Mãe é mãe

Tenho uma amiga de longa data, Cecília, mãe de três filhos homens já adultos, casados. Avó. Nem por isso deixa de se preocupar com seus meninos e estar sempre atenta a eles (e agora também aos netos e às noras).

Encontrei-me com ela outro dia.

— Vou te contar uma história que parece um sonho – disse ela assim que me viu.

— Pela sua cara é uma história com final feliz.

— É, mais ou menos.

Ela me contou que estava em casa ali pelas nove e meia dez da manhã, ouviu o barulhinho de mensagem do celular, foi olhar. Era do filho mais velho.

“BOM DIA PASSANDO PARA AVISAR QUE TROQUEI DE NÚMERO O OUTRO VOU DEIXAR SÓ PARA O TRABALHO TABOM”

Escrito desse jeito sem vírgulas nem ponto final. Embaixo, duas carinhas mandando beijinhos e dois coraçõezinhos rosa.

— Achei isso muito bonitinho. Fiquei pensando: nossa, meu filho me mandando essas coisas. Tá louco, né? Mas tudo bem. Fiquei esperando mais alguma coisa que ele fosse escrever, antes de responder. Aí, o barulhinho, ele apareceu de novo.

Cecília foi passando o dedo no celular me mostrando o diálogo entre eles e falando ao mesmo tempo:

“ESTÁ TUDO BEM?”

— Ele nunca me pergunta isso.

“SIM, TUDO BEM”

“ACORDOU AGORA MÃE?”

“NÃO. POR QUE?”

— Nunca acordo essa hora, ele tá cansado de saber.

“NADA NÃO MÃE”

“E AÍ, FILHO? TUDO BEM COM VOCÊ?”

“AI MÃE ACORDEI TÃO RESFRIADO HOJE DE MANHÔ

“TOMOU ALGUMA COISA, FILHO?”

“TOMEI CEMEGRIPE”

“MELHOR BENEGRIPE, FILHO. PREFIRO.”

— Nunca tinha ouvido falar em Cemegripe. Dei até uma pesquisada no Google. E tinha.

“AH MÃE, DA PRÓXIMA VEZ VOU COMPRAR BENEGRIPE”

— Todo fofo. Pensei: nossa, ele tá muito estranho. Tentei ligar para o número dessa conversa, não atenderam. Logo veio outra mensagem no whats:

“MÃE TO NUMA REUNIÃO CONTINUA FALANDO PELAS MENSAGEM EU NÃO POSSO TE ATENDER AGORA”

—´Pensei: ah, tá, nem me xingou nem nada, me chamando de “mãe”… Fiquei meio assim.

Cecília apagou o celular.

— Tive uma funcionária em casa que não conseguia me chamar pelo meu nome, só falava “dona Ceci”. Esse meu filho, ainda pequeno, achou graça e a partir desse dia só me chama de dona Ceci. Pensei comigo: ele tá diferente mesmo, mas tudo bem.

Ela deu uma pausa para pensar ou se lembrar do final da história.

— Foi ficando muito óbvio que não era ele, apesar de ter a foto e o nome na mensagem. Resolvi ligar pro número dele de uma vez. Se estiver em reunião mesmo de trabalho, vai me xingar, não tá vendo que tô ocupado, não sei o quê e pronto, resolvo isso. Liguei, ele atendeu daquele jeito carinhoso de sempre (ele é assim da boca pra fora, no fundo um amor de pessoa, ótimo pai):

 

— “O que você quer, dona Ceci?”

— “Mudou o número do seu celular, filho?”

— “Não, imagina, não mudei número nenhum.”

— “Logo vi, tava muito amoroso, não podia ser você mesmo.”

 

— Contei toda a história pra ele. Meu filho riu, logo ficou sério:

 

— “É alguém te passando trote, dona Ceci, se fazendo passar por mim. Isso é golpe! Manda esse cara tomar no cu.”

— “Nossa, filho, que palavreado! Não é que esse ladrão foi muito mais simpático e educado que você? O rapaz me deu bom-dia, perguntou como eu estava, se eu tinha acordado àquela hora, se desculpou que não podia me atender que estava em uma reunião…”

 

— Meu filho caiu na gargalhada. Continuei:

 

— “Olha, tô mais pro ladrão que pra você, meu filho. O ladrão conseguiu ser o filho ideal pra mamãe.”

 

Cecília olhou as horas, lembrou-se que tinha que ir buscar o neto na escola.

— E como terminou essa história? – perguntei. — Mandou o cara praquele lugar?

— Mandei, bloqueei e denunciei. Aí, sumiu do celular.

— Boa!

Ela saiu apressada, falando ainda:

— E o melhor disso tudo é que o ladrão deixou saudades, de eu ser bem tratada, de me responder mensagens na hora. Nem depois desse episódio, meu filho me manda coraçõezinhos ou beijinhos. Nem de gozação. Esse outro “filho” me faz falta.

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