Mobilidade urbana

Resolvi aderir. Como não tenho bicicleta, vou de ônibus. Pesquisei e descobri os melhores itinerários e horários dos coletivos em direção ao meu local de trabalho.

Agora que você tá com mais de sessenta, viaja de graça, sabia? me disse alguém. Acho que é sessenta e cinco, falou um outro, a não ser que tenha mudado a lei.

Fui conferir.

No meu primeiro dia de usuário pós-sessenta no transporte público, não passo pela catraca. Fico ali na parte da frente, em pé, de olho nos passageiros de cabelos brancos. São animados, conversam entre si, amigos do motorista. Todos sentados. Quando vão descer, aproximam-se da porta da frente, que se abre no próximo ponto. Livres. Uns, os mais velhinhos, mostram a identidade, sem necessidade, porque o condutor nem liga. Vai com Deus, seu fulano!

Sessenta ou sessenta e cinco (que não é o meu caso ainda)?

Chego perto da cobradora, não mais que quarenta, que conversa com o motorista sobre uma matéria que saiu no jornal Metro, arremessado a ela pela janela do ônibus. O lotação está lotado do outro lado da catraca. Esse tal do Aécio até que é bonitão, grita ela para o piloto. Bonitão… isso aí não vale o que come, berra lá da frente o condutor, não viu o asfalto do aeroporto que ele construiu lá não sei onde pra família dele com o nosso dinheiro? Os passageiros, com olhar de paisagem, parecem não ouvir aquele diálogo em alto e bom som.

Ô, cobradora? Sou eu, com voz baixa, tímido, bem ao lado dela. Ela folheia o Metro. Viu isso aqui, Negão? A Marina tá subindo nas pesquisas, essa mulher vai desbancar a presidenta, escuta só. Ô, cobradora? SIM! Qual é a idade pra ser considerado idoso? Ela me olha de cima a baixo e diz na mesma voltagem da conversa com seu colega de trabalho: idoso? Ela ri mais alto do que quando fala. Os passageiros não ouvem nada. Quero me enfiar debaixo do banco reservado para idosos, gestantes, mulheres portando crianças e bebês no colo, lactantes… Ela anuncia: pra mim, idoso é a minha avó que tá batendo nos noventa e cinco e não aguenta mais subir no busão, coitada. Ela ri mais alto ainda, se é que isso era possível. Idoso é mais de noventa e cinco pra cima! É ou não é, Negão? Recuo. Fico na minha. Acerta aí com o chofer essa história da idade, ordena. O motorista não diz nada. Pago ou não pago?

Não sei o que dizer para o Negão, digo, o motorista, para me deixar sair sem pagar, já que estou no meu direito constitucional. Por favor, o senhor pode me abrir a porta no ponto depois da pracinha da igreja? O senhor dá uma parada no próximo pra mim, por obséquio? Desço no outro, senhor! No seguinte o senhor me deixa? Sendo que o ‘senhor’ não tem trinta anos.

Vou pagar. Vinte? Só tenho essa nota. Não tem troco não! Então, como é que ficamos? Negão, o caixa tá daquele jeito. Libera o rapaz aí, no próximo!

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