Naquele tempo…

Naquele tempo não existiam sites de relacionamentos, esses que você entra para descolar parceiro(a)(s). Computador pessoal nem em filmes de ficção.

Naquele tempo eu era funcionário do Banco do Brasil. Meu cargo: Auxiliar de Escrita Referência 0-50; minha função: atender aos clientes da Carteira de Descontos. Ao vivo e, a maior parte, pelo telefone. Pela simpatia e pelo bom atendimento, modéstia à parte, ganhava um monte de presentes no final do ano. Mais do que muitos chefes de seção.

Naquele tempo se presenteava bancários com litros de uísque importado, cortes de terno de tecido inglês, camisas Volta ao Mundo, canetas-tinteiro Parker 51, caixas de vinho chileno, além dos tradicionais chaveirinhos, camisetas, agendas, lápis número dois…

Eu só perdia no quesito brindes para o gerentão, que ganhava até carros de certos clientes. E também para o secretário dele, o simpático Coquinho, de Taquaritinga, que vivia andando pra lá e pra cá na agência, com suas gravatas coloridas, parando em cada mesa, para falar de futebol e de mulher.

Naquele tempo, no início dos anos 1970, o Brasil era um paraíso. As palavras de ordem eram ‘Ame-o ou Deixe-o’, acontecia o chamado milagre econômico. Eu ganhava meus presentes pela simpatia e pelo bom atendimento, modéstia à parte. Já o gerente, desde aquele tempo… Bem, isso é uma outra história. Meu sonho era ser caixa, atender ao grande público, mas tal promoção só era possível depois de dois anos de serviços, e ainda prestando outro concurso. Minha carreira no BB durou um ano e oito meses.

Tinham as mulheres. As colegas do local de trabalho e as do telefone. Em relação às do trabalho, andava meio cabisbaixo, depois da decepção com a mina do Cheque Ouro, a Lili, uma gracinha que me seduziu pelo olhar e me levou para conhecer a seita religiosa da qual fazia parte. Aplicou o mesmo ‘golpe’ em outros colegas. Teve um lá, o Antônio, ficou tão perdidamente apaixonado por ela, que participou de alguns cultos e até pediu a ovelha em casamento.

Naquele tempo não tinha internet, msn, orkut, facebook, twitter, nada disso. Muito menos webcam. O virtual acontecia pelo telefone, no escuro. O negócio era na conversa, pela voz, nada de kkkkk, rsrs, abs, bjs, bjks ou J ou ;) ou :D.

Eu adorava falar pelo telefone com a Rita de Cássia, da empresa que era a maior cliente do banco, o ‘clientão’, como era conhecido na agência. Voz rouca, meio grave, ela forçava um pouco um sotaque carioca, que me deixava fora de si. Falava baixo, quase cochichava. Meninão recém-chegado do interior, eu enlouquecia. Ficávamos um tempão ao telefone. Ela fazia a linha intelectual, gostava de livrinhos de bang-bang, livros-de-bolso, vendidos em bancas de jornais, naquela época. Por causa dela, passei a consumir esse tipo de literatura. Meu autor favorito era um tal Marcial Fuentes Stefania, certamente um pseudônimo. Época dos faroestes spaguetti, Dólar Furado, Giuliano Gemma, Ringo, Lee Van Cleef. Fazia de tudo para parecer o máximo para a Rita de Cássia.

A coisa foi ficando séria. Na hora marcada, ela ligava. Eu deixava o serviço em ordem, aguardava. Falávamos do trabalho em um minuto, tempo suficiente para eu passar o saldo da empresa pra ela, e ficávamos ‘namorando’. Horas. Verdadeiramente apaixonados. Eu contava da minha infância em Lins, ela das primas de Guarulhos, para onde ia todos os finais de semana curtir as balada, nas boate daquele tempo.

Eu vivia sonhando com a Rita de Cássia. Mesmo sem conhecê-la pessoalmente, ela aparecia em meus sonhos vestida de preto. Morena bem alta, pernas longas e torneadas, pés bonitos e tratados, naquelas sandálias de tiras subindo pelo tornozelo. Tinha cabelos compridos, rosto de artista de novela, que eu não conseguia identificar qual (Regina Duarte, Sônia Braga?). Sempre sorridente, dentes brancos, lábios carnudos, simpática, linda, maravilhosa. As vezes, ela surgia só de calcinha e sutiã vermelhos, no banco de trás do meu fusca azul-royal. Mas não rolava nada, porque sempre vinha o guarda-noturno da rua onde estávamos – naquele tempo não existia motel –, com a lanterna na minha cara, e eu acordava assustado e prejudicado. Tínhamos de nos conhecer o mais rápido possível. Combinamos o encontro.

Atendendo à pedidos, ela iria com um vestido preto e sandálias de salto alto. Eu usaria a camisa azul, regalo de cliente, a que mais gostava e que me achava o tal dentro dela. Quarta-feira, 14h, logo depois do almoço. Ninguém no banco sabia nem desconfiava do meu ‘romance’ com a Rita de Cássia, do clientão. Nervoso, nem almocei direito. Ia conhecer a mulher dos meus sonhos.

Quando fui escovar os dentes no banheiro do banco, vi, lá do outro lado do corredor, uma mulher de preto. Não acreditei. Só podia ser ela! Tinha chegado quinze minutos antes, certamente para me olhar de longe e ver como eu era. Chamei um colega e perguntei quem era aquela mulher de preto e sandálias de saltos altíssimos. “Ah, é a mina do clientão”, me respondeu com a maior naturalidade. Conhecida na área, a Rita de Cássia.

Baixinha, redondinha, cabelos tingidos de loiro batendo na bundinha arrebitada, unhas pintadas de preto combinando com o batom…

Tranquei-me no banheiro e fiquei lá uma hora. Sessenta minutos!

A partir desse dia, um tal Moacyr passou a me ligar para pedir o saldo do clientão. Nunca mais ouvi a voz rouca e sensual da Rita de Cássia.  :(

Comments are closed.