É nóis!

Fui convocado pelo Lelé, fiel amigo corintiano, sangue bom, para ir com ele ao cinema assistir a Todo Poderoso: O Filme – 100 Anos de Timão, em pré-estreia, para familiares de ex-jogadores e convidados. A exibição para atletas de todas as épocas, jornalistas da área, publicitários, CQC e Pânico acontecera no dia anterior.

O filme, uma produção da Canal Azul, é dirigido por Ricardo Aidar e André Garolli, e narrado por Dan Stulbach. Conta a história do poderoso timão, desde sua fundação, em 1910, até os dias de hoje. Documentário. É documentário, mas não é chato. Nem um pouco. É emocionante do começo ao fim. Dura 100 minutos. Mistura, com rara competência, cenas da história do clube, lances de jogos, fatos curiosos e depoimentos de jogadores, jornalistas, torcedores e historiadores. Não cansa. O som do cinema (Cine Bombril, no Conjunto Nacional, em São Paulo) é excelente. Nas cenas da Fiel Torcida, tem-se a sensação de se estar nas arquibancadas do estádio.

Num dos inúmeros depoimentos do filme, um torcedor, no centro do gramado de um Pacaembu lotado, suado, emocionado, revela: “Viajo mais de 400 quilômetros quase todas as semanas pra ver o Timão. Minha muié me enche o saco: ‘Ou eu ou o Corinthians!’ Quer saber? O Curíntia! Muié tem mais de milhão por aí; agora, Curíntia, só tem um. Eu te amo, Curíntia!”. E chora copiosamente.

O espírito do filme é esse. Pura paixão. Tia Dirce, torcedora símbolo do clube, faz rir (fala palavrão adoidado) e chorar (emociona-se fácil, quando fala dos jogadores, seus ‘filhos’). Sócrates, filosofa: “Diferentemente das outras torcidas, a Fiel não torce, joga com o time”. Até o presidente Lula aparece, devidamente trajado com a gloriosa camisa alvinegra: “Não saberia viver sem o Corinthians”.

Na plateia, muitos familiares de ex-jogadores. “Olha o vovô, que lindo!”, diz a senhora, sentada ao meu lado, para sua mãe, uma senhorinha bem arrumada, e emocionada (aos prantos), certamente filha do antigo jogador. De fato, o ‘vovô’ era mesmo bonitão. Cabelos lisos, repartidos do lado, com brilhantina. Uum certo ar canastrão de Clark Gable. Beque, alto e forte, do Timão dos anos 30. Quanto mais os jogadores das décadas passadas aparecem, mais a galera se manifesta. Ouve-se comentários de todos os lados:

— O tio Luizinho! Não acredito! Chamavam ele de ‘Pequeno Polegar’, lembra? Também, um metro e sessenta e quatro de altura… Como jogava esse daí. Driblava os adversários e sentava na bola. Humilhava.

— Nunca imaginei que o vovô fosse tão magro… Olha o bigodinho dele. Figuraça.

— ‘Cabecinha de Ouro’! Irado, mano! Ele é meu tio, tá ligado? Irmão do meu avô. Tô todo arrepiado, cara!

— Doutor Sócrates! Magrão… Esse jogava bola. Só batia de carcanha.

— Tô sentindo falta do Rivelino nessa história, ô, meu! O ‘Reizinho do Parque’. Aparece pouco. Jogava muito, xará. Dizem que o Maradona copiava ele. Era ídolo do Maradona! E aquele elástico, velho! O que que era aquilo? Cadê o Riva?

Na sessão, dois ex-jogadores: Neto e Basílio. Cada um em um canto do cinema. Neto é logo reconhecido pela plateia.

— E aí, Netão, beleza?

— Beleza!

— Tá gordo, hein! Comendo muito?

— Tô sim! Comendo a sua mãe!

A galera vem abaixo. Aplaude o eterno ídolo camisa 10 (sempre acima do peso).

Basílio é mais reservado. Antes de começar a exibição do filme, humildemente, proferiu algumas (poucas) palavras. Foi ovacionado.

Basílio ficou conhecido como ‘Pé de Anjo’, ao fazer o gol do título corintiano de 1977 (contra a Ponte Preta, de Campinas, 1 a 0), depois de 22 anos na fila. Eu estava presente nessa memorável porfia; portanto, sou testemunha ocular da história. Quando passou o lance do gol do Basílio na telona, não me contive, confesso, solucei. Solucei e chorei. Eu e a torcida do Corinthians.

‘Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo’, diria o saudoso speaker Fiori Giglioti, o moço que veio de Lins. Ainda sob forte emoção, depois do final do filme, fui lá falar com o ‘Pé de Anjo’. Apesar de dar o ar da sua graça em toda e qualquer homenagem que se presta ao glorioso Sport Club Corinthians Paulista, desde o seu gol milagroso e salvador, há mais de trinta anos, Basílio diz que não gosta de aparecer.

— Tá com quantos anos, Basílio?

— Meia-ponto-um.

Corpo atlético. Avô, já.

— Sessenta e um? Você está muito bem, Basa (olha a intimidade).

— Bem derrubado – brinca, e me dá um abraço (sincero).

As pessoas se aproximam para tirar fotos e pedir autógrafo do ídolo corintiano. Ídolo, apesar de nunca ter sido um craque na acepção da palavra. Jogava bem, é verdade, errava poucos passes, mas não era jogador de seleção. No entanto, o gol do título de 77 o alçou a condição de semideus.

— Você já parou pra pensar que é um iluminado, Basílio? Naquele bate-rebate na área da Ponte, final de jogo, todo mundo chutando pra gol, a bola do título quica bem na sua frente…

— Pois é… O Zé Maria cruzou da direita, a bola foi para o Vaguinho, que chutou no travessão. Achei que a bola tivesse entrado, quando bateu no chão. Já ia reclamar com o Dulcídio (árbitro), quando ela voltou e o Wladimir cabeceou. Até entortou o pescoço. Era outro que poderia ter feito o gol do título. Mas não era pra ser. O Oscar cresceu na frente dele e cortou de cabeça. A bola sobrou pra mim…

— Aí, você fechou os olhos e seja o que Deus quiser – provoquei.

— Tá de brincadeira, mermão! Bati com convicção. Caixa!

Golaço! Milhões de brasileiros em todo o país e milhares de fieis torcedores no Morumbi explodiram de alegria, naquele 13 de outubro, com o chute certeiro do Pé de Anjo. O arremate imortal de Basílio.

Agora, milhares, milhões de pessoas nas salas de cinema do Brasil voltam a vibrar com esse (e outros) momento mágico do futebol. Vale a pena ver Todo Poderoso: O Filme – 100 Anos de Timão. Mesmo que você não seja (ainda) corintiano.

É nóis na fita, mano!

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