Gente desprezível

Tenho uma chef (cozinheira) que vem em casa de quando em quando fazer comida para o mês e congelar. Excelente pessoa, divertida, competente. Faz isso para mim e seus inúmeros clientes, agenda cheia.
Andou sumida, fui atrás dela. Ela contou que tinha conseguido emprego com carteira assinada em uma casa no Jardim Europa e que agora só estava atendendo aos sábados e domingos. Ela veio no sábado.
Enquanto cozinha, conversa. Contou que trabalha das oito da manhã até 11 da noite.
— Cozinha o tempo todo? – Perguntei, curioso.
— Sim! Faço almoço, sobremesa, bolos, doces, e depois o jantar. Trabalho sem parar.
— Pra quantas pessoas?
— Cinco. O casal e os três filhos, um de 21 (enteado) e duas crianças de 10 e 7.
— Então, você deve estar enjoada da sua própria comida.
— Eu não como a minha comida.
— Não? Come o quê, então?
— Ifood.
— E essa comida toda que você faz?
— Para a família. Eles me dão Vale Refeição.
Comecei a falar mal dos patrões dela, que isso é um absurdo, tremenda falta de respeito, etc. Ela ainda justificou:
— Eles têm três motoristas, uma copeira que me ajuda, uma babá, duas arrumadeiras, um jardineiro, um piscineiro… ninguém come lá. Tudo Vale Refeição.
— Mesmo assim! Economizariam muito mais com você cozinhando para todos.
— Não tem jeito. Fazer o quê?
— Pelo menos comer a sua própria comida já que eles preferem dar Vale Refeição para os empregados.
Saí de perto, indignado. Ela ainda arrematou:
— Às vezes, quando fica muito tarde, durmo lá.
Voltei para a cozinha.
— Pelo menos janta a sua comida?
— Só se sobrar do almoço.

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