Extraordinária

Já são 12h40. Entro apressado no Extra para tirar dinheiro no caixa eletrônico. Tenho compromisso marcado para daqui a pouco, não posso me atrasar. Além do hipermercado, o prédio tem um andar inteiro para refeições rápidas, com mesinhas espalhadas por todos os lados.

Horário de almoço. Para chegar ao caixa, vou ter de contornar as mesas, sempre cheias nessa hora. Assim que subo a escada de acesso ao piso da alimentação, percebo um pequeno tumulto em frente ao McDonald. Uma mulher – baixa, gordotinha, jovem, cabelos curtos – fala com voz alterada para um funcionário da casa – alto, magro, também jovem, meio curvado, crachá de gerente –, que, cabisbaixo, estático, completamente sem graça, apenas ouve: não é porque eu sou pobre que você não vai me dar o lanche! A moça parece bem irritada.

— Taqui o papel, quero meu lanche é já!

As pessoas nas mesas observam o barraco que está se armando. Algumas reclamam: vamos parar com essa zoeira aí! Um pequeno semicírculo de bisbilhoteiros, que adoram ver o circo pegar fogo, fecha-se em volta dos dois. A mulher, percebendo-se o centro das atenções, continua falando, agora mais alto, que é pobre, mas digna, que não precisa roubar pra comer, que o papelzinho tá ali na mão dela. Ela fala, olha para o funcionário paralisado e envergonhado; fala, olha para a plateia cada vez mais ansiosa pelo quiproquó. Alguns cidadãos já estão mastigando em pé.

Continuo minha caminhada rumo ao caixa eletrônico, agora passando bem próximo aos protagonistas. A mulher não aparenta bebedeira, está nervosa mesmo. Quando avanço uns 10 metros para o outro lado, me distanciando do bafafá, ouço a voz aguda dela.

— Ah, é? Ah, é?

Viro-me para trás e vejo a mulher, de costas para onde eu estou, jogando as sandálias havaianas azuis para os lados e tirando a calça leg preta. Grande parte dos curiosos, boquiabertos, fica em pé, não acreditando no que vê. Ato contínuo, tira a blusa branca, respira fundo, ah, é? e abaixa a calcinha bege, ficando apenas com o sutiã amarelo, meio torto. Um jovem executivo ao meu lado, engravatado, perfumado, gel no cabelo, sentencia: bunda feia, mulher feia, tô fora! Outro comenta com o companheiro de mesa: perninha curta, olha lá! O amigo grita: é isso aí, Mentira, mostra o seu valor! O público se diverte. O gerente altão e tímido se movimenta pela primeira vez, arregala os olhos em direção às partes da baixinha, vira-se e entra na lanchonete, em passos largos e rápidos. A cliente, só de sutiã, passinhos curtos e ágeis, sai atrás dele, balançando a bundinha de celulite, pulando suas próprias roupas amontoadas na passagem.

Lá de dentro sai uma garota que todos reconhecem ser a Funcionária do Mês por sua foto em destaque ao lado do caixa, agitada, querendo rir, querendo chorar, morrendo de rir, perguntando pelos seguranças. Alguns garotos, que viram a cena de frente, aplaudem a heroína despida. Aparecem dois homens de preto, os seguranças, andando vagarosamente. Sérios. Óculos escuros. Tomam cuidado para não pisar na roupa da elementa e vão direto para o interior do estabelecimento. E a voz dela lá de dentro, aos berros: taqui o papelzinho! Um dos seguranças sai, tira os óculos escuros, guarda-os cuidadosamente no bolso lateral do paletó, camisa molhada de suor, olhar ameaçador para todos os lados, pega as roupas da mulher, com as pontas do fura-bolo e do mata-piolho, cheio de nojo, e as levam para dentro.

Resolvo seguir o meu caminho. Cruzo com uma senhora vermelha, com o carrinho do hipermercado cheio: pelo menos é bonita, senhorr? Isso não vem ao caso, minha senhora.

Ando mais um pouco e a senhora alemã brinca com o jovem funcionário do hipermercado, que vem vindo apressado lá do tumulto: foi lá verr a moça, hein, garroton? O garotão fica todo sem jeito porque, realmente, foi lá ver a moça.

Não consigo tirar o dinheiro no caixa eletrônico porque a máquina está em manutenção, faço o trajeto de volta. Os espectadores estão menos eufóricos, mas felizes com o espetáculo que acabaram de presenciar, já que não se fala outra coisa na praça de alimentação.

Logo vejo a mulher estressada em uma das mesas, vestida, suada, descabelada, cercada por funcionários da loja. Está mais calma agora, mesmo assim resmunga alguns palavrões, enquanto toma um milk-shake duplo de morango e come um lanche de três andares, sob o olho comprido do gerente altão e tímido no seu decote da blusa mal-ajeitada.

Desço as escadas de saída do Extra e cruzo com um policial vindo da rua, com cara de poucos amigos, com a mão direita na arma ainda dentro do coldre, ao melhor estilo seriado americano da tevê, subindo os degraus de dois em dois. Um garoto lá de dentro, vendo o tira se aproximar, dá o alerta: agora o bicho vai pegar!

Estou na rua, passa por mim um motoboy com o capacete em uma das mãos e gesticulando a outra, ao lado da cabeça, como que espantando mosca, só que num movimento só: muié feia do caraio e eu aqui perdendo o meu tempo!

Meu compromisso já era, penso. Olho o relógio: 12h45. Foram cinco minutos. Pareceu um longa-metragem.

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