Na Baleia

Eu caminhava da Barra do Sahy, praia paradisíaca do litoral norte de São Paulo, até a Baleia, outra praia, igualmente bela, ali ao lado. Quinze minutos. Servia de aquecimento. Olhava para o mar da Baleia, dava uma geral na praia, pra ver se estava cheia, alongava, ajeitava o cabelo, e disparava. A Baleia tem areia dura, ótima para corridas e caminhadas. Eu corria, descalço. Ia até o final, batia a mão na pedra, e voltava. Uns cinco quilômetros, ida e volta. Depois retornava para o Sahy, caminhando, lentamente. Sempre assim. Cooper feito pela manhã.

Durante a corrida, via os amigos do Sahy, meus vizinhos, e as pessoas que só conhecia, de vista, da Baleia. Casais de idosos que iam caminhar no mesmo horário, que me cumprimentavam discretamente; homens e mulheres mais velhos, que corriam muito mais do que eu, inclusive bem mais velozes, que nem me enxergavam; jovens namorados, que sorriam; crianças, que davam tchau; gente jogando raquetinha, que eu gostava de pegar as bolinhas mal rebatidas; mulheres feias, sempre as mesmas, que disfarçavam o olhar quando cruzavam comigo (depois que eu passava por elas, olhava pra trás, só pra conferir se elas estavam olhando, e estavam), além de outras, bonitas, que eu achava que me paqueravam, mas não estavam nem aí. A Adriane Galisteu, certa vez, me olhou. Juro. Mas eu me fiz de gostoso e nem liguei. Sempre achei ela uma chata, não ia dar mole pra loira.

Minha corrida na praia era um verdadeiro footing, como diziam no interior.

Teve um dia, ensolarado, nenhuma nuvem no céu, que eu cumpri o mesmo ritual: saí do Sahy, caminhei até a Baleia, alonguei, ajeitei o cabelo, encolhi a barriga (quase nenhuma, mas o suficiente pra me comprometer no movimentado balneário repleto de beldades), dei uma geral na praia e parti para a corrida.

Desta vez, logo no início da praia, tinha uma barraca, dessas enormes, que necessitam de muitas pessoas para montar. Cheia de mulheres tomando sol. Algumas, de costas, com a parte de cima do biquíni desamarrada. Jovens e lindas. Conversavam, davam risadas. Também havia homens, igualmente jovens e saudáveis, que bebiam cerveja e arrotavam alto.

Eu tinha acabado de acordar, o dia estava muito claro, não estava enxergando direito. Antes de partir para a corrida, dei outra arrumada no cabelo e encolhi mais ainda a (pequena) barriga, por causa daquela galera diferente.

Acontece que não vi a cordinha de nylon que sustentava a barraca das jovens expostas ao sol. Eu já estava a uma certa velocidade, quando a cordinha transparente bateu com força no meu peito. Não entendi direito o que aconteceu. Só sei que girei no ar e caí. Dei uma cambalhota. Fui de cara na areia. Minha sunga, não sei o que houve, saiu do lugar. Fiquei com a bunda e o resto de fora. Ajeitei rapidamente o maiô azul-clarinho (será que elas viram tudo?), levantei-me (será que espirrei areia nelas?) e, com toda a dignidade do mundo, caminhei para o mar (acho que ninguém reparou). Sem olhar para trás. Havia areia por todas as partes e entranhas do corpo. Todas. Fiz de conta, para os outros milhares de banhistas que, imaginava, me olhavam, que eu estava apenas dando um mergulho para me refrescar. Senti uma forte ardência no meu peito, quando entrei no mar. Cheio de pose, joguei o cabelo pra trás, e saí da água. Lépido. Como se nada tivesse acontecido.

Já saí correndo pro final da Baleia (não, ninguém viu nada, ainda bem). No trajeto, os conhecidos de sempre. Só que desta vez, me cumprimentavam e me olhavam de um jeito diferente (mas eu me lavei todo…). Alguns ficavam espantados, outros sorriam sem graça, as crianças arregalavam os olhos e me apontavam (tem alguma coisa errada comigo…).

Bati a mão lá no final da praia, dei uma conferida no maiô, tudo no lugar, e voltei no mesmo ritmo. Faltavam uns cinquenta metros para terminar a praia, quando avistei a barraca enorme, branca, e suas belas ocupantes. Empinei mais ainda o corpo e passei por elas, como se não as ‘conhecesse’. Apertei a corrida. Só deu pra ouvir ‘olha lá o vascaíno’ e muitas risadas. Risadas, inclusive, das barracas do lado.

Termino a corrida, volto para o Sahy. Chego em casa, meus filhos me olham, assustados:

— Pai, o que é esse vergão no seu peito? Olha isso, que horrível. Do pescoço até a cintura!

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