Dia de Reis

O pai chega em casa com o menino e veem em cima da mesa da sala uma sacola de papel contendo uma lata de uns 20 centímetros de altura por outros 20 de diâmetro, amarrada com fita de cetim preto. Um espetáculo!
— Panetone, pai! Posso abrir?
— Panetone, é? Não quer esperar a sua mãe?
— Por favor, pai, por favor!
— Pedacinho só! E depois fecha e deixa o laço do jeitinho que encontrou. Leva isso pra cozinha.
— De chocolate, pai! Olha aqui na lata. Adoro Língua de Gato.
— Kopenhagen.
— Tô ligado!
— Coisa fina.
— Panetone com Gotas de Chocolate. Recheio de Doce de Leite. Coberto e Decorado de Chocolate ao Leite. Tá escrito aqui. Mó delícia.
— Pela embalagem isso deve ter custado os olhos da cara.
O menino abre a tampa da lata, enfia a mão lá dentro e tira o panetone envolto em um saco de papel celofane amarrado com uma fita vermelha.
— Abre pra mim, pai?
— Isso é coisa da sua mãe.
— Como é que eu faço?
— Começa tirando esse outro laço…
— …tô tentando, isso aqui tá um nó do caraio!
— Pega uma faca.
— Vou cortar fora essa ponta desse papel e pronto.
— Tenta tirar só a fita. Essa sobra de papel é pra proteger o panetone quando a gente abre e depois tenta fechar, filho. Amarra isso direito!
— Melhor pegar a tesourinha pra tirar esse nó.
— Tá na segunda gaveta.
— Pronto, cortei! O panetone tá embrulhado em outro papel, olha pra isso.
— Rasga esse papel!
— Tá muito grudado no panetone, pai. Tiro o papel do panetone e deixo dentro do saco ou jogo o saco fora e coloco o panetone num prato, sem papel nem nada?
— Nem pensar! Junta formiga. Deixa como você encontrou. Isso é coisa da sua mãe!
O menino abre bem o saco de celofane, rasga o papel que embrulha o panetone.
— Consegui, pai! E agora?
— Corta um pedaço e come, ué!
— Essa faca não tá cortando, não entra direito. Vou comer só esse chocolate de cima, então!
— Sabia! Nada disso! Corta direito essa merda e pega um pedaço inteiro, com o chocolate e a massa, igual tá no retrato aí da lata, não tá vendo?
— A massa só tá com uma fileirinha de chocolate no meio, olha isso, diferente da foto.
— É o recheio que eles colocam pra disfarçar esse excesso de massa. Tem uns que vêm com umas frutinhas coloridas dentro que é um horror. Tem muita gente que gosta.
— Num tá rolando com essa faca, pai.
— Arranca com a mão! Panetone se come assim, na barbárie!
— Mas aí eu meleco a mão de chocolate.
— Faz como você quiser. Anda logo com isso.
— Vou tirar esse papel em volta então e cortar feito bolo.
— Isso!
— Ih, sujou tudo e essa faca não tá adiantando.
— Pega a de pão, a de serrinha.
— Já peguei, num rola! Tá desmanchando tudo.
— Olha só que merda que isso virou, filho!
— Foi mal, pai!
— Esse chocolate de cima tá derretendo todo.
— O que que eu faço?
— Vai com a mão mesmo!
— Quer um pedaço?
— Não sou chegado em panetone, filho!
— Muita massa mesmo. Pega uma água aí pra mim!
— Água?
— Suco, refri, qualquer coisa! Não consigo engolir isso direito!
— Quer parar de falar com a essa boca cheia que tá sujando todo o chão? Se beber é pior. Estufa!
— Estufa?
— É, a barriga. Empapuça!
— Nunca pensei que isso fosse assim, pai!
— Pois é.
Chega a mãe, esbaforida, falando alto da sala.
— Por acaso alguém viu uma sacola que deixei aqui em cima da mesa? Presente de amigo secreto pro meu chefe, aquele pentelho! Esqueci de levar no dia da festinha de Natal, ele tá me cobrando. E hoje já é Dia de Reis!

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