Jornal Nacional

— Assaltaram o Bradesco!
Quem me dá a notícia é um transeunte, quando estou dobrando a esquina da Pedroso Alvarenga para entrar na João Cachoeira, no Itaim Bibi. Ele diz que tá todo mundo lá, para eu tomar muito cuidado.
Resolvo seguir o meu caminho, apenas mudando de calçada, já que a do lado da agência tá cheia de gente. Notei que o ambiente está até calmo pelo alarde do estranho. Pelo menos não corro risco de bala perdida.
Bem em frente ao banco estão os homens da lei – da Polícia Militar e do GOE (Grupo de Operações Especiais), da Polícia Civil do Estado de São Paulo; do outro lado, os populares. No meio do rua, viaturas da militar (camburões) e da civil (caminhonetes pretas). Os policiais ignoram os populares, mas os populares não tiram os olhos deles. Fotografam e filmam tudo com seus celulares.
— Aquele fortão de óculos escuros até que dá um caldo – diz uma mulher do lado de cá que não parava de falar, referindo-se a um dos policiais civis.
— Já pegaram os bandidos, estão naquela caminhonete ali, no banco de trás – revela um jovem encostado numa moto para uma senhorinha assustada que saía do prédio em frente ao banco.
— Era uma base de uns seis assaltantes – reforça uma garota carregada de sacos de supermercado. — Eu vi tudinho quando a polícia pegou eles. Graças a Deus que não teve tiroteio. Já pensou a tragédia? Morro de medo, Deus me livre!
Um policial civil aproxima-se dos populares e vem conversar com um senhor bem magro, alto, cabelos brancos, bigode amarelado – trata-se do gerente do banco que acabara de acender um cigarro. O policial diz que as pessoas vão permanecer na agência para as devidas averiguações, porque pode haver suspeitos entre eles.
— Minha colega tá lá dentro, seu guarda! – grita uma jovem com uma criança dormindo no colo.
O policial diz que está tudo sob controle, que os meliantes foram desarmados e que a situação está voltando à normalidade.
— Arma de brinquedo aquilo lá – comenta um senhor de meia idade, baixo e barrigudo – Foi por isso que passaram pelo raios-x. Tudo de plástico. Renderam os seguranças e aí sim pegaram as armas de verdade. Essa turma não é fraca, não. Coisa de cinema isso daí!
— E eu, toda vez que venho ao banco, fico presa naquela coisa de vidro, que gira e para de repente com a pessoa dentro – reclama uma senhora obesa. — Tenho que jogar tudo de dentro da minha bolsa naquela caixinha transparente, na frente de todo mundo da fila, e avisar pro segurança que o alarme foi por causa do celular. Ai que vergonha!
Nisso, alguns policiais militares tiram dois elementos de umas das caminhonetes da civil e os levam para um dos camburões. Eles estão bem vestidos, camisas, calças e sapatos sociais, cabelos aparados, mãos amarradas para trás por uma cordinha de couro preto.
— Olha a beca dos cara, mano! Parece até que vão pra missa ali na Santa Teresinha.
— Vão é tomar o maior cacete na delegacia, isso sim. Não quero nem imaginar.
Um grupinho de populares discute se aquela agência tem ou não caixa-forte, dinheiro guardado, fila no caixa, essas coisas de banco, banco de antigamente.
— Isso aí é agência moderna, meu querido, de serviços, só tem caixa eletrônica – exclama um jovem de terno, cabelos melados de gel, sapatos bicudos, com celular no ouvido.
— Então os bandido são é muito burro, meu camarada! Toda essa palhaçada pra assaltar caixa eletrônica? Nunca vi! Tem mais é que apanhar mesmo.
Uma mulher alta, loira, sandálias de saltos, vestido florido pouco acima dos joelhos, sai de dentro da agência amparada pelo civil dos óculos escuros. Ela soluça. Ele estufa o peito.
— Vem chorar aqui no colo do papai, princesa! – diz um garoto que passa por ali naquele momento, de óculos escuros virados para trás, com as lentes atrás da cabeça.
Continuo minha caminhada. Lá de cima da sobreloja do restaurante ao lado da agência, um negro, sorridente, boné do grupo de rap Pavilhão 9, grita pro seu amigo aqui na calçada entre os populares:
— Sai daí do meio dos branco, neguinho! Vão achar que tu é ladrão!
Aos poucos as pessoas vão deixando a agência. Algumas sorridentes, outras assustadas. Ao encontrarem com conhecidos e parentes na rua, se abraçam, choram. Momento emoção.
Toca o celular de uma popular.
— Sou eu mesma! Avisa aí o chefinho que eu vou me atrasar um pouco. Só tô esperando o Águia Dourada. Vou sair no Jornal Nacional, miga!
Sigo o meu caminho. Os populares se dispersam.

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