Foi um rio que passou em minha vida

Curiosidade pura. Parei no Ibirapuera para ver a montagem da árvore de Natal gigante, atração turística da cidade de São Paulo nesses tempos de festas, quando a chuva veio com tudo. Não deu nem tempo para me proteger debaixo da própria árvore, de não sei quantos metros de altura, cheia de luzes por fora e ferragens por dentro.

O primeiro lugar que encontro para me abrigar é um ponto de ônibus que fica em uma curva, retorno para quem vem do aeroporto. O ponto está no pé da grande árvore natalina, em frente a uma arquibancada, em fase de montagem, com vários degraus e muitas cadeiras. A cobertura é um plástico transparente. Duas pessoas estão ali. Penso em correr para lá, mas a chuva não deixa. Em frente a arquibancada já está um lamaçal só.

A chuva cai forte, com muito vento. O ‘telhado’ do ponto de ônibus, de acrílico, é mais para proteger a população contra garoa ou sol forte, não para um pé-d’água daquele.

No ponto estão um gordinho, que logo pulou para cima de um dos bancos, e um moreno alto e forte, já trepado em outro assento. Devem ter uns dez lugares para sentar sob o telhadinho. Também subo, porque a água já está correndo e pode molhar meus sapatos seminovos. E nada mais desconfortável do que ficar de sapatos, ainda mais em ótimo estado de conservação, molhados, e os pés (e as meias) encharcados.

— É, o bicho tá pegando, cara! – Puxa conversa o moreno.

— É… parece que vai demorar. Olha como o céu tá preto ali na frente.

— Isso aí é água pra mais de hora, velho (na verdade ele disse ‘véio’, escrevia-se assim antes da nova ortografia, mas se eu escrevo ‘veio’, como manda a regra, quem vai entender a fala do cara?) – gritou o gordinho lá da ponta do ponto, com as calças arregaçadas.

— E essa arquibancada? – pergunto ao moreno.

O gordinho:

— Isso aí é pra inauguração da árvore no domingo. Pras autoridades. Autoridades e amigos. O Kassab ‘vai vim’. Ele e a curriola dele. Dizem que até o Serra…

Em poucos minutos a água da chuva cobre a calçada e a boca de lobo já não dá mais conta. Os carros e as motos passam espirrando água para os lados, uns nos outros. Os ônibus não param, ninguém desce no ponto. Mais outro ônibus, o moreno faz sinal (“É o meu!”), pula do banco, dá dois passos na calçada de água barrenta, que faz desaparecer por completo seus tênis novos e limpos, e salta para dentro do coletivo lotado, com os vidros embaçados e os rostos dos passageiros, curiosos, olhando o aguaceiro aqui fora.

Relâmpagos, trovões, barulho e muito vento. Parece noite. Vento agora que vem de trás, lá do lago, molhando nossas costas.

— Agora fu… de vez! O vento veio com tudo, veio (que língua é essa, povo lusófono?)! – avisa o gordinho, sem me olhar, de olho no movimento.

A cobertura de plástico da arquibancada em frente ao ponto de ônibus cede e começa a formar uma bolha de água. Alguns carros vacilam em entrar na rua, porque a água está subindo rapidamente. A chuva veio mesmo mais forte por trás, como avisou o mano veio. Surge uma garota de guarda-chuva, calça jeans apertadíssima, camiseta sem mangas, preta, decotada, com a cara do Mickey estampada, fone de ouvido, andando calmamente sob aquele dilúvio. Passa em frente a nós como se aquilo fosse uma chuvinha a toa e desaparece no meio dos carros do outro lado da avenida, a que vem do parque.

— Bem que a pituca podia dar um pit stop aqui no ponto, né não, veio? Olha só o cockpit da morena.

A coisa começa a ficar preta. Alguns carros não entram mais na rua e atrapalham os ônibus que vêm em alta velocidade. A água já subiu quase à altura dos bancos (uns 50 centímetros) em que permanecemos equilibrados. Estamos literalmente ilhados, tudo em volta é água. Marrom. Parece um rio. A bolha de água da cobertura da arquibancada aumenta de tamanho.

— O imbecil vai cutucar aquela merda com o guarda-chuva, escuta o que eu tô te dizendo pra você – alerta o gordinho, completamente molhado nas costas. Como eu.

