O Cebola

— Tá lembrado de mim? O Cebola!

— …?

E agora? Preciso pensar rápido! Cebola… Cebola… Ah, é o que perdeu os quatro dedos da mão esquerda, quando capotou o carro. Estava dirigindo com uma mão no volante e a outra segurando a porta do carro, com o braço levantado. O carro virou em cima da mão dele, coitado… Deixa ele ficar numa posição melhor, pra eu ver se a mão esquerda dele está prejudicada, sem os quatro dedos… Não, não! Aquele é o Lubrax 4. O Cebola está com todos os dedos naturais, inclusive, de aliança. Tá casado. Nunca mais vi o Lubrax 4, o filho do seu Miranda, o dono da Pensão do Miranda (‘Onde o seu conforto começa na varanda’). Diziam que fez implante de dedos nos Estados Unidos, numa clínica famosa. Passaram a chamá-lo só de Lubrax.

— Sou seu amigo de infância…

— …?

Cebola… Cebola… Ah, é o cara que foi o último da turma a namorar, o último a ir pra zona e o último a casar! É ele mesmo! Tinha medo de mulher, naquele tempo. Casou com a primeira e única namorada, uma loirinha bonitinha, cujo pai tinha um supermercado, o SuperPerto. Tá casado até hoje, olha a aliança… Não, espera aí! Não pode ser… Aquele é grandão, narigudão. Aquele é o Anta! O Cebola não é o Anta. O Anta está sempre de bom humor, virou mulherengo depois de velho. Esse aí parece sei lá o quê.

— A gente jogava bola junto…

— …?

Cebola… Cebola… Ah, é o que veio de Minas, bem novinho, só pode ser. Foi morar com o tio, irmão da mãe (solteira) dele. Jogava um bolão. Canhoteiro. Quando não tava jogando bola, passava o dia trancado no quarto, com as revistinhas do Carlos Zéfiro, os ‘catecismos’. Os catecismos! Só pode ser ele. Cabelinho liso, igual. Teve um dia que ficou com febre. Foram oito ‘leituras’, só na parte da tarde, antes da janta… Mas aquele é baixinho, invocado. O Cebola não é tão baixo assim… Aquele é o sobrinho do Boca Mole. Isso mesmo! Diziam as más línguas que ele não era sobrinho, mas filho do Boca Mole. Chamavam ele de Boca Júnior. Não tem nada a ver o Cebola com o Boca. Que fim terá levado o Boca Júnior? Chutava forte pra caramba. Só de três dedos.

— Meu pai era muito amigo do seu pai…

— …?

Cebola… Cebola… Ah, é o cara que se queimou com álcool quando era moleque e ficou com o peito e o braço todo marcado! Meu pai que socorreu ele. Nadava superbem. Atravessava, e voltava, a piscina de 25 metros, debaixo d’água. Parece que sofreu um acidente feio e ficou sem os movimentos do braço esquerdo. Os moleques diziam que agora ele só treinava na piscina redonda… Assim, de agasalho, não dá pra ver as queimaduras. Espera aí… Tô viajando… O nadador é o Chico Torrada. O Cebola não é o Torrada. Lembra um pouco, pela fisionomia, mas não é. O Torrada é todo queimado, não gosto nem de imaginar.

— Vizinho da sua casa, na Luiz Gama…

— …?

Cebola… Cebola… Ah, será que é aquele que estava viajando com o pai e a mãe, no banco de trás da Vemaguete, e percebeu que a porta do lado da mãe não estava trancada direito? Ela foi abrir um pouquinho para fechá-la com força… A porta abria ao contrário… O vento escancarou a porta de vez e a mulher foi jogada para fora do carro. E ele, que estava no banco de trás, se jogou na estrada para salvar a mãe. Ficou todo esfolado… Será? Não, não! Aquele é bem gordo. Aquele é o Milton! O Cebola não é o Milton. O Milton caiu em cima da mãe, quase matou ela. Milton! Na verdade, o nome dele é Fernando José, mas os vizinhos da rua só chamavam ele de Milton – MIL TONeladas. Crueldade pura. O Cebola tá com esse barrigão, mas não chega nem na metade do tamanho do Fernandinho José.

— Estudamos juntos no Estadual…

— …?

Cebola… Cebola… Ah, é o briguento! Só pode ser ele. Olha a cicatriz no supercílio. Todos os dias depois das aulas, saía no tapa com alguém. Santista, roxo… Mas aquele tinha o queixo grande, esse daí nem queixo tem direito. Aquele é o Policarpo Queixada… O professor de Artes desenhou um rosto, de perfil, na prova dele, com um queixo saliente, pontilhado, e perguntou para a classe de quem era aquela prova. Adivinharam na hora. Maldade. Grande Polica Queixada! Mora numa bela chácara no interior. Sempre odiou cebola.

— A gente ia nos bailes…

— …?

— Cebola… Cebola… Putaquelosparió! Ah, é o metido a galã da turma! Tirou a Jussara Emília, a mais cobiçada da cidade, pra dançar, e perguntou pra ela se ele não estava a cara do Alain Delon! Mas aquele tinha cacoetes e as pontas dos dedos das mão eram bem grossas… Umas pelotas. Só discava o telefone com o lápis virado ao contrário. Aquele é o Juninho Dedão! Puxou os dedos do pai. Grande figura! Esse Cebola não tem pinta de Alain Delon. Nem tem dedões.

— …?

— Pô, não tá lembrado? O Cebola!

— Lógico que eu tô! Falei de você ainda ontem, pra turma. Não mudou nada, cara!

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