No Metrô

— Desce na Estação Paulista, na Consolação; caminha por baixo até a Consolação, na Paulista. Depois salta no Paraíso e segue para o Carandiru.

Vagão lotado! Só duas estações pela frente para a baldeação. Ainda vou ter de segurar nessas barras ensebadas pra não perder o equilíbrio. Não me lembro quem disse que em cada estação, durante o sai e entra de passageiros, deviam passar uma flanela com álcool nas barras. Será que é por isso que a população vive com conjuntivite, herpes, diarreia… Bactérias…

Como essa magrinha consegue viajar em pé sem segurar em nada? Daqui a pouco o trem freia e ela voa pro chão. Ela é muito leve… Perninha fina… Já tá chegando a próxima estação… Não quero nem ver o tombo, com a freada brusca… Ela nem se mexeu! A abertura das pernas dela não dá nem um palmo! O suficiente pra prender a mochila entre os pés… Que equilíbrio! Magrinha… Deve andar de metrô todos os dias, só pode ser isso… E ajeita o cabelo com as duas mãos soltas, ainda por cima. Não acredito que ela vai enrolar tudo e enfiar a caneta Bic no meio, pra prender, com o trem em movimento. Até que é bonitinha…

Paraíso! Meu primeiro destino. Agora, tenho de mudar de trem.

— Por favor, senhor! Tucuruvi?

— Ali.

Pelo menos aqui tem lugar pra sentar. Aquela ali não é a magrinha da perninha fina? Que coincidência! Ela tem razão, fica mais bonita com os cabelos presos… Ou não reparou que tem bancos vazios ou tá querendo aparecer… Sem as mãos outra vez! Dá pinta que tá na fila da farmácia… Não acredito que ela vai se abaixar e pegar alguma coisa na mochila, com esse trem nesta velocidade. Quero ver ela na curva da Liberdade… Nem balançou! Tá pegando um livro… Noiva! A magrinha é noiva! Ela não vai ler em pé, folhear, sem se apoiar em nada, não é possível! . Deixa eu ver… Manual para não morrer de amor. Autoajuda! Pelo menos tá lendo, não tá pensando bobagem. Ou tá pensando bobagem, querendo enforcar logo o cara? O noivo não deve estar nem aí… Todo homem que coloca anel de noivado no dedo direito é porque vai enrolar a muié. Conheço um monte. Anos de noivado… Coitada dessa moça… Tão concentrada… Tá gostando da leitura… Vira as páginas na maior tranquilidade, parece que tá no sofá da casa dela… Pra ela, o trem tá parado na estação…

Quer saber? Vou me levantar desse banco, soltar as mãos e ver como é o negócio. Se a muiézinha que sofre de amor é tão equilibrada…

Tô com as pernas muito abertas, quase um metro, coisa ridícula. Ela nem percebeu que eu tô sem as mãos, como ela, do lado dela. Deixa eu fechar um pouco as pernas. Dois palmos, meio metro tá de bom tamanho. Tô começando hoje… Um palmo entre os pés, pra mim, ainda não dá; só com muito treino. Até que é gostoso… Suave… A sensação é que estou surfando…

Tô ligado! O macete é ficar de lado para o sentido que o trem anda, de frente para as portas. Até que é tranquilo… Tiradentes! Vai frear… É só apoiar o corpo na perna da frente… Assim… Beleza! Agora vai arrancar, o movimento deve ser ao contrário… Perfeito! Todo o peso do corpo na perna de trás. A magrinha nem pisca e eu todo tenso. Agora vem as curvas da Armênia… Pra direita… Pra direita… Todo o peso na ponta dos pés, nos dedos dos pés… Aguenta, aguenta… Maravilha! Agora vem pra esquerda… Apoio nos calcanhares… Ôpa, quase vou pra trás! Firmeza, meu! Não tem erro… Tô melhor que ela! Tudo uma questão de equilíbrio!

Será que pega o celular aqui dentro?

— Oi, filho! Tá tudo bem? Tô no Metrô, debaixo da terra! Tô de pé, sem apoiar em nada, com o trem a toda… Velocidade máxima! Já passei umas vinte estações. Tudo sem as mãos, filho! Parece surfe. Tô craque! Você vai adorar! Deixa eu desligar que eu vou descer agora. Conta pra sua mãe!

A magrinha vai saltar também. Vou perguntar pra ela o segredo da abertura das pernas… Essas perninhas finas andam depressa demais… Deixa eu correr atrás dela.

— Machucou, tio?

— Nada não. Acho que enfiei o pé entre o vagão e a plataforma. Perdi o equilíbrio.

Comments are closed.