Não se fazem mais casamentos como antigamente (parte 2)

[Resumo do episódio anterior: quando eu era adolescente, minha família foi convidada para um casamento de gente grã-fina, cujo convite, além das informações tradicionais para esse fim, tinha lá: “Leve faca”. A festança ia ser no Country Club. Churrascão. Não se falava outra coisa na cidade a não ser como levar as facas no rega-bofe.]

Após a cerimônia religiosa na catedral de Santo Antônio, os convidados rumaram para o clube de campo fora da cidade. O salão em frente à piscina estava todo decorado com flores oferecidas pela Fazenda Tabocal. Mesas redondas com toalhas brancas bordadas com as iniciais dos noivos, e um vasinho de margaridinhas no centro. Tudo no capricho.
As famílias foram se acomodando nas cadeiras, com o tecido do encosto igual ao da toalha, ao redor das mesas, de acordo com a ordem de chegada. Garçons de terno preto, camisa branca e gravata borboleta, naquele calor insuportável da cidade no verão (e também nas outras estações), transpiravam de um lado para o outro.
As crianças tiraram suas roupas chiques e foram se divertir na piscina. Os pais, para evitar que elas ficassem pentelhando durante a festança (tô cum fome tô cum fome – o churrasco ia demorar mesmo para sair), precavidos, levaram bolachas e roupa de banho para os pequenos.
Eu, que não era mais criança, nem adulto, tive que ficar ali com meus pais, entediado, de camisa social branca de manga comprida abotoada nos punhos e na frente até o pescoço, enfiada dentro da calça comprida azul marinho com o cinto combinando com os sapatos novos e apertados.
Ali pelas tantas, uns amigos que estavam sentados em outras mesas com os pais, na mesma situação e condição emocional que eu, se reuniram num canto e me chamaram. Por iniciativa do irmão caçula do noivo, que tinha a nossa idade, caminhamos até o vestiário do futebol e pedimos para o Zé, gente boa que tomava conta da rouparia, liberar uns calções do uniforme oficial do clube. E fomos jogar bola sem camisa e descalços no campinho de areia atrás da festa, enquanto a carne não vinha.
Nossos pais e demais convidados permaneceram no salão, contando piadas, tomando chopp e caipirinha das mais variadas frutas. As esposas, no guaraná e Coca-Cola, porque naquela época mulher não bebia nada alcoólico (nem fumava) em público.
Todos morrendo de fome – o churrasco não saía. E quando liberavam uma bandeja de linguiça, era devorada ali mesmo no balcão da churrasqueira, nem chegava às mesas. O jeito era forrar o estômago com pão e molho à vinagrete entre um copo e outro de chopp servido em jarras. O pessoal reclamava que estava quente e, despejado com esse recipiente, só fazia espuma. Alguns descobriram que o segredo era ir até o local dos barris e molhar a mão do choppeiro. Aí, sim, choppinho gelado e bem servido.
Depois de cansar de jogar futebol com os meus amigos, peguei meu irmão mais novo na piscina e fomos, sujos de areia e molhados, famintos, comer.
As carnes do aguardado churrasco, finalmente, aos poucos, foram chegando às mesas, com os garçons distribuindo pratos limpos, guardanapos, garfos e FACAS, para surpresa geral. Antes que todos sacassem suas respectivas armas brancas tão bem escondidas até então.
Não faltou assunto no restante da festa.

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