Espírito olímpico

“O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade.” A frase é atribuída ao educador francês Pierre de Frédy (1863-1937), mais conhecido como Barão de Coubertin, o nobre que inventou os Jogos Olímpicos da Era Moderna a partir de 1896.
Na minha turma de esportistas, a máxima do barão nem sempre é levada ao pé da letra. Pelo menos no meu bom e velho basquete jogado desde o século passado, todos os sábados e domingos, religiosamente, no Pinheiros.
Meu jogo de bola ao cesto, chamado de racha, é com o pessoal da tal melhor idade. Sou um dos mais “jovens” da turma. A média na quadra deve bater nos setenta e tantos, com corpinhos de cinquenta e poucos e mentalidades de quase doze. Lá tem de tudo, engenheiros, funcionários públicos, dentistas, arquitetos, médicos, empresários, executivos de grandes empresas, aposentados, enfim. Uns jogam de máscara, outros não – os mascarados.
A disputa já começa no par ou ímpar para escolher os times. Primeiro, ninguém quer tirar, e as equipes só são divididas depois de um tempo de negociações – geralmente por dois jogadores que se equivalem tecnicamente. Segundo, os que não querem escolher de jeito algum, ficam ao lado de quem está escolhendo, dando pitacos, enchendo o saco. Terceiro, conforme esses palpiteiros são escolhidos, protestam que o time que caíram está ficando mais fraco porque não sabem escolher. Também tem os que que não gostam de jogar com fulano porque não vão com a cara ou são fominhas e não passam a bola. Perde-se mais um bom tempo aí.
Os times ficam supostamente equilibrados para o primeiro racha do dia. Nisso, novos atletas chegam atrasados com cara de sono (a bola começa a quicar umas onze da manhã) e aguardam a próxima partida no banco. A regra é clara: o time que leva cinco cestas primeiro sai da quadra para dar lugar aos que chegam depois. Os que já estão jogando, antes mesmo de a primeira disputa terminar, observam os que estão chegando e esperando, e já começam a reclamar: na próxima, vamos ter de trocar um ou outro elemento, olha o time que tá lá fora, só tem chutador e puxador de contra-ataque, não vão sair mais.
Parece que o importante é mesmo vencer (e jogar) sempre.
Dentro da quadra, a competição é pra valer. Tem de tudo na nossa arena olímpica: os que jogam bem, os que jogam mal, os mais altos, os mais baixo, os mais chatos, os mais divertidos, os que roubam, os que querem levar vantagem em tudo e os que reclamam o tempo todo com os adversários e principalmente com os companheiros de time. Sem contar os que param o racha em qualquer lance: foi falta, não foi falta, foi falta, sim senhor! Ninguém dá o braço a torcer: não dou a bola porra nenhuma, ele fez a mesma coisa na semana passada ou retrasada, pediu uma falta que não foi e não devolveu bola, lembram? E não devolvem mesmo. Mais um tempo perdido com essas altercações.
Existem alguns escandalosos que se fazem de vítimas. A qualquer contato físico com o adversário, gritam, pedem falta, se atiram no chão, gemem de dor, paralisam o espetáculo. Um desses, o mais chorão, completou oito-ponto-zero redondo recentemente. É famoso pelas suas encenações, todo mundo sabe e nem liga mais para as dissimulações dele. Outro dia, ele caiu dentro do garrafão (pra quem não sabe, garrafão é a zona do agrião do basquete) por conta de um esbarrão de leve que tomou de um adversário, sete-ponto-qualquer-coisa, barrigudão, baixo nível e mais forte do que ele. Começaram a se estranhar, a se ofender. O suposto agressor apelou feio: sua mãe tá na zona, seu safado, vá praputaquetipariu antes que eu me esqueça. Baixaria total. O oito-ponto-zero, nem aí com os pesados xingamentos do gordo sem-educação, permanecia sentado no cimento da quadra, fingindo dor. Um outro atleta, o mais veterano de todos, oito-ponto-oito (isso mesmo, 88 anos), que estava próximo ao lance, até então só ouvindo passivamente aquele diálogo enriquecedor, vendo o outro se lamuriando, diz baixinho: é fita! Pra quê? O oito-ponto-zero redondos sarou na hora, levantou-se e partiu para cima do octogenário mais octogenário e mais fraco que ele: o que você disse mesmo, seu velho corno de uma figa? Teve que ser contido pela turma do deixa disso, com frases como parem com isso, vocês não são mais crianças, viemos aqui para nos divertir. No que, um outro basqueteiro, lá do banco de espera, grita: quer se divertir, vai brincar parquinho, seu cuzão!
E têm também os que pegam leve, os que vão lá realmente para se divertir. Certo domingo, um sete-ponto-dois me contou, durante o racha, jogando contra o meu time, com a partida em movimento (enquanto um marcava o outro), a aventura amorosa que tivera com uma manicure naquela mesma manhã, depois da missa das sete, antes de vir jogar. E revelou detalhes sórdidos do affair, sempre com a bola em jogo, cada vez que um se aproximava do outro. (Ele continua dando trato nas cutículas até hoje. Ganhou da profissional uma escovinha de unhas, que é para a esposa não sentir fragrâncias comprometedoras.)
Vale destacar ainda um lá oito-ponto-um que abandona a equipe no meio do racha, porque o adversário está mais forte ou estão roubando na contagem ou seus companheiros não lhe passam a bola: não jogo mais desse jeito, não tem condições. Pega sua mochila e vai embora resmungando, como um garoto um-ponto-dois.
Depois do lazer da manhã esportiva, o racha acaba, todos pegam suas coisas e vão embora. Direto para o bar da piscina, tomar cerveja, juntos, como se nada tivesse acontecido.
Afinal, o importante não é mesmo competir? E com dignidade, como pediu o nobre barão?
Fim de semana que vem tem mais.

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