Na esquina

Quase deu para avançar o sinal, mas com esses radares escondidos pela cidade é bom não arriscar. Hora do rush, final de tarde.
Desço o vidro para respirar melhor. Meu carro está na fila da esquerda, bem próximo à calçada. Na calçada, a morena. Mulata. Alta. Chega fácil nuns metro e oitenta se considerarmos as sandálias de plataformas. Unhas dos pés compridas pintadas de branco com as extremidades numa pincelada de esmalte mais claro, dando a impressão de que estão ainda maiores. Descobri que esse efeito se chama francesinha. Um charme. Ela veste calças jeans cinza, bem apertadas para realçar ainda mais a região posterior. Blusa estampada tomara-que-caia. Seios fartos, naturais. Piercing no umbigo de fora. Cabelos longos, meio para o ruivo. Um espetáculo.
A mulata fala ao celular, observando sua imagem refletida na parede de vidro do bar da esquina. Bela retaguarda, constato. Lá dentro, dois jovens tomam cerveja no balcão, de olhos para fora, para ela. Ela faz poses, ajeita os cabelos, que combinam com a blusa e com as sandálias, como se estivesse em frente a um espelho gigante. Vira-se. Dá de cara comigo. Fico meio sem jeito. Bonitona. Ignora minha presença a um metro de distância dela. Está ligada no celular.
— Ranram… Ranram… Ranram… Então, deixa eu te falar pra você!
Vira-se de costas para mim, arrebita a bunda para o lado sem sair do lugar. Volta a se olhar no vidro do bar, ajeita o cabelo. Fala sem parar, não consigo entender nada. Ela parece nervosa. Os jovens feito dois idiotas, babando pela mulher.
— Suspende as frita! O filé já chegou! – diz um deles, levantando o copo cheio de cerveja, derrubando quase tudo no chão.
A mulata nem aí, como se não fosse com ela.
— Nossa, quanta carne, véio! E eu lá em casa comendo ovo – emenda o outro.
Ela gira o corpo, esvoaça os cabelos soltos ao vento. Está de frente para mim outra vez. Lábios carnudos, vermelhos. Disfarço, olho o retrovisor. O garotão de óculos escuros do carro de trás abaixa o vidro, acende um cigarro. Ela está impaciente.
— Ranram… Ranram… Ranram… Então, deixa eu te falar pra você!
Ela passa a outra mão nos cabelos, jogando-os para o lado. Abaixa um pouco a blusa, realça o decote, rebola para um lado, vira-se novamente de costas. Fala. Fala sem parar. Está bem nervosa. Os jovens da cerveja são só alegria.
— Tu que é a mentira? Porque é boa demais pra ser verdade!
Ela dá as costas para os jovens, de frente para nós (eu e o dos óculos escuros do carro de trás) agora. Está agitada, não deixa o outro (namorado? marido? amante?) ou a outra (mãe? irmã? colega?) falar.
— Ranram… Ranram… Ranram… Então, deixa eu te falar pra você!
O dos óculos dá uma tragada, coloca o braço esquerdo para fora do carro, solta fumaça na direção dela.
— Ei, psiu! Quando for atravessar a rua não precisa se preocupar, olhar pros lados. Você é de parar o trânsito, tá ligada?
Ela vira-se para o bar. Ajeita o tomara-que-caia na frente do “espelho”, continua falando, cada vez mais agitada.
— Então, gata! Você não é vagalume, mas a sua bunda ilumina a minha vida! – filosofa um dos jovens, visivelmente alterado, fechando os olhos, batendo a mão numa mesa.
A mulata faz meia volta, fica de frente para a rua. Sinal amarelo. Tá puta da vida.
— Vai você, seu filho de uma…! – Ela se toca que está na esquina, desliga o celular. As unhas das mãos são igualmente grandes, verdes, com as dos anulares azuis. Joga o aparelho dentro da bolsa de couro vermelho e vai embora, batendo as plataformas multicoloridas no chão.
Resolvo participar da brincadeira:
— Você não é pretérito, mas é mais que perfeita!
A mulata, já dobrando a esquina, rebolando freneticamente, sem olhar para trás, levanta o braço esquerdo, faz uma argola com os dedos:
— Vê se te enxerga, tiozinho!

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