Elevador do serviço

O elevador ainda estava no térreo, já cheio, quando ela apareceu. A maioria das pessoas ali, somadas, superava tranquilamente os setenta quilos regulamentares por passageiro. Estávamos bem acima do limite permitido pela plaquinha; mesmo assim, apressada, ela entrou. Entrou, soltou um bom-dia mal-humorado, ordenou para a mocinha ao lado apertar o 1, por favor, e se postou bem na minha frente, no minúsculo espaço que restava na cabine. Lotação completa. O elevador velho deu uma baixada, gemeu e iniciou a lenta subida.

Só podia ser ela! Eu já a conhecia de nome, de ouvir falar. Todos os presentes olharam imediatamente para a moça. Para o decote da jovem. Impossível não notar aquilo. Um espetáculo à parte – e ao mesmo tempo surreal – aqueles seios gigantes a menos de um palmo da minha boca. Centímetros até. Estava frente a frente com a famosa peituda do primeiro andar. Se eu fizesse biquinho assim com os lábios ou mostrasse a língua pra ela, tocava fácil naquela exuberância.

Trajava uma blusinha simples, azul anil, a moça, estatura mediana, cabelos curtos, negros, chanel, que só faziam realçar aquele colo fenomenal. A blusa era tipo tomara-que-caia, que passava pelos seios pouco acima da linha dos bicos. Isto quer dizer, eu tinha duas montanhas, uma autêntica cordilheira dos andes bem embaixo do meu nariz.

De entrada, a jovem já me enquadrou com um olhar de quem quer dizer, gostou? Olhos azuis combinando com a roupa. Entre nós, só a opulência. O suficiente para colocar nossos olhares a uma distância de mais ou menos uns dois palmos. Uma régua de escritório. Pela respiração, tinha ido fumar lá fora. Dava pra colocar tranquilamente ali em cima daquela abundância uma bandeja com umas trocentas taças de cristal com prosseco, sem que o líquido sequer se mexesse. Firmeza. Sorri sem-graça pra formosura. Ele me fulminou com o olhar, tá rindo do quê?

Dei uma geral no elevador com minha visão panorâmica e percebi que todos os ocupantes – um garotão agitado e risonho de macacão (motoboy?), cheirando a um cigarro diferente do da outra; um grisalho cabelinho curto pra trás, sério, de terno azul-marinho (advogado?), exalando um perfume qualquer; um barrigudão simpático (vendedor?) transpirando calor; uma japonesa tímida (secretária?); e outras pessoas que não deu pra ver direito – permaneciam na mesma posição, quase sem respirar. Silêncio total. Olhares fixos nos predicados da garota-sensação do edifício comercial, que, aparentemente, não estava nem aê. A peitudona com seus não sei quantos quilos de carne legítima de sobrepeso parecia acostumada àquele assédio. Carne tenra e branca, diga-se. Zero miligrama de silicone. De fazer inveja a qualquer mulher que a gente vê com os peitos de fora balançando nas redes sociais. Olhava em minha direção no fundo dos olhos: não me venha com esses óião comprido pra cima de mim, ô, tiozinho! E como evitar?

Na hora, me lembrei do sobrinho de um amigo, dez, onze anos de idade, flagrado pelo pai no notebook que esquecera ligado em cima de não sei onde antes de dormir. Estava lá, digitado no Google: teta de mulher. E na página, milhares de seios de tudo quanto era tamanho, cores e credos. O garoto adorava. Não havia primas mais velhas, tias e até avós que não tiveram suas partes de cima do biquíni ou mesmo sutiãs puxados pelo moleque. Teta de mulher, dizia a cada investida. Teta de mulher!

Fiquei imaginando o menino na frente daquelas tetonas! O que ele não faria diante de abundante natureza? O sobrinho do meu amigo iria enlouquecer no meio daqueles montes, subidas e descidas. Andaria de skate, patinete, patins, bicicleta; iria esquiar, deitar e rolar. Isto sim é teta de mulher!

E a tetuda não tirou os olhos de cima de mim até o elevador parar no primeiro andar. Não deu nem chance de eu reparar veias azuladas naquela brancura, estrias laterais, bico de peito grande ou pequeno. Eu nem piscava de medo dela. Antes de nos abandonar, me deu mais uma olhada enviesada, virou-se e retirou-se, acompanhada pelo vendedor pançudo, suado e sorridente. Saíram conversando, colegas de trabalho. E por que é que não subiram pela escada, um andar só?

As pessoas se acomodaram melhor com a retirada dos dois. O motoboy coçou a cabeça, quis falar alguma coisa, mas se conteve sob o olhar de censura da secretária oriental, que estava vermelha. O advogado grisalho ajeitou uns papeis em uma pasta debaixo do braço, todo trêmulo. Sorri amarelo para a japonesa sem peito algum, blusinha bege abotoada até o pescoço, que retribuiu envergonhada.

O elevador foi subindo e se esvaziando. Sobramos eu e o motoboy. Permanecemos em silêncio. Descemos no mesmo andar, cada um foi para um lado. Dei bom-dia para o garoto e ouvi-o, ao afastar, falando pra ele mesmo:

— Isso aí lá na minha terra, interiorzão, se não der vinte litro eu chuto o barde.

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