Ela é carioca

Um ano e oito meses depois de ter iniciado (e terminado) minha carreira de bancário do Banco do Brasil, onde tinha estabilidade e uma promissora aposentadoria no futuro, resolvi ir para o Rio de Janeiro. Trabalhar e curtir a beleza da cidade e das mulheres maravilhosas. Era jovem.

Escrevia para um jornal alternativo durante o dia e saía à noite, atrás de mulher, com meus únicos amigos cariocas de então: dois gêmeos idênticos, apesar de um ser mais bonito do que o outro.

Era noite de estreia do filme Tubarão, no Cine Leblon 2, perto do apartamento onde eu morava. Estávamos no ponto do ônibus, cheio de gente, quando apareceu a morena. Morena não, mulata. Não acreditamos no que vimos. Mais alta do que nós e da maioria das pessoas ali. Corpo perfeito. Cabelos longos, cacheados… Foi o maior tumulto no ponto. Impossível não reparar nos atributos daquela carioca. Pele dourada, olhos verdes, dentes brancos. Mais do que depressa, eu e os gêmeos nos aproximamos da morena e começamos a falar com ela. A conversinha e as poses e as caras e as bocas de sempre, como convém. Entramos no ônibus. Ela topou ir ver o Tubarão.

— Sandra.

O Leblon 2 estava abarrotado. Cada um foi para um lado. Não tinha como ficar os quatro juntos. A morena veio para perto de mim, sentamos no chão. Aqui bem próxima, com a perna direita à mostra, por entre a fenda do vestido branco, ela não tirava os olhos da tela. A cada cena que o tubarão abocanhava um banhista, encostava-se ainda mais em mim. Perfumada. E sem sutiã! Que seio esquerdo… Que coxa direita…

A sessão acabou. A plateia, assustada, saía aos empurrões. Os gêmeos, impressionados com a fita, tomaram o primeiro ônibus dali mesmo, rumo ao Grajaú, para a casa dos pais. Sandra ficou comigo, morávamos perto. A noite estava agradável, voltamos a pé. Paramos em um bar para uma cerveja. Conclusão: fomos para o meu apartamento ver a minha coleção de miniaturas de garrafas de uísque. Nos anos 1970, mesmo com toda a repressão política, o diálogo com o sexo oposto era mais tranquilo, não havia censura.

A morena… Nunca vira nada igual em toda minha vida.

Começamos a nos encontrar, de vez em quando. Sempre na porta da minha casa, porque ela não gostava que eu fosse esperá-la em frente ao apartamento dela. E que prédio ela morava! Quase todas as noites, íamos jantar nos restaurantes do bairro. Leblon. Baixo Leblon. O lugar da moda. Eu, cavalheiro, pagava as contas. A gente se dava superbem. Sandra era bem-humorada, divertida, sorridente. Só emburrava quando o assunto era família. A dela. Passamos a sair todos os dias, a dormir juntos, como verdadeiros namorados apaixonados.

Fiquei um pouco distante dos gêmeos por causa dessa história. Eles até perguntaram se ela não tinha umas irmãs, primas ou amigas, para sair todo mundo junto. Ela dizia que não tinha nada a ver.

Paulhista, aproveitei a bela parceira e fui conhecer os pontos turísticos da Cidade Maravilhosa. Tomamos chuva nas escadarias do Cristo Redentor por duas vezes (“Será que nunca vou ver o Cristo sem essas nuvens escuras por cima?”), passamos medo no bondinho do Pão de Açúcar (“Já pensou se essa merda despenca lá pra baixo?”). Não perdíamos um domingo de futebol no Maraca. Sandra era Flamengo, doente, óbvio, e sabia a escalação inteira do time. Eu torcia pelo Fluminense, no Rio, mais por influência do meu querido tio Mauro, tricolor roxo. Com o tempo, passei a gostar do Mengão. Ficava com a morena no meio da galera rubro-negra, que lembra a minha fiel torcida corintiana, aos beijos e abraços. Estava verdadeiramente apaixonado pela carioca.

De repente, ela sumiu. Não ligou mais, não deu notícias, desapareceu do Leblon. Depois de uns dias, preocupado, resolvi ligar para a casa dela, mesmo sabendo que ela não ia gostar nem um pouco.

— Pronto!

— Boa tarde!

— Com quem quer falar?

— Com a Sandra…

— …

— Alô? A Sandra está, por favor?

— A Sandra não trabalha mais aqui!

Meus dias de Rio de Janeiro jamais foram os mesmos. Os gêmeos reapareceram, animados, cheios de amor pra dar. Continuamos a nossa batalha noturna, agora sem a menor graça, em busca de novas aventuras. Nada fácil…

Difícil mesmo foi esquecer a carioca da pele dourada, dos olhos verdes, dos dentes brancos.

‘Tubarão’ como aquele, nem no cinema.

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