Coisa de mineiro

O jornalista está no banco da frente, ao lado do motorista. Viaja para o interior de Minas Gerais, a trabalho. Vai escrever um livro sobre uma grande empresa. Estrada cheia de curvas. Perigosa. Como todas do Estado.

— Pega aí o albinho no porta-luvas – pede o motorista.

— Com licença. Esse aqui?

— Esse mesmo. Pode olhar.

— Gracinha! Quantos anos tem o bebê? Menina, né?

— Um ano. Completou na semana passada.

— Bonita a mãe dela. Sua filha?

— Não! A bebê que é a minha filha. Essa é a mãe dela.

— Desculpa perguntar, mas quantos anos o senhor tem?

— Sessenta e sete no mês que vem.

— Sessenta e sete e uma filhinha de um ano? E essa bonitona… desculpa, é a sua mulher?

— Não. É a mãe da minha filha. Minha mulher tá em casa.

Silêncio.

— Daqui até lá dá quantas horas de viagem?

— Uma base de três, três horas e meia. Pertim.

— Estrada movimentada. Muita subida e descida. Curvas fechadas. Sempre foi motorista?

— Desde quando eu tirei a carteira. Cinquenta anos! Sempre trabalhei na praça. Táxi. Depois eu abri uma oficina e passei a consertar os carros da empresa. Pediram pra mim dirigir pra diretoria. Larguei a praça, vendi o táxi, comprei uns carrinhos. Agora sou exclusivo da empresa. Tenho uma frota.

— Parabéns! O senhor dirige muito bem, sabia? Seguro.

— Obrigado. Graças a Deus sempre fui bom de volante. Nunca sofri um acidente. Nunca bati um carro. Nunca!

Silêncio.

— Pode olhar o albinho até o fim.

— Mas a sua mulher, quer dizer, a mãe da sua filha… Bonita… Muito bonita! Desculpa a curiosidade, quantos anos tem essa moça?

— Vinte um ou vinte e dois.

— Nessa foto aqui de maiô, parece menos.

— Tirei lá no clube de campo da empresa. Gostou?

Hora do almoço. O motorista para num restaurante de estrada.

— É a melhor comida mineira da BR. O senhor vai gostar. Os diretores e os visitantes da empresa só comem aqui.

— O senhor almoça comigo.

— Como um lanche ali no balcão. O rapaz até já me conhece. Tô acostumado. Faço isso umas três vezes por semana. Levando ou trazendo gente de Beagá pro interior.

De sobremesa, o jornalista pede doce de leite, goiabada e queijo branco. O motorista, cafezim. Pegam a estrada. Estão mais próximos.

— Então o senhor gostou da minha morena…

— É… Muito bonita. Tem um belo corpo. Altiva! Silicone?

— Magina. Carne pura.

— E como é que senhor conheceu ela?

— Era vizinha da minha oficina. Morava com o marido.

— Marido???

— Sim. Era casada. Mas sem filhos.

— E o marido?

— Que que tem ele?

— Nunca desconfiou de nada? É bravo?

— Dá dois de mim. De altura e de largura. Um frouxo!

— Desculpa, mais uma vez, a curiosidade: como é que vocês se conheceram, quer dizer, como é que o senhor se aproximou dessa moça?

— Quando eu estava montando a oficina, ela passou em frente, de shortinho branco, curtinho. Batia aqui, ó. Shortinho branco e camisetinha verde. Camisetinha, não. Uma espécie assim de sutiã grande. Tá me entendendo? Como é mesmo o nome disso?

— Bustiê. Shortinho e bustiê?

— Isso daí. Nem lembro o que eu falei pra ela, mas ela gostou. Deu um sorrisinho… Esqueci a morena. Uma semana depois, com a oficina já funcionando, ela passa de novo. Vestidinho florido, dessa vez. No meio da coxa. Sandalinha, dessas de amarrar no tornozelo, com o pé todo de fora.

— Mas e aí? Falou o quê?

— Nem lembro o que eu falei. Não me lembro de nada. Só sei que depois de uns dias ela tava dentro do meu carro, na estradinha atrás da empresa.

Parada para o xixi. Estão cada vez mais íntimos.

— Aí, você pode imaginar. A gente saía todo final de tarde. O marido dela trabalha num escritório de contabilidade no Centro. Ela ficou apaixonada comigo.

— E você tomando o remedinho pra agüentar a morena…

— Que que é isso? E eu sou homem de tomar remédio pra aguentar mulher? Ainda mais essa daí?

— E o marido não desconfiava de nada?

De repente, um imenso congestionamento. A estrada está em obras no acostamento. Ficam parados, esperando os carros que vêm no sentido contrário passarem.

— Aqui em Minas é assim. É obra pra tudo quanto é lado. Ainda mais agora em época de eleição. Reparou como a estrada tava boa perto de São João del-Rei?

— É verdade…

— Daqui a pouco liberam os carros de cá pra lá.

Meia hora depois a fila anda.

— E o marido dela não desconfiava de nada?

— Desconfiava? Ele pegou nós no flagra!

— Cê tá de brincadeira…

— Tava lá na estradinha, lusco-fusco, no bem-bom, quando acendeu a luz alta da cabine dupla dele no meu retrovisor. Caminhonetão branco. Meu marido! Ela gritou. Percebeu na hora. Começou a chorar e a tremer de medo.

— E você?

— Engatei a primeira e acelerei pra cidade. Era a única saída. E olha que o meu carrinho não tinha a metade da força da cabine dupla dele.

— Você é louco, mineiro.

— Entramos na cidade. Ele grudado na minha bunda. Cantando pneu. Parecia cena de cinema. Todo mundo viu. Resolvi pegar o caminho pra BR.

Motorista e jornalista chegam na cidade. Vão direto para a empresa. O jornalista é recebido por um dos diretores. Jornalista e motorista se despedem. O jornalista faz o trabalho dele em poucos dias. Um dos diretores pede um carro com motorista para levá-lo de volta para Beagá, onde tomará um avião para seu local de origem. O jornalista sugere o motorista sexagenário. Diz que sentiu segurança com ele, gente muito boa.

— Aí, nós ficamos escondidos na BR até de madrugada. Quando voltamos pra cidade, a cidade inteira já sabia. Ela foi pra casa dela e eu pra minha.

— Mas e o marido dela e a sua mulher?

— O marido tava mais calmo. Apaixonado com ela. A minha mulher já sabia de tudo. Queria me matar. Tenho duas filhas casadas, não sei se comentei com você. Três netos. Conversei, conversei, conversei. Ela acabou aceitando a situação. Depois de um tempo a morena ficou grávida.

— Continuou saindo com a morena???

— Mas é lógico! Ficou grávida e o marido expulsou ela de casa, quando notou a barriga. Montei uma casinha pra ela e pra minha filhinha. Passo lá todos os dias. Não é uma belezinha? É a razão da minha vida.

— Tudo em paz?

— Mas é lógico! Minha mulher é um amor. Não largo dela por nada desse mundo. Tem um coração…

Silêncio. Quilômetros de silêncio.

— Quando nós chegamos na empresa, você tava dizendo que entraram na cidade na maior velocidade, com a cabine dupla do marido no seu encalço, e depois seguiu para a BR. Parecia cena de filme policial. Não ficou com medo de ele te alcançar e encher vocês de porrada? Até matar vocês?

— Tenho cinqüenta anos de volante, meu amigo. Ocê acha que ele deu conta?

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