Carnaval…

Carnaval bom mesmo era o dos meus tempos de moleque, em Lins. O grande ícone da folia linense era um negro musculoso, bem-humorado, humilde: Paíca. Ele ainda está vivo, graças a Deus, com seus oitenta e tralalá. O carnaval da cidade é que morreu, faz tempo. O Paíca era dono da única escola de samba local. E que escola!

Naquele tempo, final dos anos sessenta e início dos setenta, havia o corso pela Avenida 21 de Abril, uma espécie de ‘Passarela do Samba’. Pra quem nunca ouviu falar, corso é um cortejo carnavalesco de carros. Quase não existiam blocos de rua. As pessoas se amontoavam nas janelas das casas e nas calçadas para ver caminhões e caminhonetes lotadas de gente fantasiada nas carrocerias, jipes sem capotas, fuscas, Aero-Willys, Simca Chambord, Vemaguete, desfilarem pela avenida. Quem estava nos carros esguichava água e jogava confete e serpentina no público. E o público devolvia da mesma maneira. Ninguém brigava. As vezes, ao invés de água nas bisnagas, o líquido era xixi mesmo. O clímax era quando a Escola de Samba do Paíca apontava lá em cima, na 21 de Abril. E as mulatas, o que que era aquilo? Diziam que vinham do Rio de Janeiro, especialmente pra desfilar pro Paíca. E ele no comando, bonitão, todo de branco, com seu inseparável chapéu e sua ginga característica. E ai de quem se aproximasse das mulatas!

O Paíca sempre foi forte. Fora do carnaval, fazia (faz até hoje) carretos, com sua velha picape, azul-desbotado. Grandes mudanças até transporte de pequenos animais é com ele mesmo. Trabalhador. Sua escola nunca teve ajuda de ninguém, patrocinador, essas modernidades. Ele mesmo levantava a grana, na carroceria da sua picape. Bom de briga. Quando o Linense (hoje na A1 do futebol paulista) jogava contra o Penapolense (A3, hehe), lá na casa deles, por exemplo, era uma verdadeira guerra. A rivalidade entre o Linense e o Penapolense, pra se ter uma ideia, é como Corinthians e Palmeiras, Grêmio e Internacional, Atlético e Cruzeiro, Vasco e Flamengo. O pau comia. Dentro e fora de campo. Dentro, jogo disputado, violento, quase sempre terminava empatado, com vários jogadores expulsos. Um verdadeiro clássico. Fora, briga entre as torcidas. E quem fazia parte da comissão de frente da galera do Clube Atlético Linense, o Elefante da Noroeste? O Paíca, lógico. Grande Paíca! Quem chegava perto dele, já tombava pra trás, assustado. O Paíca enfrentava três ou quatro de uma vez só e dava pau em todos. Ele e o Serjão Matogrosso, outro ‘armário’. Quer dizer, a gente torcia tranquilo, porque os dois seguravam a onda de violência nos estádios.

Depois do corso e da Escola de Samba do Paíca, o pessoal ia pros clubes. Havia três na cidade: o Linense (não confundir com o time de futebol), da chamada ‘sociedade’; o Comercial, mais popular; e a Associação, dos japoneses (Lins sempre teve colônia nipônica muito grande). Quatro soirées (de sábado à terça) e duas matinês (domingo e terça) anunciavam os folhetos em branco e preto.

Nos salões, sempre lotados, havia concursos de blocos, fantasias, foliões e folionas. O pessoal caprichava na originalidade. Lembro-me muito bem do ano em que deixei de ‘brincar’ nas matinês, para ‘pular’ nos bailes noturnos, no Clube Linense. A animação era por conta do ‘Toninho e Seu Conjunto’, a grande orquestra da cidade, liderada pelo simpático Waldir, no trompete. O bloco vencedor daquele carnaval foi o ‘Branca de Neve e os Sete Anões’, onde a ‘Branca de Neve’ era o Chiquinho, o único anão da cidade, e os ‘Sete Anões’ eram garotões, todos com mais de um metro e oitenta de altura.

A orquestra tocava e os foliões giravam no salão, no sentido anti-horário (ou seria horário?). Sempre havia um ou outro engraçadinho, os mesmos de sempre, que, para aparecer, rodavam ao contrário, com os dedos indicadores levantados.

Ninguém ia de cara limpa pros bailes. O pessoal, ou enchia o caco ou cheirava lança-perfume ou tomava bolinha. Maconha rolava mais no Comercial, diziam, assim mesmo, com moderação. Pervintin era a droga mais disputada. Bolinha. Teve um cara lá, mais velho do que nós, metido a malandro, que pra ganhar algum troco, pra curtir seu carnaval tranquilo e garantir seu cuba-libre, comprou uma porção de sacarina (bolinha adoçante) e pediu pra minha turma, imberbe, caloura em soirées, vender. Como se fosse bolinha de verdade. E avisou: “Presta bem atenção, seus bosta! Tem que falar pros cara tomar rapidinho. Por na boca e engolir! Pá pum!”. Vendemos tudo, deu a maior grana. O dinheiro foi repassado, integral e ingenuamente, para o malandro. Nenhuma ‘comissão’ pros moleques. Um dos compradores descobriu a farsa, juntou-se às outras vítimas do ‘golpe das bolinhas’, e nos deram o maior cacete.

Depois dos bailes, os já completamente embriagados, partiam para o Comercial. Lá, a animação ia até o sol raiar e a mulherada era bem mais liberada, digamos assim. Camisinha pra quê? Os que ficavam, desciam para o restaurante do próprio clube, pra tomar canja de galinha ou sopa de cebola, pra espantar a bebedeira.

Na última noite da folia, tradicionalmente, lá pelas tantas, a orquestra parava, para ver, ouvir e dar passagem para a única escola de samba da cidade, e seu batuque inconfundível, com o mestre Paíca e suas mulatas gostosas, rebolando pelo salão do clube da ‘sociedade’. Assim, como na 21 de Abril, era o clímax do carnaval.

E ai de quem se aproximasse das mulatas!

Grande Paíca!

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