E você, já tocou em quem?

Início dos anos 1990. A NBA entra com tudo nos lares brasileiros pela televisão. João e Gabriel, meus dois mais velhos, então pré-adolescentes, disputavam o Campeonato Paulista de Basquete Infantojuvenil e Infantil, respectivamente, pelo Esporte Clube Pinheiros. Federados. (Federado é quem compete em torneios oficiais de alguma federação, seja basquete, tênis, futebol, etc, com direito a carteirinha com 3×4 e tudo, motivo de orgulho para qualquer um.) Os dois eram vidrados nos espetaculares atletas norte-americanos.
O técnico deles era o Cadum, jogador profissional da seleção adulta (estava naquele inesquecível jogo em que o Brasil ganhou o ouro dos Estados Unidos no Pan-Americano de Indianápolis em 1987), gente boa, que trabalhava nas horas vagas com turismo. Não é todo esportista que se dá bem neste país que não está nem aí com seus heróis. E esse técnico-agente descobriu a América: levar essa molecada para ver jogo de basquete de gente grande nos esteites.
Cadum preparou um pacote de viagem caprichado para os meninos: conhecer Chicago e Orlando, para assistir aos jogos dos times das duas cidades, além de um pulinho básico na Disney. Gabriel, o meu segundo, foi nessa.
O primeiro jogo foi Chicago Bulls contra Houston Rockets. Em quadra, nada menos que Michael Jordan, Scottie Pippen, Charles Barkley e Clyde Drexler, além de Hakeem Olajuwon e Dennis Rodman, entre outros. Para quem acompanha NBA, sabe de quem estou falando. Para quem nunca se ligou, esses aí são algumas das estrelas de primeira grandeza da história do basquete mundial de todos os tempos.
Os ingressos eram para a última fileira das arquibancadas, muito distante. Mas nossos basqueteiros-turistas-torcedores, brasileiros, logo descobriram um jeitinho mais fácil de ver os ídolos de perto: o corredor de acesso aos vestiários. Ficaram o jogo inteiro encostados na murada baixa ao lado da passagem dos ídolos, aguardando o intervalo e o final do jogo – os atletas dos dois times obrigatoriamente sairiam por ali. A expectativa era ser cumprimentado por eles. Mas eles passam direto e nem ligam para os fãs. Gabriel e Mickey (não o Mouse, mas o amigo do meu filho, outro basqueteiro infantil) gritavam os nomes dos atletas para chamar atenção e estendiam os braços. Alguns olhavam. E batiam nas mãos deles.
— E aí, Mickey, tocou em quem?
— Toquei no Barkley, e você?
— Toquei nele, no Olajuwon, no Drexler e no número 14. Tocou em quem, Gamboa (outro brasileirinho da turma, meio tímido)?
— Em ninguém, ué! Era pra tocar?
Apenas o Gabriel e o Mickey conseguiram tocar nos jogadores. E ficaram se gabando (até hoje) por isso. Nos outros jogos da excursão, a mesma coisa: ida estratégica para o túnel, braços esticados, mãos abertas. O que importa é tocar em alguém.
— Toquei no Jordan! Precisa ver o tamanho da mão dele, mano! Suada pra caramba! Não lavo a minha nunca mais.
— Consegui tocar no Pippen. Ele até deu uma risadinha pra mim, com aqueles dentão branco.
Gabriel trouxe a cultura do toque para dentro de casa. Para a família. Para os irmãos. Para os amigos.
A partir de então, qualquer reunião social, encontro de amigos, conversa de bar, se alguém cita algum famoso, tipo, fui numa festa e a Fernanda Torres estava lá, a pergunta é a mesma:
— Tocou nela?
Ir aos lugares, quaisquer, cruzar com algum famoso e não tocar, não tem a menor graça. O importante é o touch. Ainda que sem querer querendo, um leve esbarrão.
Eu, por exemplo, já toquei no Pelé (tinha uns 10 anos de idade, me borrei todo), no Ayrton Senna (uma antipatia), no Chico Buarque (uma simpatia), no Gilberto Gil (uma alegria), no Raul Seixas (uma loucura), na Nina Hagen (outra loucura), no Bill Haley (e nos seus Cometas, uma aventura), no Chacrinha (e nas chacretes, uma farra), no João Ubaldo Ribeiro (uma diversão), no Luís Fernando Veríssimo (uma emoção), na Fernanda Torres (uma surpresa)…
E você, já tocou em quem?

Comments are closed.