Herói nacional

— Entrevista com ele só se for pra não falar de carros de corrida, rivalidades com pilotos, namoradas e política. Nada disso.
Quem me alertou pelo telefone foi Nuno Cobra, preparador físico, palestrante e escritor de livros de como tratar o corpo e a mente de um cidadão comum. Ele estava começando a cuidar do condicionamento de Ayrton Senna, que vivia saindo das corridas no maior bagaço.
Na época, eu editava a revista Saque, que só cuidava de voleibol até então, e preparava a primeira edição contemplando todas as modalidades esportivas. Nada melhor do que colocar Ayrton Senna na capa.
Nuno Cobra marcou a entrevista no Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, que fica na mesma área do ginásio do Ibirapuera em São Paulo. Senna ia lá se preparar física e mentalmente para a temporada que se iniciaria dali a algumas semanas.
Topei fazer a entrevista com o corredor sem falar de corridas. Aliás, acabamos falando quase que exclusivamente de corridas e pistas, só que de uma outra maneira.
Chegamos na hora marcada no local combinado. Lá estava Nuno Cobra de boné, cronômetro na mão e apito na boca, monitorando nosso piloto dar voltas na pista (de atletismo) do conjunto.
— Vamos esperar ele completar os 10 mil metros, falta pouco – disse o mestre.
O mais impressionante era que Senna corria na mesma passada (velocidade), cravando o mesmo tempo em cada volta (não me lembro quanto agora). O mesmo tempo! E a cada vez que passava por mim, ali ao lado do Nuno, me olhava esquisito.
Depois de quase meia hora, Nuno apitou, Senna parou.
— Esse aqui é o jornalista que falei sobre a entrevista, bem rápida – Nuno me apresentou ao ofegante e suado corredor.
— Ah! Como vai? – disse ele me estendendo a mão, sem me olhar na cara.
— É um prazer muito grande conhecê-lo – falei sem graça, apresentando meus companheiros.
(Estavam me acompanhando no trabalho o jornalista Gustavo Assumpção, que me ajudou na entrevista, e o fotógrafo Pami de Souza.)
Fomos caminhando para sentarmos nas arquibancadas na frente da pista, quando umas meninas que estavam tomando sol começaram a gritar: Olha lá o Ayrton Senna e o Nelson Piquet! Fizeram as pazes!
Na época, eu tinha uma leve semelhança física com Nelson Piquet, arquirrival de Ayrton Senna. Muita gente me chamava (e ainda chama) de “Nelson Piquet”, mas isso é uma outra história.
Saquei na hora o porquê do olhar enviesado que me dava a cada volta que passava por mim quando corria na pista.
— As pessoas me acham meio parecido com o Piquet – falei, querendo quebrar o gelo. —Imagina!
— É. Pode ser – disse ele, desviando o olhar.
Durante toda a nossa conversa, Ayrton Senna não olhou para as nossas caras muito menos para a câmera do fotógrafo. Respostas quase que monossilábicas sobre a importância do preparo físico de um corredor de Fórmula 1 e a transformação de mente e espírito que estava acontecendo com ele depois que começou a treinar com Nuno Cobra. Queria acabar logo com aquela conversa.
Não conseguimos uma só foto boa para usar na capa da Saque. A ideia era ele olhando para a câmera (leitor). Recorri aos bancos de imagens (nacionais e internacionais) para selecionar “aquela” foto para a capa. Não achei nenhuma com ele olhando para a câmera, como queria. Isso em centenas de fotos de fotógrafos do mundo inteiro.
Realmente, Ayrton Senna era muito tímido e de poucas palavras. Pelo menos com a gente, ali sentados na arquibancada de concreto do conjunto do Ibirapuera, ainda tendo que ficar ouvindo gritinhos de fãs: Ayrton Senna e Nelson Piquet juntos e não avisaram o Galvão Bueno!
Uns dias depois, Senna iniciava a temporada de Fórmula 1 de 1988. Ano em que conquistaria pela primeira vez o título de campeão do mundo, tornando-se herói nacional.

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