Conversa de homem

Quando surgiu a primeira pílula para disfunção erétil, foi uma festa no clube. A turma dos veteranos do futebol não falava outra coisa.

— É uma maravilha! Nem parece que é seu. Já experimentou?

O primeiro que experimentou, o mais velho do time, que nem joga mais bola, quase foi expulso de casa. Tomou, mostrou para a patroa (ela quase desmaiou quando viu) e saiu correndo para o clube, para exibir para os amigos, deixando-a na saudade.

Teve um outro, nem tão velho assim, casado há mais de vinte anos, resolveu tomar e testar com a própria mulher. “Fica tudo em casa. Se não der certo, ela não vai nem reparar.” Tomou. Ficou andando pelo quarto, achando que fosse sentir um barato diferente, ter visões, algum treco. “Aconteceu nada, mas quando eu deitei na cama e encostei nela…”

— Que que é isso, bem? Para com isso! Você nunca ficou assim, desse jeito… Sai pra lá. Deixa eu dormir. Tou explodindo de dor de cabeça.

Ele, canalha que sempre foi, disse que estava com ‘saudades dos bons tempos’. Ela, acreditou. Até passou a ‘dor de cabeça’. E ele contou o barato pra turma, no dia seguinte, na cerveja, depois da pelada.

— Sensacional! E quando você acorda, então? Se relar…

O pessoal ficou entusiasmado.

— Mas é bom mesmo? Não tem contra indicação?

— Pra mim não aconteceu porra nenhuma – respondeu o canalha, já usuário habitual da ‘azulinha’. De preferência com outras companhias.

— Dizem que quem tem problema de coração, não convém tomar.

— Frescura!

— Tenho um primo, deve ter uns cinqüenta, cinqüenta e cinco, no máximo. Boa pinta até hoje. Tomou e saiu com uma de dezenove. Ela falou que nunca tinha conhecido um homem como ele. Gamou. E ele, o meu primo, ficou na dele, não é besta. Disse que sempre foi assim, principalmente com garotas encantadoras como ela. Namorou com ela o maior tempão. Chegou até a ficar noivo, de aliança e tudo. Também saía com uma outra, miss não sei que lá, ao mesmo tempo. O cara se deu bem. Só pega brotinho.

— Também ouvi falar desse remédio aí. Dizem que é coisa de cinema.

Com o tempo, surgiram outras pílulas indicadas para ‘homens com dificuldade para obter ou manter ereções adequadas ao bom desempenho sexual’. As dúvidas da turma só aumentaram.

— Saiu uma aí que dura trinta e seis horas, já ouviram falar?

— Trinta e seis horas? Como é que o cara consegue ficar trinta e seis horas com o…

— Lógico que não fica trinta e seis horas armado, seu idiota! Assim o cara morre. Tem que ter estímulo. Já experimentei. Fora de série.

— Quer dizer que…

— Se não tiver estímulo, não acontece nada. Fica lá, em ‘repouso’, como se diz.

— Vou confessar uma coisa – disse um outro, o mais tímido da turma. — Tomei uma outro dia. Pra curtir com a minha esposa, lógico. Engoli antes de sair de casa, pra dar o tempo de reação. Levei ela pra jantar fora, tomamos vinho, luz de vela, o maior clima. Cheguei em casa preparadão. E não é que ela passou mal com a bebida, ou com a comida, sei lá, e não quis nada com nada?

— É a pior coisa. Tomar e não rolar…

— Pra mim – falou um dos mais velhos — o mais complicado é comprar. Agora, só vou em farmácia que tem homem, coroa, no balcão, depois da vergonha que eu passei. Outro dia, entrei numa, na esquina de casa, só tinha mulher para atender. A mais novinha, se aproximou, toda solícita: “Pois não, senhor?” E eu, gaguejando: “Tem aquele remedinho…” E ela, antes de eu explicar, só pela minha cara, já falou alto, pra farmácia inteira ouvir: “O senhor quer de 50 ou 100 miligramas? Saiu um novo agora, lançamento. Pode tomar com bebida alcoólica…”. Nunca mais passei na porta.

— Eu não tomo mais! Já experimentei todas – disse o intelectual da turma, o centro-avante do time principal de veteranos do clube.

— Não toma mais, por quê? Não funcionou com você?

— Lógico que funcionou. E com a minha mulher! A besteira foi ler a bula. Tenho implicância com bula. Aquelas letrinhas miúdas, que ninguém enxerga e nem entende nada. Acho que devia existir a profissão de escritor de bulas.

— Leu a bula pra quê? Não funcionou? Então!

— Funcionou que foi uma beleza. E eu tinha até esquecido a bula. Só que, de madrugada, senti uma dor desgraçada nas pernas. E isso não estava escrito na bula. Levantei, encafifado, fui no Google, pesquisei, e descobri que um dos componentes do remédio poderia causar reações indesejáveis, como dores lombares. Não dormi a noite inteira.

— É por essas e por outras que eu nunca li uma bula na vida, tá sabendo?

— E olha que eu não sou um sujeito sugestionável. Nunca fui. Mudei de remédio. Num outro, amarelinho, tava lá na bula: ‘Pode causar reações menos freqüentes, como dor de cabeça, vermelhidão no rosto, rubor…’. Não deu outra: não consegui dormir, minha cabeça parecia que ia estourar. Tossi a noite inteira. Acho que não me dou com essas pílulas.

— Mas conseguiu, né?

— Lógico. Sempre!

— É isso que importa. É a finalidade do remédio.

A turma do futebol costuma levar suas esposas para o jantar dançante no clube, sempre aos sábados. Num desses bailes, o homem-gol, o intelectual, chama um dos companheiros e, de costas para as mulheres, cochicha.

— Olha essa aqui, ó. Última novidade.

— Mas você não disse que não tomava mais?

— Agora, tou pesquisando qual é o mal que a nova pílula do mercado vai me causar. Vou experimentar essa aqui. Indicação do farmacêutico meu amigo. Última novidade. Não sei nem o nome. Quer uma?

Tomou a dele. Meia hora depois:

— Tou com palpitação.

— Tá com o quê?

— Taquicardia, cara! Só pode ser a pílula.

— Você tá é com viadagem. Ninguém nunca morreu disso. Não me enche o saco!

— Põe a mão aqui no meu peito pra sentir. Tou suando frio, cara! Olha isso. Deixa eu sentar…

No dia seguinte, o centro-avante goleador não aparece para o jogo decisivo do interclubes. O companheiro confidente, imaginando o que pode ter acontecido, liga pra ele.

— Não deu conta, né?

— Lógico que dei! Tá me estranhando?

— Então vem pra cá! Entra no segundo tempo.

— Tou mal, cara! Não preguei os olhos.

— Pelo visto, dessa vez, bateu a bula completa, né? Todas as reações?

— Mais ou menos.

— Ainda bem que você não é sugestionável.

— Nunca fui! Essa pilulinha branquinha me pegou. Reparou o tamanhinho dela? Tive taquicardia, dor nas pernas, dor de cabeça, vermelhidão no rosto, renite. Tive até dispepsia.

— Teve o quê?

— Dispepsia, má digestão. A visão ficou turva.

— Conseguiu ou não conseguiu?

— Já falei, consegui! Senti todas as reações da bula. Principalmente a principal delas, lógico.

— Ainda bem. Pior é se não tivesse sentido nada. Já pensou?

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