Extraordinária!

Já são 12h40. Entro com pressa no Extra para retirar dinheiro no caixa eletrônico. Tenho compromisso marcado para daqui a pouco e já estou atrasado. Além do hipermercado, o prédio tem um andar inteiro para refeições rápidas, com mesinhas espalhadas por todos os cantos. Tem até McDonald lá dentro.

Hora do almoço. Para chegar ao Banco 24 Horas, vou ter de contornar as mesinhas, sempre cheias nessa hora. Assim que subo a escada de acesso ao andar da alimentação, percebo um pequeno tumulto justamente em frente ao McDonald. Uma mulher conversa, com voz alterada, com um funcionário da casa – alto, magro, meio curvado para frente, cabisbaixo, estático, completamente sem-graça. A mulher, baixa, não tem 30 anos – meio gordinha, cabelos bem curtos, morena, quase mulata. Grita: “Não é porque eu sou pobre que você não vai me dar o lanche!” O funcionário altão permanece imóvel.

— Taqui o papel, quero meu lanche é já!

As pessoas nas mesinhas observam, curiosas, o barraco que está se formando. Algumas reclamam: “Vão falar mais baixo aí!” Um pequeno semicírculo de curiosos fecha-se em volta dos dois. A mulher, percebendo-se o centro das atenções, continua falando, agora mais alto ainda, que é pobre, mas digna, que não precisa roubar pra comer, que o papelzinho tá ali na mão dela, bla, bla, bla. Fala, olha para o funcionário paralisado e envergonhado, olha para a platéia, cada vez mais excitada. Algumas pessoas das mesinhas já estão em pé.

Continuo minha caminhada rumo ao 24 Horas, agora passando bem próximo aos dois. A mulher não aparenta bebedeira. Está nervosa mesmo. Quando avanço uns 10 metros para o outro lado, me distanciando deles, ouço:

— Ah, é? Ah, é?

Viro para trás e vejo a mulher, de costas para mim, jogando as sandálias havaianas azuis para os lados e tirando a calça comprida preta. Grande parte dos curiosos fica em pé, não acreditando no que vê. Ato contínuo, tira a calcinha bege e a blusa branca, ficando apenas com o sutiã amarelo. Um jovem executivo engravatado, perfumado, gel no cabelo, ao meu lado, sentencia: “Bunda feia, mulher feia!” Outro comenta com o companheiro de mesa: “Perninha curta, olha lá”. O amigo grita: “É isso aí, Mentira!” A platéia gargalha. O funcionário tímido do McDonald movimenta-se pela primeira vez: arregala os olhos em direção às partes da morena, vira-se e entra na lanchonete, em passos largos e rápidos. A mulher, só de sutiã, passinhos curtos, sai correndo atrás dele, balançando a bundinha cheia de celulite, deixando a roupa amontoada ali no meio da multidão.

Lá de dentro, sai uma jovem funcionária, nervosa, querendo rir, querendo chorar, morrendo de rir, perguntando pelos seguranças. Alguns garotos, que viram a cena de frente, aplaudem a protagonista. Aparecem dois homens de preto, os seguranças, andando vagarosamente. Sérios. Óculos escuros. Tomam cuidado para não pisar na roupa da mulher e vão direto para o interior do estabelecimento. E a voz dela lá de dentro, aos berros: “Taqui o papelzinho!” Um dos seguranças sai de lá, tira os óculos escuros, guarda-os cuidadosamente no bolso lateral do paletó, olha ameaçador para todos os lados, pega a roupa da mulher, com as pontinhas dos dedos, cheio de nojo, e a leva lá para dentro.

Resolvo seguir o meu caminho. Cruzo com uma senhora alta, acho que alemã, com o carrinho do hipermercado cheio de compras. Vira-se para mim:

— Pelo menos é bonita, senhorr?

— Muito feia.

Uma velhinha, que acompanha a alemã, põe as mãos nos olhos, imitando luneta, e comenta com a parceira: “Reparou se tinha binóculos no supermercado, amiga?”

Ando mais um pouco e a senhora alemã brinca com o jovem funcionário do hipermercado, que vem vindo apressado lá do tumulto:

— Foi lá verr a moça, hein, garroton?

O garoto fica todo sem jeito porque, realmente, foi lá ver a moça.

Não consigo retirar o dinheiro, porque a máquina está em manutenção, e faço o caminho de volta. A platéia está menos eufórica, mas feliz com o espetáculo que acabara de presenciar, já que não se fala outra coisa no recinto. Logo vejo a morena em uma das mesinhas em frente ao McDonald, vestida, descabelada, cercada por funcionários da loja e pelos seguranças de óculos escuros. Está mais calma, mesmo assim resmunga alguns palavrões, enquanto toma um milk-shake duplo de morango e come um lanche de três andares.

Desço as escadas de saída do hipermercado e cruzo com um PM com cara de poucos amigos, segurando o revólver, assim ao melhor estilo John Wayne, pulando os degraus de dois em dois. Um garoto lá de dentro, vendo o policial se aproximar, avisa: “Ih, agora o bicho vai pegar!”

Estou na rua e passa por mim um office boy, acenando a mão, de frente pra trás, apenas uma vez, ao lado da cabeça:

— Muié feia do caráio e eu aqui perdendo o meu tempo…

Meu compromisso já era, penso. Olho para o relógio: 12h45. Foram cinco minutos. Pareceu um longa-metragem.

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