Não se fazem casamentos como antigamente

Quando adolescente, chegou em casa, trazido por um garoto desconhecido, um envelope grande com o nome do meu pai “e família”. Como eu era da família, curioso, abri. Convite de casamento. Estava lá os nomes dos noivos, dos pais, e a data da festa escrita com os números (dia e ano) por extenso. Nunca tinha lido uma data dessa maneira. Lá no cantinho inferior, à direita, uma frase que me chamou a atenção: “Leve faca”.
As famílias dos nubentes resolveram fazer a festa no clube de campo da cidade, uma inovação para a época. Famílias da mais alta sociedade, diga-se. As comemorações dos enlaces matrimoniais dos abastados geralmente eram nas casas dos pais da noiva, verdadeiros palacetes com piscinas imensas. Aliás, nessas festas, cobriam-se as piscinas com deck de madeira retrátil para otimizar o espaço, como diziam os decoradores dessas celebrações. Virava pista de dança. Era sempre assim. Resolveram inovar.
Após a cerimônia religiosa na paróquia local, ia rolar o maior churrasco. Nada de bufês contratados da capital para servir os parentes e amigos dos noivos, como era costume nas festonas dos graúdos de então.
Depois que vi o convite, passei a ficar atento aos burburinhos da cidade. Não se falava em outra coisa, só no comes e bebes do casamento dos grã-finos. “Leve faca” para cortar a carne, só podia ser.
Comentários na saída da missa das 10, onde a sociedade se reunia todos os domingos: como é que as famílias dos noivos, gente de bem, têm a coragem de mandar um convite desses, nunca vi nada mais cafona em toda minha vida, imagina os convidados enchendo a cara e partindo pra briga.
A aporrinhação das mulheres com os maridos era a mesma: esse moleque vai se furar com essa porcaria, olha só o que eu tô te dizendo.
As facas, obviamente, foram levadas pelos homens, longe do alcance das crianças. Alguns, mais discretos, seguiram para a igreja portando suas armas brancas no bolso lateral do paletó; outros, na lapela, com os mais variados tipos de cabos para fora, como se fossem lenços. Houve até os que colocaram as facas nos cintos, como revólveres dos filmes de bangue bangue, disfarçadas sob os paletós. E ainda os que foram com canivetes pendurados nos chaveiros.
Todo mundo armado para o grande acontecimento. Um sucesso, vale registrar. Carne de primeira, chopp gelado, música animada.
O bolo de três andares, com os dois bonequinhos simbolizando os noivos, foi a sensação no Country Club.
Toda minha família foi ao casamento, inclusive eu, que não gostava muito desse tipo de festa que tinha que colocar roupa chique. Fui mais por causa do churrascão.
Minha mãe separou facas para cada um de nós de um faqueiro de prata que a gente nunca usava, que meus pais ganharam de presente casamento. Minha mãe dizia que aquele faqueiro era só para ocasiões especiais.

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