Imortais

Na época que eu fazia publicações corporativas, as grandes empresas lançavam relatórios de suas atividades nos finais de ano. Eram a salvação da nossa lavoura, porque essas edições, trabalhosas e minuciosas, não eram baratas, e eram sempre aguardadas e bem-vindas.
Um dos nossos principais clientes era a Suzano Papel e Celulose. Teve um ano que resolvemos inovar, chamar atenção: mostrar as atividades da empresa em cinco volumes, cada um revelando uma das áreas da companhia papeleira, escritos por imortais da Academia Brasileira de Letras – Carlos Heitor Cony, Lygia Fagundes Telles, Carlos Nejar, Murilo Melo Filho e Arnaldo Niskier.
O lançamento e a noite de autógrafos foram na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, com as presenças dos cinco imortais e de mais outros escritores, além de autoridades e demais convidados, sob os holofotes das emissoras de televisão. Grande acontecimento na noite carioca.
Naquele ano o relatório ganhou o Prêmio Aberje, o Oscar da comunicação empresarial brasileira, e mais outros de excelência gráfica.
O texto do Cony sobre a vida de Leon Feffer, o fundador da Suzano, ficou uma obra-prima. Tanto, que o autor (e a editora dele) quis lançar no mercado, mas, por razões que eu nunca fiquei sabendo, a Suzano não topou, e esse texto só foi lido por quem teve acesso aos relatórios – isso, se leram.
O texto da Lygia também foi outra preciosidade, assim como os dos outros escritores, evidentemente.
Responsável pela edição, eu fazia a ponte entre os autores e a Suzano. Fui me aproximando cada vez mais dos imortais, falava quase todos os dias com eles pelo telefone, já que a maioria estava no Rio.
Como só a Lygia morava em São Paulo, achei melhor acertarmos detalhes do trabalho pessoalmente. Liguei para ela.
— Alô? Com quem quer falar? – Atendeu uma voz esquisita, meio insegura, parecia que tinha colocado um pano no bocal do aparelho.
— Boa tarde! Dona Lygia está?
Um minuto de silêncio.
— Queria falar com a dona Lygia, por favor, ela está? – Insisti.
A vos esquisita de novo:
— Sabe o que é, senhor, dona Lygia teve que dar uma saidinha pra farmácia, parece que vai demorar um pouco.
A voz era estranha demais.
— Quem tá falando? – Perguntei, começando a perder a paciência.
— Aqui é a Dalva, a empregada da dona Lygia. O senhor liga outro dia, por gentileza.
Esse “o senhor liga outro dia, por gentileza” soou mais natural. Era a própria Lygia disfarçando a voz. Só podia ser.
— Ô, Lygia, sua voz é inconfundível – disse rápido, antes que a “Dalva” desligasse.
— Dona Lygia está pra farmácia – voltou a voz estranha.
— Aqui é o Leonel, do livro da Suzano. Você não me engana, já conversamos antes e estou cansado de ouvir sua voz nas entrevistas. Temos uns detalhes para acertar.
Ela soltou uma gargalhada do outro lado.
— Por que não disse logo? Desculpa. É que o dia inteiro recebo telefonemas de jornalista querendo entrevista, de leitor perguntando quando vai sair o próximo livro, de pessoas convidando para inaugurações, de um monte de gente, uma chatice. Como estou sem secretária, resolvi contratar a Dalva.
— Sua voz é marcante e conhecida, Lygia, não dá pra disfarçar.
— É verdade, essa Dalva é minha única personagem que ainda não consegui dar um jeito. Mas ainda chego lá.

Comments are closed.