Empalhador

Tenho uma cadeira de balanço com o assento e o encosto de palha. Relíquia de família. O assento arrebentou, ficou um buraco. Minha irmã que sabe das coisas, me indicou dois profissionais.
Liguei para o primeiro. Pernambucano, simpático, falador. Expliquei a situação, ele me pediu uma foto. Eu disse que pelo número do celular que estávamos falando, não tinha acesso para o WhatsApp.
— É que eu tenho dois ship, um da Claro e outro da Tim. Manda para a Tim.
— E qual é o número?
— Tá com lápis?
— Aqui, agora, não. Pode falar que eu decoro.
— Nove oito quinhentos e noventa e quatro trinta e nove cinquenta.
— Vou pegar uma caneta.
— Posso falar?
— Devagar!
— Nove. Oito. Quinhentos e noventa e quatro. Trinta e nove. Cinquenta.
Fui anotando, assim mesmo: unidades, centena e dezenas.
— Senhor?
— Anotado.
Passei a limpo o número para o modo tradicional para mandar a foto da cadeira. Esse 9 8594.3950 também não tinha WhatsApp.
Estava ligando para ele nesse número, me chega um whats com um número estranho com uma foto de uma cadeira e um martelo. Era o empalhador gente boa, me mostrando o serviço dele por um terceiro número.
Liguei para ele pelo anotado, perguntei o que estava acontecendo.
— Esquece. Chego aí na sua casa amanhã logo cedinho. Hoje não dá que é o meu aniversário, sou de Câncer, a Fafá de Belém faz aniversário hoje também (9 de Julho), sessenta e três, um ano mais velha do que eu, blablabla…
— …passo o meu endereço aqui pelo whats, então.
— Pode falar que eu anoto. Trabalho na calçada em frente do prédio mesmo, assim divulgo meu serviço. Também não vou incomodar o senhor. Esse Corona 19 tá pior que alma sebosa.

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