Futebol-arte

Na minha infância no interior não havia rua asfaltada na cidade. Paralelepípedo ou terra. Nossa diversão era o futebol. Jogávamos bola quase sempre na Oswaldo Cruz, a rua que morava boa parte da turma.

Anta, Minduim, Policarpo, Jota Mary, Pereba, Cabeça, Fenemê, Caradura, Panela, Roliço, Lulinho, Greguinho, Patinho, Cersinho, Jacozinho, Corotinho, Gerardão e Maletão. E eu. Esse era o nosso time, se não me falhou a memória e deixei algum de fora.

Duração do jogo: cinco vira dez acaba. Ou quando a mãe do dono da bola chamasse. Os ruins iam pro gol, os pernas-duras jogavam pelas pontas (direita ou esquerda, dependia com qual pé chutava), os que usavam óculos ficavam no meio (para evitar trombadas bruscas), os gordos eram os beques (ou os goleiros), os craques iam pro ataque.

A bola. As vezes não havia bola. Aí a gente improvisava: meias de nylon usadas das nossas mães e irmãs mais velhas, lancheira usada de uma irmã mais nova, caixa de sapato amassada da Casa Ideal, lata vazia de leite condensado, tampinha de guaraná Caçula. Qualquer coisa servia.

Quando juntava todo mundo, dividiam-se os times – os melhores tiravam jan ken po (pedra, papel e tesoura) e escolhiam. Alguns ficavam de fora. Critérios para substituições: quando o pai (ou a mãe) de alguém aparecia e levava pela orelha um dos craques para fazer lição de casa ou quando alguém arrancava o tampão do dedão do pé no paralelepípedo quente de depois do almoço – nada que a água benta da torneira da casa em frente não resolvesse e o guerreiro voltava para a arena, solicitando nova substituição.

Quando o jogo era só entre a gente, um gol ficava na calçada de cá, entre a árvore e o muro de alguma casa, e o outro na calçada de lá, três árvores depois.

Quando surgia desafio contra a turma de alguma outra rua, os chamados clássicos, ocupava-se a via inteira e o gol era o que estivesse às mãos: tijolos, camisas emboladas, sapatos ou chinelos, lancheiras. Teve um jogo contra o pessoal da Vila Junqueira, lá – o campo (a rua) era de terra batida, mais fácil e gostoso de jogar –, que um moleque deu a ideia de colocar o irmão mais novo de trave. O pequeno colaborou, fez as vezes de ‘balisa’, ficou paradinho no seu posto, até a mãe aparecer ao vê-lo caído, chorando, depois de uma bolada na cabeça. Não teve mais jogo naquele dia. Uma pena. A cancha era uma delícia, bem diferente da nossa. Quando chovia, era o máximo jogar na Junqueira.

Nos nossos jogos de futebol de rua, as partidas eram interrompidas em determinadas situações. Quando a bola caía em alguma casa – nesses casos, esperávamos dez minutos pela devolução voluntária da redonda. Se isso não acontecesse, tirávamos jan ken po para ver quem ia bater na porta da residência e pedir a pelota. Inicialmente com modos, depois com ameaças de depredação e muitos nomes feios. Ou quando passavam carros e caminhões pela rua, o que raramente acontecia. Charretes e bicicletas ninguém ligava. O que atrapalhava um pouco era quando os cavalos faziam coco no campo sagrado de jogo. Vidraça quebrada: jogo suspenso e interdição do campo até o pai do responsável reparar o estrago.

Quando nada disso acontecia, a pelada só era finalizada quando escurecia, hora da janta. Nos jogos noturnos – havia ruas bem iluminadas e a turma ia pra lá – os rachas só terminavam com ameaças dos vizinhos de chamar a polícia.

Garrincha, Pelé, Zico, Romário, Ronaldo Fenômeno, só para citar alguns, começaram a jogar futebol na rua. Meu time da minha infância interiorana, assim como dezenas de outros na cidade, centenas na região, milhares, milhões pelo Brasil daqueles tempos idos, também.

Na Alemanha, não faz 20 anos, criaram um projeto revolucionário para o futebol de bairro: parques esportivos com olheiros em cada pequena localidade do país.

Ninguém mais joga bola nas ruas da nossa pátria neste instante. Tem mais carro do que gente.

Tá explicado o 7 a 1?

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