Elvira do Ipiranga

Não tinha 30 anos de idade e fui mexer com um dos símbolos nacionais, o Hino (os outros são a Bandeira, o Selo e as Armas). A Polícia Federal baixou e eu me escondi no banheiro, onde, literalmente, me borrei de medo.

A ‘bomba’ estourou no dia 11 de setembro de 1980 (exatos 21 anos antes do atentado terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York; uma coincidência às avessas). Uma data inesquecível para mim.

Trabalhava na Editora Três e fazia as publicações masculinas, as chamadas ‘revista de mulher pelada’. Para a edição da Privé, de setembro, escolhemos para a capa uma bela modelo, loira (foto importada, inglesa – naquela época, as produções de nu no Brasil ainda engatinhavam), empunhando uma espada. Na lâmina da arma, em magenta: “Independência ou Morte!”. Até aí, tudo bem. Foi no miolo da revista que a coisa explodiu.

Na página 60 da Privé daquele mês, está lá, a branquela, pernas abertas, como veio ao mundo. O título do ensaio: “Elvira do Ipiranga, Nascida às Margens Plácidas”. E no texto: em teus seios mais amores… entre outras mil (artistas) deste solo gentil… desafia teu peito à própria morte… Texto assinado por “Pedro Orleans”. Pra quê?

Final de tarde, o porteiro da editora liga lá de baixo: “Os homi tão subindo. Têm uns dez. Tudo armado com os revólver debaixo do sovaco. Fica esperto que a coisa tá feia pros seus lado”. A advogada da editora, também dá um toque: “Estão vindo pra minha sala. Melhor sair todos da redação. Escondam-se! Vou dizer que encerraram o expediente e resolvo com eles. Vamos, rápido!”.

Eu corri para o banheiro. Nem precisava ir pra lá pensando em me esconder. Estava apertado, de verdade. A advogada combinou com os homens da Polícia Federal que os responsáveis se apresentariam no dia seguinte, às 8 horas (por que tão cedo?), no Dops (Delegacia de Ordem Política e Social), da Superintendência Regional do DPF, de São Paulo.

No Dops?

A advogada revela: “Eles querem saber quem é o tal de Pedro Orleans (eu), que assinou o texto. O inquérito vai apurar se o nome do autor da matéria não é fictício. Caso se trate de nome inventado, os editores serão indiciados na peça policial, como incursos em vários artigos da Lei de Imprensa, mais especificamente no 17, da moral e dos bons costumes. Pena de três meses a um ano de detenção”. Pronto! Voltei para o banheiro.

No dia seguinte, oito da matina, em ponto, eu e mais dois colegas já estávamos na Polícia Federal. Olheiras. Pálidos. Mãos geladas. Os jornais, em cima da mesinha da sala, dão chamadas de primeira página sobre a ação policial. A Folha de S.Paulo destaca: “Ordem contra o erotismo parte do Presidente”. O presidente em questão é João Batista Figueiredo. Ele ordenou ao então ministro da Justiça, Ibraim Abi Ackel, que distribuísse nota convocando governadores e Tribunais de Justiça para ‘ação imediata contra publicações eróticas’. O título da matéria, de uma página, na Ilustrada: “Figueiredo recomenda ação antierotismo”. A primeira vítima foi justo a minha Privé, a da Elvira. A ordem: apreensão total dos 100 mil exemplares espalhados pelo País. E justo no dia do lançamento nas bancas.

O Notícias Populares, jornal que, diziam, se espremesse saía sangue, destaca, primeira página, assunto principal do dia: “Pornografia: federais abrem o 1º inquérito”. A matéria, logo na página dois, com o título “Começa a guerra à pornografia”, mostra a fúria da polícia, referindo-se ao texto do ‘Pedro Orleans’: uma grosseira sátira ao Hino Nacional, um acinte aos símbolos representativos do País.

Chovia muito no dia seguinte do meu 11 de setembro. Antes de ser chamado para depor, comento com meus colegas que tenho uma tia em Brasília, amiga do Abi Ackel, e que meu pai já tinha ligado pra ela ontem à noite mesmo. E daí? Daí que eu ainda não sabia o resultado da conversa da minha tia com o ministro da Justiça e estava louco pra ir ao banheiro.

Alguns policiais federais aparecem na sala, mal-humorados, com pacotes da Privé, encharcados, debaixo do braço. “Já recolhemos no Centro, mas com essa chuva não dá pra trabalhar; olha só como eu estou”, diz, todo molhado, o policial japonês, calça preta e camisa de seda idem.

Nem bem a revista chegou, o pessoal caiu em cima, pra ver a tal da Elvira do Ipiranga, que tanta confusão causara no País. “Mina gostosa, meu! Casava na hora!”, diz o garoto do café. “Dessa branquela aguada tem de monte lá na minha terra, em Itajaí, Santa Catarina”, comenta a senhora encarregada da limpeza (principalmente dos cinzeiros), ao ver, com os olhos bem próximos à revista, a moça de pernas abertas e seios fartos à mostra. Os policiais de plantão também observam a publicação. “Se eu pego quem escreveu essas coisa do Hino Nacional…”, brada o mais forte deles, um ruivo, de cabelos bem curtos, escovinha, óculos Ray Ban, lentes verdes. Outro policial, jovem, com cara de estudante, rebate o fortão: “Tá certo que não se deve mexer com os símbolos da Pátria, mas o cara que escreveu isso aqui até que é inteligente. Elvira do Ipiranga… Sacou o trocadilho, Ruivão?”.

Nós, lá. Mudos. Escondidos atrás dos jornais. O primeiro colega a depor sai da sala e diz que o delegado quer saber quem é Pedro Orleans. Só isso. Onde fica o banheiro, meudeusdocéu?

Entro na sala do delegado titular. Bandeirão do Corinthians na parede e foto do time campeão de 1977, ao lado. É dos meus. Relaxei um pouco. Simpático, o ‘mano’. Pergunta de supetão: quem é Pedro Orleans? Resposta na lata: eu. Ele apenas sorri. Acende um cigarro. E me passa a maior descompostura: que não se brinca com os símbolos nacionais, que as imagens obscenas atentam contra a moral e os bons costumes, que isso, que aquilo. Tudo isso, na maior calma. Diz que é pra aguardarmos, a Polícia Federal entraria em contato com a editora. Ainda conversamos um pouco sobre a importância do gol do Basílio, o ‘Pé de Anjo’, na conquista do Paulistão 77, depois de vinte e três anos sem títulos do Coringão.

Saio aliviado. Lá embaixo, a imprensa escrita, falada e televisada. Os policiais pedem pra gente se retirar pelas portas do fundo, pra evitar tumulto. Tenho a sensação de ser um superstar.

A Polícia Federal não nos incomodou mais. Será que a minha tia falou com o homem?

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