O brinco de ouro

Algum tempo atrás, saindo da quadra do meu basquete de todo fim de semana no Clube Pinheiros, caminhando pela alameda ao lado da pista de atletismo, vejo um brinco no chão. Ninguém nas proximidades. Bijuteria, penso, depois levo isso no Achados e Perdidos. Coloco o adorno na mochila e vou beber cerveja com os amigos.

Bem mais tarde, chegando em casa, ao pegar a roupa da mochila para lavar, aparece o brinco no meio das meias sujas. Havia me esquecido completamente desse detalhe. Mostro para minha mulher.

— Olha o que achei no clube. Bijuteria, né? Quer pra você?

— Isso é ouro puro, sem-noção! – ela se espanta. — Isso deve valer uma fortuna, não viu esse brilhantezinho aqui? Volta lá e devolve.

— Tá bom. Semana que vem eu faço isso, pode deixar

Joguei a joia de novo na mochila e fui tomar meu banho.

Acontece que eu me esqueci completamente do brinco no fundo da mochila na outra semana e na outra e na outra.

Meses depois, na cerveja com os amigos, algumas das esposas da turma aproximam-se da nossa mesa. Sentam-se com a gente – as mulheres de um lado e os homens de outro. Nós, os homens, baixamos o tom da conversa, as mulheres nem aí, na delas. Ali pelas tantas, ouço, do outro lado da mesa, a Cidinha do Marcão para as companheiras:

— Vocês acreditam que eu consegui perder aquele meu brinco de ouro que ganhei do Marcos? Ele quis me matar. Caiu aqui no clube, por um momento tive a sensação que estava me faltando alguma coisa, mas não atinei que fosse o brinco. Quando percebi, procurei feito uma louca e não houve meio de achar.

Apuro os ouvidos, ela continua falando:

— Brincos da H. Stern, presente de Bodas de Prata do meu marido, estou arrasada até hoje.

Lembrei-me na hora do ouro esquecido e abandonado na minha mochila. Não pode ser, é muita coincidência, já bebi demais, isso seria inacreditável.

— Perdeu um brinco, Cidinha? – pergunto.

— Sim, por quê?

— Nada não. Faz quanto tempo?

— Não gosto nem de lembrar. Quanto tempo, bem? – pergunta para o maridão.

— Quanto tempo o quê?

— O brinco, bem! Faz quanto tempo que ele sumiu?

— Uns seis, sete meses, sei lá. O que é que tem?

Enfio a mão na mochila, apalpo o fundo, sinto o brinco e tiro ele de lá. Fecho a mão com a joia, levanto-me de onde estou, me aproximo da mulher do Marcão. Resolvo fazer graça: como se fosse um mágico de araque enganando criança, coloco minha mão sob os belos cabelos da Cidinha, por cima da orelha. Ela arregala os olhos, Marcão me olha feio. Desfaço o gesto, dou um leve assopro nos meus dedos fechados, abro a mão.

— Por acaso o brinco é esse, senhora?

Cidinha cai em prantos. ERA O BRINCO achado na alameda ao lado da pista de atletismo. A mulherada fica boquiaberta e aplaude. Sim, milagres acontecem de vez em quando.

— Mas como? – pergunta ela ainda às lágrimas, agora ao lado do esposo igualmente emocionado.

— O mágico nunca ensina seus truques – sorrio e volto para o meu lugar.

Conto a história do brinco para todos na mesa, que não acreditam muito. O casal vai embora abraçado, feliz da vida.

 

A história ainda não acabou.

Mais alguns meses, encontro com os dois numa festa de casamento, reparo que a Cidinha não está usando aquele brinco, mas outro igualmente belo e valioso.

— Mas como? Cadê o meu brinco? – brinco.

— Você não vai acreditar…

— …vai me dizer que…

— …isso mesmo, perdi o mesmo brinco de novo!

— Pelo menos usa o par dele de vez em quando?

— Que nada! Fui na H. Stern, dei o par de sinal e comprei esses aqui em suaves prestações para a festa de hoje. Gostou?

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