De dentro do uber

Peguei um uber. Condutor negro. Vanderlei. Sentei no banco da frente, porque gosto de conversar com os motoristas para saber como é a vida deles circulando pelo trânsito caótico e neurótico da cidade e também se vale a pena o sacrifício. 

Mineiro de Patos de Minas, recém-chegado a São Paulo, recém-formado em engenharia da computação (ou qualquer coisa por aí), aguardando o diploma sair e oportunidades no mercado de trabalho. Recém-casado. Bom menino. Um bebê pra criar.

Estamos conversando, quando uma USV dessas grandonas que ocupam espaço nos estacionamentos, fecha o carro do moço. Duas loiras idênticas, uma mais moça, ao volante, e outra mais velha ao lado (filha e mãe?). Cabelos com o mesmo corte chanel. A da direção olha feio para o motorista e enfia a perua na frente dele, fazendo-o quase subir na calçada. Ele apenas levanta os dois braços e fala pra ele mesmo: E aí, aonde a senhora quer ir? A loira olha mais feio ainda e passa na frente do nosso carro. Filhas da puta!, grito. O moço permanece impassível.

Não andamos nem 100 metros. Em frente ao prédio comercial do Kinoplex, no Itaim-Bibi, um carro todo bacana (sou péssimo para identificar marcas), com um jovem dentro, tipo executivo-não-tenho-tempo-a-perder, topetinho com gel, está saindo do estacionamento. Olha para o motorista do uber com o rabo do olho e já coloca o possante dele na nossa frente (estávamos ali parados já há alguns minutos, aguardando o sinal abrir), sem ao menos aquele sorrisinho simpático ou gesto de posso entrar? Foi enfiando o carrão sem olhar para o motorista. FILHO DE UMA PUTA!, berro. Nosso mineiro, na dele.

— Essa gente bate panela pra derrubar governo, veste camisa da seleção pra desfilar na Paulista dizendo-se cidadãos – digo, nervoso.

— Pois é, uai! Fazer o quê?

Não disse mais nada até me deixar em casa.

(Dei 5 estrelas para o Vanderlei na avaliação do Uber. Com louvor!)

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