Alguns carros e as motos passam espirrando água para todos os lados. Os ônibus também. Fazem marola, dá a sensação que estamos em uma balsa, dentro de um rio, com a água alguns centímetros sob nossos pés já molhados (meias inclusive) pelas ondas. Motocicleta também faz marola e motociclista parece que gosta de acelerar só pra ver o movimento da água ao seu redor. O cheiro é de rio mesmo. Uma perua pequena, acho que Fiorino, ‘morre’ no meio da água. Outro carro entra, o motorista vacila e fica parado em um lugar perigoso, bem no meio da curva, correndo o risco de ser abalroado por um ônibus ou outro automóvel. Três motoqueiros, que vêm do lado que a pista não está alagada, deixam suas motos e ajudam o motorista do carro preto sair dali, arrastando-o para cima do jardim.

— Pode falar o que quiser desses pentelhos desses motoboys, mas são tudo gente fina, veio. – O gordinho está atento, orienta todos os carros que entram na rua, mostra o lugar que tem menos água. Gesticula como se fosse um maestro.

O ‘rio’ já está no seu limite máximo, eu imagino, encobrindo nossos pés. Surgem, não sei de onde, dois caras – um, forte, de guarda-chuva, e outro, magro, com um pedaço de plástico fazendo as vezes de capa – com a água na cintura, para ‘salvar’ a Fiorino da Lavanderia Água Limpa (agora dá pra ver os letreiros azuis na sua lateral), com a água suja batendo na porta.

— Se ele abrir vai dar merda, veio.

O fortão, com uma mão só, porque a outra segura o guarda-chuva, e o magrinho, com a capa de plástico presa na cabeça, empurram a Fiorino para um lugar que ‘dá pé’, na parte rasa do rio, quer dizer, da rua. Alguns carros param na beira da água e outros passam espirrando e fazendo marola, molhando até as nossas canelas.

— Olha lá, veio, não te falei pra você? O babaca furou a bolha do plástico. Olha a cagada! Tomou o maior banho!

A tempestade começa a diminuir. O motorista da perua da lavanderia desce e vem para debaixo do telhadinho do estacionamento. Descalço, pés enrugados, calças arregaçadas. Sobe no banquinho ao meu lado. Me passa o celular. Treme (não sei se de frio ou de medo).

— Tá vendo esse número aqui do cartão, o 0800? Disca pra mim que eu não enxergo direito – solicita o motorista da peruinha, trêmulo. — Se a água subisse mais um pouco, eu tava preparado pra escapolir pela janela. Ainda bem que os meninos me empurraram.

A chuva diminui bastante, mas o ‘rio’ permanece no seu leito. Começam a surgir pessoas de todos os lados, passageiros esperando seus ônibus.

— Esse 0800 não dá sinal.

— Então disca pra esse número aqui (pega um cartão molhado no bolso da camisa), pra mim avisar a dona.

Chega mais gente. Um jovem vem descalço, segurando o tênis novinho em folha: “O Nike não é a prova d’água, tá ligado?”. Quase todos os bancos do ponto estão ocupados com as pessoas de pé sobre eles. Muitos fotografam o momento com seus celulares. E começa a torcida.

— Aquele Celtinha vermelho não entra. Se entrar, fica.

— Não pode deixar morrer. Se morrer, um abraço! – Ensina o motorista da lavanderia.

— Olha lá o motoqueiro! – O motoqueiro consegue passar e sai comemorando com o braço erguido para a galera do ponto de ônibus, que vibra com sua performance e o aplaude.

— O cara de moto consegue e fica esses vacilão aí empatando o trânsito. Olha lá o Zafirão prata… – aponta um outro.

— Só podia ser mulher! Olha a perua! BM, mermão. Ganhou do maridão e não tá nem aí se inundar. Espia só como ela passa.

— Também, bonita desse jeito. Olha o cabelão dela. Tá no ar-condicionado, mano. Aquilo ali é um perfume só.

Consigo ligar para a Água Limpa e passo o celular para o motorista dos pés enrugados, agora menos trêmulo, cheirando a cigarro. Ainda não consegui identificar se estava com frio ou com medo de morrer afogado dentro da peruinha.

— Então é isso, Moacyr, pede pra dona Maria ligar pro seguro e chamar o guincho… Não, não entrou água. As roupas estão limpas, fica sossegado. Tá tudo certinho.

Meia-hora depois o ‘rio’ vai baixando, as pessoas tomando seus ônibus, o trânsito cada vez mais congestionado.

— Já vi tudo! É hoje que eu chego em casa depois da meia-noite e tenho que escutar a mulher na minha orelha – diz para ele mesmo, o gordinho, completamente encharcado, regendo o caos no entorno da gigantesca árvore de Natal de São Paulo.

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