Esvaziaram a minha piscina!

Minha piscina, não! Nossa! Minha e de centenas de pessoas que marcaram suas vidas ali, mergulhando na água gostosa das piscinas da sede de campo do Clube Linense (não confundir com o Clube Atlético Linense, o glorioso Elefante da Noroeste, time da elite do futebol paulista, outro clube).

O Clube Linense, fundado em 1926, tinha duas sedes: a social, de estilo arquitetônico clássico, hoje tombado pelo Patrimônio Histórico, com seu suntuoso salão de festas; e a de campo, com as piscinas, suas quadras de tênis, futebol de salão e bocha, e a boate Chaléco, que veio depois. As sedes ficavam mais ou menos próximas uma da outra.

Eu quero falar é da sede de campo, que logo deixou de ser de campo, porque a cidade prosperou e cresceu tanto com a riqueza do café da região, que as novas residências logo cercaram essa área do clube. Gerações e gerações de linenses aprenderam a nadar nas piscinas do Linense. Quem ainda não sabia se virar dentro d’água, levava boias, de câmara de ar de pneus, e se esbaldava. Lins faz um calor dos diabos, desde sempre.

Ir pra ‘sede de campo’ era o programa diário das crianças e dos jovens da cidade. Pegava-se o calção (os meninos; não havia sungas) ou o maiô (as meninas; biquíni naquela época, anos 1950/60, só em Copacabana), enrolavam nas toalhas e partiam para o clube. Isso quando não iam já com o calção ou o maiô por baixo da roupa, pra não perder tempo. Na minha casa havia as toalhas de banho e as da piscina. A minha era a amarela.

As piscinas eram tão marcantes na vida da cidade, que a sede de campo era chamada de “Piscina”. Cadê fulano? Já foi pra Piscina. Sicrano? A essa hora, só pode estar na Piscina.

A Piscina só abria às três da tarde. Frequentava quem era sócio, óbvio, com apresentação da carteirinha, com foto 3 por 4. Sem esse documento, os porteiros, Seu Zé e Seu Esaú, não deixavam entrar: ordem da diretoria. E não tinha conversa. Depois, pra ter acesso às piscinas, exame médico. Quem não possuía, ia ao departamento ao lado dos vestiários e tirava. Se tivesse com frieira, nem adiantava tentar.

Os vestiários – feminino e masculino – eram divididos em duas alas: adultos e crianças. Foi no vestiário feminino adulto que aconteceu a célebre cena, imortalizada na novela Estúpido Cupido e no livro James Lins, do meu irmão Mario Alberto, em que os playboys da cidade subiram no teto, fizeram buracos no forro e ficaram espiando as mulheres trocando de roupa. A farra durou até o dia em que descobriram a mãe de um deles (‘Pô, mãe não vale!’) e o pau comeu lá em cima, com a molecada, 14 e 15 anos, despencando do alto, no meio da mulherada. Foram suspensos por um ano. Aliás, se alguém aprontasse alguma – empurrar o outro do trampolim, ser pego fazendo xixi dentro d’água, dar “bomba” na piscina infantil… – era suspenso. Nada pior do que ficar sem poder freqüentar a Piscina, ainda que por uma semana (pena mínima).

Havia a piscina grande (25×15 metros) e a pequena (formato redondo, uns 10 metros de diâmetro), infantil, que ficava ao lado. Na maior, nadou o grande Manoel dos Santos, o primeiro brasileiro recordista mundial dos 100 metros livre (1961). Na menor, as paredes do entorno eram decoradas com azulejos pintados pelo artista local, Teissuke Kumassaka (o mesmo que ensinou o consagrado artista Manabu Mabe – morava com a família, agricultores de café, em Lins – misturar as mais variadas cores de tintas).

A piscina grande começava rasa, mais ou menos com um metro de profundidade, e ia não dando pé aos poucos. No fundão havia uma caída brusca, uma espécie de rampa.

A Piscina só fechava nas segundas-feiras ou quando a piscina grande era esvaziada para limpeza. Não existiam esses equipamentos e produtos de hoje, para tratamento da água. Só quando esta estivesse bem verde, é que os funcionários entravam em ação. Bastava abrir o ralo no fundo e esperar a água escorrer. Isso durava dias. A piscina só era interditada, de vez, quando não havia mais água. A molecada aproveitava até o fim: a diversão era escorregar na rampa do fundo e cair de bunda no que restava da água escura, lá embaixo, que ainda não havia sido escoada. Depois, os funcionários limpavam azulejo por azulejo e abriam as torneiras para encher a piscina novamente. Isso durava dias. Ficava que era uma beleza. Limpinha. Azul.

Os trampolins eram verdes meio cinzas. O “primeiro” trampolim – tábua de madeira, com mola para impulsão, a um metro de altura da água, era ideal para cambalhotas; o “segundo”, também de madeira, a uns três metros, era bom pra pular de cabeça; e o “terceiro”, plataforma, bem alto, muito alto.

No terceiro trampolim, também chamado de “último”, muitos subiam até lá, mas só os destemidos pulavam pra valer (de pé, não tinha a menor graça aos olhos de quem estava observando). Os saltos mais concorridos eram o “anjo’ – saída de frente, pulo de cabeça: o saltador começa com os braços abertos e vai fechando à medida que se aproxima da água, juntando as mãos no final –; e o “pontapé na lua” – saída de costas, cambalhota pra trás (uma ou duas ou até três, dependendo da destreza de cada um), jogando o pé pra cima. Não havia instrutores de saltos ornamentais. Cada um inventava o seu estilo. E tibum!

Eram nos trampolins que os aqualoucos gostavam de aparecer. Na época do carnaval, os melhores saltadores se travestiam de mulher e se atiravam do “último”, de qualquer jeito. Sempre incentivados pelos outros, igualmente fantasiados, que ficavam na beirada jogando água na distinta plateia. A discussão entre os expectadores era para escolher a melhor fantasia e o salto mais acrobático, entre os participantes. Um acontecimento na cidade, os aqualoucos.

Bons tempos… Quantos namoros e casamentos surgiram na Piscina… A paquera começava à beira d’água e era sacramentada no salão das brincadeiras dançantes do Chaléco, a ‘boatinha’, logo mais à noite, ao som do Toninho e Seu Conjunto.

Com o surgimento do Country Club, a piscina da sede de campo do Clube Linense foi trocada pela piscina sem-graça, sem azulejos, pintada de azul, água fria, do clube de campo. Aos poucos, os linenses da cidade migraram para o campo. A Piscina caiu no esquecimento. Abandono total. Anos seguidos.

O final nada feliz desta história é o seguinte: sem ao menos tentar restaurar e reavivar um dos locais mais significativos e charmosos da cidade, a atual diretoria do Clube Linense, sem dinheiro (não existe mais de 50 sócios pagantes, hoje), vendeu a sede de campo, agora bem no centro da cidade, pra salvar e manter a suntuosa sede social, igualmente abandonada.

Esvaziaram a nossa piscina, pra sempre! Destruíram tudo.

FIM

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