Grande Prêmio Sweepstake

Já não se fazem mais Grandes Prêmios Sweepstakes como antigamente. Aqueles das badaladas corridas de cavalo, do Jockey Club. Dos páreos, que os homens iam assistir de terno e gravata, e as mulheres, elegantérrimas, de chapéus, tomando champagne sem parar. Saíam nos jornais, nas revistas, nos amaurys. E todo mundo via e comentava.

A maioria dessas mulheres tinha um ar meio ‘ai que nojo, não me toques’, você deve ter reparado. Todas cheirosas. Nervosas. Olhar superior (quando te olhavam). Certa empáfia. Não toleravam corridas de cavalo. Iam lá pra aparecer mesmo, enquanto os maridos faziam suas apostas.

Tenho um amigo mineiro, que não vejo há décadas, que gostava de ir ao Jockey só pra ficar olhando essas mulheres nos Grandes Prêmios Sweepstakes. Todas ‘subisteiquis’, como ele dizia.

Para o meu amigo, subisteiqui é sinônimo de mulher estressada, mau-humorada, antipática, sempre a beira de um ataque de nervos. Dessas que não te olham na cara. Fulana? Subisteiqui. Sicrana? Subisteiquérrima. Logo, o ‘adjetivo’ feminino virou também masculino. Valia pra todos os gêneros. Fulanas e Belranos.

Em casa, com a família (liga não, o caçula acordou subisteiqui hoje), na rua, com os amigos (o cara levou uma conhecida dele na festa, mais subisteiqui impossível), no trabalho, com os colegas (meu chefe é subisteiqui no úrtimo). Nada melhor que subisteiqui para definir as pessoas subisteiquis.

Se pensarmos na política atual, na corrida presidencial, a candidata foi subisteiqui durante toda a campanha do segundo turno. Já o candidato, subisteiquíssimo. E a grande maioria dos políticos sempre foi e sempre será subisteiqui. Técnicos de futebol, tem um monte subisteiqui: Dunga & Jorginho, Parreira, Felipão, Leão, Muricy e o sempre elegante, Vanderburgo Luxemley . Na Fórmula 1, Schumacher e Alonso são os campeões mundiais da subisteiquice. No jornalismo da televisão, Boris Casoy é o subisteiqui da vez, depois da infelicidade de deixar vazar, no ar, sua aversão aos pobres. E muita, muita gente, que não aparece na mídia, mas são líderes absolutos de audiência de subisteiquice, em suas respectivas vidas.

Domingo, dia de eleição para ‘o’ presidente do Brasil, que acabou sendo ‘a’, almoço em uma churrascaria, freqüentada pela classe média paulistana. Nada mais subisteiqui que classe média quando sai para comer fora. O papo em todas as mesas é sobre as eleições. A maioria esmagadora é contra a então favorita nas pesquisas, agora a primeira mulher presidente do Brasil.

(Cabe aqui um parênteses: faço votos pra que ela, mulher astuta que é – percebeu que toda mulher é danada e sempre consegue o que quer, aconteça o que acontecer? -, exerça um bom governo. Em paz. E faça valer o seu olhar feminino, sensível e carinhoso para com o povo. O povo, que nunca foi subisteiqui, merece.)

Voltando para a churrascaria lotada, o que mais se ouve é sobre política, a corrupção reinante no atual governo. ‘Palhaçada, isso daí! Essa mulher já foi presa, já foi terrorista, já foi assaltante de banco, e vai continuar com a corrupção no Brasil, a roubalheira de sempre, essa pouca vergonha!’, diz um subisteiqui, de camisa pólo verde-escuro, bermuda bege, com cinto marrom, e mocassim sem meia.

Política, religião e futebol não se discutem.

O movimento na churrascaria é intenso. As pessoas se servem de frios em uma bancada e depois entram em uma fila, enorme, para pegar as carnes, das mais variadas, na churrasqueira. Fila que dura, no mínimo, vinte minutos até chegar na grelha, com os churrasqueiros, nem um pouco subisteiquis, suados e atrapalhados, coitados.

Outro cidadão, grisalho, gel no cabelo penteado para trás, óculos escuros, subisteique legítimo, em uma outra mesa, cheia de gente, fala alto: ‘Pra acabar com essa pouca vergonha da política, só a volta da ditadura militar (juro que ouvi isso); botar esses bandidos na cadeia, que é lá que eles merecem; bando de corruptos!; naquela época não tinha bandido na rua, era uma beleza, lembra?’. Um outro, cinqüentão, sorridente, nada subisteiqui como o subisteiqui do gel, na mesma mesa, apimenta o almoço: ‘Não existia bandido nas ruas, porque os bandidos estavam no governo, torturando e matando quem falava mal deles’. Pronto! O pau comeu.

A esposa subisteiqui do homem subisteiqui, o do gel, o que quer acabar com a corrupção no Brasil, pede pra ele entrar na fila e pegar umas carnes pra eles e pro filho, subisteiquinho, entretido num joguinho eletrônico, alheio a tudo e a todos: ‘Vai lá, benzinho… Pra mim pode ser bem passado’. O maridão, subisteicão, olha praquela fila enorme, vira-se para a esposa subisteiqui: ‘Tá me achando com cara de mané, bem?’. Levanta a mão e ordena pro garçom, que está por ali, perdido: ‘Vem cá! É o seguinte: vai lá na churrasqueira e pega umas carninha aqui pra nós. No capricho…”. E o garçom: ‘Mas…’. E o subisteicão: ‘Vai por trás da churrasqueira e já pede pra cortar bem fininho, no ponto, meio sangrando, sabe como?; depois a gente acerta isso daí…’. Diz isso, esfregando o polegar no indicador, do lado do rosto, meio disfarçado.

O garçom capta a mensagem, sorri, todo feliz, e vai lá pra trás da churrasqueira. O subisteicão fala pro filho subisteiquinho, que larga o joguinho, reclamando que está morrendo de fome: ‘Relaxa, Juninho. Não viu que o papai já deu um jeito nesse churrasco?’. A esposa subisteiqui, orgulhosa, dá a dica para a amiga, que toma caipirosca de saquê, com lima da pérsia, pra lá de subisteiqui, sentada ao lado dela: ‘O garçom é aquele ali; meu marido já se entendeu com ele; é só pedir. Ei, moço, psiu!’.

O maridão subisteicão quer fazer bonito para a amiga pra lá de subisteiqui da mulher subisteiqui: ‘Se a gente não usar a imaginação, esse país não anda’.

— Garçom, por favor, a minha conta!

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