheiro? O coroa tá mandando direitinho, isso daí ainda dá um belo caldo. Aquilo é silicone puro, reparou? Meia-sola, cara, meia-sola, tá de bom tamanho. Quer o quê, a Sophia Loren? Pra mim, essazinha aí tá é afim da grana dele, é ou não é? Será que ele dá conta do recado?

A perua não está nem aí com os comentários. É seu quinto casamento, revela-nos, o magro.

Resolvo ir pro salão de jogos, dar uma geral nos jornais. A perua aproxima-se. Acende um cigarro, joga charme.

— Incomodo?

— Imagina…

— Posso ver uma parte do noticiário?

— Lógico. Qual caderno a senhora quer?

— Pode me chamar de você.

— Quer ver o caderno de variedades? Horóscopo?

— Obituário. Quero ver o obituário, por gentileza.

Passo o caderno. A perua, com destreza, dobra o jornal na página certa. Lê, atentamente, tudo.

— Desculpa a curiosidade: por que a senho…, você, quis ver o obituário. Morreu algum parente?

— Vira essa boca pra lá, meu bem!

Toca o celular da perua. Saio de perto. A perua fala pouco: “Tô olhando, sim, minha querida. Depois eu te retorno. Outro grande.” Continua lendo o jornal. Olha para os lados, disfarça. Rouba a página do obituário e a coloca na sua imensa bolsa de tecido, que combina com uma das cores do vestido. Fico na minha.

Depois do almoço, me aproximo da perua. Ela se antecipa:

— Eu sei que você percebeu que eu roubei a página do jornal, meu bem. Vamos ali, no jardim.

A perua me arrasta para debaixo de uma árvore, no gramadão, sob os olhares maliciosos da minha turma.

— Vou te contar uma coisa, só porque fui com a sua cara. Tenho uma turma de amigas, amigas de juventude, do século passado, que nos encontramos até hoje. A maioria, ou melhor, todas ex-viúvas, com exceção de uma, que perdeu o marido na semana passada. Ex-viúvas.

— Não estou entendendo onde a senho…, você, quer chegar.

— Nós lemos os obituários dos jornais todos os dias, mais especificamente as missas de sétimo e de trinta dias. Anotamos os nomes dos viúvos, damos uma googlada, vemos o potencial de cada um. Está me entendendo, meu bem?

— Quer dizer que…

— …isso mesmo. Conforme as possibilidades do viúvo, aparecemos na missa, damos os pêsames, um sorriso, trocamos uma idéia…

— …nunca podia imaginar que o Google…

— …que o Google fosse fazer a alegria das viúvas. O Google e esses remédios aí, está me entendendo?

— Quer dizer que a senhora e o pai do meu amigo…

— …foi no sorteio, juro! Nossa turma se respeita. Temos regras. Somos organizadas. Dessa vez, era a minha. Estou aqui.

— E eu que pensei que a minha turma…

— O que que tem a sua turma, meu bem?

— Nada não. Esquece.

Saio dali não acreditando no que acabara de ouvir. Minha turma aproxima-se, curiosa. O palhaço, sempre palhaço, manifesta-se:

— E aí, marcou o motel com a loirosa?

— Marquei sim, junto com a sua mãe.

O galã, barrigudo e careca, metido como sempre, analisa a situação:

— Qual é a da coroa? Falava com a maior intimidade com você. Falava e olhava pra sua boca. Mulher quando olha pra boca…

— Nada disso, meu! Estamos ficando velhos e ultrapassados, isso sim.

O feio, que ficou bonito depois de velho, está inquieto:

— O que foi que rolou, então?

— Conhece alguém que aprontou mais do que a nossa turma?

O tímido, hoje bem mais descontraído, de olho nos três filhos na beira da piscina, responde pela turma:

— Sei lá, faz tanto tempo… A gente aprontava legal.

— Pois é, meus amigos. Nossa turma era o máximo, a vida toda, não era? Nós estamos por fora…

— ???????

— Olha ela lá no celular. Nossa turma é pinto perto da turma dessa perua.

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