Minha amiga do ombro

— Muito bom o texto dessa tal de Vívina (repare no acento). É nova?

Quem me disse isso foi o Diretor de Comunicação da Mercedes Benz do Brasil, em 1993, desconfiado sobre o currículo da nova escriba apresentada por mim. Imediatamente, mandei para a multinacional alemã alguns livros da redatora em questão, conforme solicitação do executivo. E ele se amarrou no estilo da novata.

— Mineira, pois não?

O engravatado até o pescoço, profissional sério, leu tudo. Até contou detalhes de cada livro recebido (foram seis).

— Escreve fácil e bonito essa tal de Vívina, pois não?

Pois sim! Já que a Vivina – a de Assis Viana – vive me citando no Primeiro Programa, chegou a hora de eu colocar as manguinhas de fora. Pra quem nunca a viu, em primeiríssimo lugar, é uma mulher bonita. Muito bonita. Conversa calma, sotaque carregado. Sempre risonha. Distraída. Muito distraída.

Conheci pessoalmente a Vivina naquela época, quando editava o livro da Mercedes-Benz. Todo ano a empresa fazia um livro de arte, temático. Naquele 1993 era sobre palmeiras (não o time de futebol, a planta). A Mercedes chegou a produzir um texto bem duro, técnico, escrito por um entendido no assunto, contratado por eles, que não tinha nada a ver com a beleza das imagens das milhares de espécies de palmeiras existentes. Como deixar aquilo mais legível e bonito? Apelei para o querido e saudoso amigo Samir Meserani, que sabia das coisas. Ele não pensou duas vezes: Vivina de Assis Viana, escritora mineira, conhece? Pode falar no meu nome, você vai adorar ela.

Bem, já conhecia a Vivina de Assis Viana de nome, ou melhor, de texto, porque ela fez parte de uma coleção organizada pelo Samir, “Quem conta um conto”, 1985, junto com outros escritores (Guilherme Cunha Pinto, Ignácio de Loyola Brandão, Márcia Kupstas e Mario Prata). O que mais me chamou atenção entre os textos desses escritores era a regularidade dos textos da escritora: todos ótimos, sem exceção. Leves. Desses que a gente começa a ler e não para mais. As crônicas dela estão aí, não me deixam mentir.

E não é que a tal Vívina deu um jeito no texto duro e chato das palmeiras da Mercedes, deixando-o simpático e gostoso de ler? Desses que a gente começa a ler e não para mais. Fiquei ainda mais fã dela. Nessa altura do campeonato, eu e a torcida da Mercedes, do Palmeiras, do Galo Mineiro… O engravatado até o pescoço gostou tanto, que tentou chamar a Vivina para um outro trabalho, sem me consultar (tinha todo o direito), o que me deixou muito bravo. Ciúmes, uai! Como se eu fosse dono dos escritos da mineira…

Ficamos amigos. Chegamos a pensar em editar uma revista só com textos de escritores (e artistas e fotógrafos e cartunistas) mineiros, chamada “Uai” (óbvio), mas não rolou. Criamos até projeto gráfico. Ficou linda. Está linda. Um dia ainda dá certo. Escritor mineiro bom é o que não falta (diz aí, Antônio Barreto, Marcílio Godoi!).

Além da prosa impressa da Vivina, tem a prosa falada. Fala mansa, como convém. Qualquer prosa com ela dá uma bela crônica. Outro dia, ligou pra mim e contou uma história qualquer. Acontece que qualquer história da Vivina é um best-seller.

— Por que você não escreve isso, Vívina?

— Mas você acha que dá?

Imagina se não dá. Escreveu. Postou (êta palavrinha…) aqui no PP. Fez o maior sucesso.

E quando ela estava aprendendo a dirigir e não contou pra ninguém? A maior dificuldade era com a marcha-ré, porque não entendia como virar a direção prum lado, olhar no espelhinho, e ir pro outro. Preferia dirigir trator na fazenda: É mais fácil, só acelerar. Ainda na fazenda, recém-habilitada, pegou o carro pra ir até a cidade e deu carona pra uma mulher falante e chata. Capotou! Ficou mais preocupada com o histerismo da mulher, que repetia a todo instante, ai, eu vou morrer, ai, eu vou morrer, do que com o estado dela e os estragos do automóvel. Depois dessa capotada, desistiu da carreira de motorista. Hoje, só táxi (tem cada história) e carona (põe história nisso), de preferência.

Tem também uma viagem, acho que de Goiânia para Brasília, onde ela ia dar uma palestra sobre um de seus premiados livros. Andou mais de cem quilômetros agarrada à sua bolsa, tensa. Até que o companheiro ao lado resolveu quebrar o silêncio: Por que a senhora não larga essa bolsa, professora? Veja que estrada bonita, uma reta só. E ela: Sou mineira, tô acostumada com subidas, descidas e curvas. De repente a bolsa cai…

Veio o computador. A Vivina comprou o dela. Apesar da dificuldade de a nossa amiga lidar com esse colosso de teclas e truques – a maioria dos seus livros foram escritos à mão, diga-se – começamos a nos corresponder. Que privilégio ler ‘texto inédito’ de Vivina de Assis Viana, antes de todo mundo. As mensagens que ela escreve pra mim são verdadeiras obras literárias (deve ser assim com todos). Tá tudo guardado. Dá até para editar um livro. Quantas vezes me escreveu lamentando ter acabado de perder um texto, que lhe custara horas, por não saber mexer com a máquina: Sumiu tudo de repente! Num dô conta disso, não, sô!

Falar da simplicidade, generosidade e disponibilidade da Vivina é fácil. Tá sempre dando força, incentivando os outros. Numa dessas trocas de e-mails, estávamos divagando sobre praia e ela me disse que não gostava muito da areia da praia. Aí eu brinquei: Por que você não varre a areia da praia? A resposta veio rápida: Por que você não escreve uma história? Escrevi uma historinha e mandei para ela, que logo deu um tapa no texto, com o maior respeito, deixando-o bem melhor.

Nessa altura do campeonato a Vivina já era minha primeira-leitora (sempre que escrevo alguma coisa, imagino estar escrevendo para alguém e esse alguém passou a ser, definitivamente, a Vivina). Comecei a mandar crônicas guardadas no armário e também a escrever algumas novas. Sempre pensando no olhar dela, na crítica dela. Bastava eu contar qualquer história, que vinha: “Por que você não escreve isso, pô?”

Comecei a escrever. Pra ela. Pro Primeiro Programa. Pro ‘Damas de Ouro & Valetes Espada’, o livro de crônicas do baralho, em parceria com boa parte dos escritores deste portal. Não parei mais.

Converso pelo computador com a Vivina quase todos os dias. Ela sempre termina suas mensagens me mandando um beijo no ombro. Quando nos encontramos, o beijo é no ombro.

Então, Vívina, um beijo grande desse seu amigo.

Ombro pra todas as horas.

Leônel.

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