O conselheiro

Nem bem o jovem casal se instalou no apê novinho em folha, todo reformado e cheirando à tinta fresca, já foi convocado para a reunião extraordinária do condomímio. Pauta: 1. Conflito entre dois condôminos do Bloco B; 2. Eleição do síndico e dos novos membros do Conselho.

Na reunião, ficaram sabendo o motivo da briga: futebol. O morador do 43-B ficara indignado quando o Grêmio marcou um gol contra o Corinthians e ouviu comemorações dos vizinhos em alto e bom som. Sabia que no prédio não tinha nenhum gaúcho. Só podia ser coisa de palmeirense ou são-paulino. E tinha certeza que a gozação era com ele. Não deu cinco minutos e o Corinthians empatou. O do 43-B abriu a janela, encheu os pulmões: “Chupa, Porco! Chupa, Bambi!”. Pra quê? O do 12-A gritou lá de baixo: “Cala essa boca, gambá, filho dilma puta!” O do 43-B: “Só podia ser você, sua bichona-tricolina-do-caraio, mal educado!” Isso, com todo o condomínio de orelha em pé. O jogo terminou 3 a 3. Imagine a baixaria.

O assunto dos xingamentos foi resolvido com um aperto de mãos entre as partes, afinal, as respectivas esposas são amigas, freqüentam a piscina com os respectivos filhos pequenos…

A síndica, a obesa dona Alice, do 181-B, foi reeleita por aclamação. Para o Conselho, apenas o Seu Célio, do 71-A, aposentado, topou continuar.

— O senhor não quer aceitar o cargo de Conselheiro, Sr. Mauro?

O ‘senhor Mauro’ era o jovem recém-casado, ainda imberbe, e completamente perdido naquele ambiente.

— Vai, Príncipe! Aceita! É o melhor jeito da gente conhecer os nossos vizinhos – cochichou a também jovem, quase adolescente, esposa, Ana Paula.

— Está bem… Eu aceito!

Dois dias depois, de madrugada, o interfone do jovem casal, toca.

— Seu Mauro? Seu Mauro! Dona Alice tá te chamando o senhor aqui na portaria. Disse que é urgente!

Maurinho vestiu qualquer roupa e desceu correndo. Além da Dona Alice, com penhoar rosa, sem sutiã, também estava o Seu Célio, de pijama listrado, mangas compridas, apesar do calor.

Caíra um pé de tênis bem em frente à portaria. O porteiro da noite foi ver o que estava acontecendo e notou o morador do décimo andar sentado no parapeito da janela.

— O rapaz estava sentado lá, Dona Alice, te juro pra senhora! Ele é esquisito. Já vi ele mostrando arma pro colega dele do 64-B no salão de jogos. Trezoitão! Esse rapaz é nervoso, Dona Alice! A senhora toma cuidado!

Subiram os três. Bateram na porta e nada. Mexeram na maçaneta, a porta estava aberta.

— A senhora vai na frente, Dona Alice – pediu o Seu Célio. Maurinho, calado e assustado (‘e se esse moleque tá armado e começa a atirar?’), olhava para todos os lados, virando a cabeça pra lá e pra cá.

O apartamento estava escuro. Entraram, pé-ante-pé, em fila indiana, cada um segurando na cintura do que estava na frente, bem próximos um dos outros: Dona Alice, Maurinho e Seu Célio. O jovem achou mais seguro entrar depois da síndica (‘atrás dessa bundona, ninguém me acerta.’).

Viram na parede, em letras bem grandes, o nome de uma mulher. Maurinho tremia (‘onde será que esse merda se enfiou?’). Vasculharam o apartamento todo, cada um grudado no outro, e não encontraram ninguém. O garoto saíra pelo elevador de serviço, enquanto eles subiam pelo social.

Maurinho voltou para a casa, indignado (‘será que vida de Conselheiro é isso?’). Sua mulher dormia, como se nada tivesse acontecido.

Alguns dias depois, com o jovem casal já totalmente enturmado com os vizinhos do condomínio – sempre foram muito comunicativos – outra ocorrência: a mulher do 84-A jogou as roupas do marido pela janela e saiu da garagem com o carro cantando pneus, em altíssima velocidade. Sentiram cheiro de alguma coisa queimada no apartamento dela e foram lá. Desta vez, Maurinho foi interfonado na hora do almoço; pra ele, sagrada.

Dona Alice entrou na frente, seguida pelo conselheiro Mauro, mal-humorado, porque interrompera seu estrogonofe de filé, especialidade da esposa; e pelo sempre presente, o velho e bondoso Seu Célio. O apartamento estava todo quebrado – repararam um martelo jogado no chão da sala – e muitas notas de dólares ainda soltavam fumaça, em cima do carpete.

— Minha aposentadoria não dá pra nada e essa infeliz queimando dinheiro… – resmunga Seu Célio.

A partir desse dia, dona Ana Paula, a esposa do conselheiro Mauro, passou a ser olhada de um jeito diferente pelas moradoras do condomínio. As mulheres cochichavam e davam risadinhas quando ela entrava no elevador ou ia para a piscina ou saía do carro no estacionamento. Indignada, foi perguntar para uma das vizinhas, o que estava acontecendo. O marido traidor do 84-A também se chama Mauro.

Uma semana depois, logo após a novela das nove, antes do futebol, jogo do Santos, time que Maurinho torce, ouve-se a voz de um garoto gritando: “MARU! EU TE AMO!” O jogo começa. “MARU! EU TE AMO! MARU? TÁ ME OUVINDO?”. O jovem conselheiro fechou a janela, abriu uma latinha, e sentou-se no sofá. Só queria ver os Meninos da Vila, comandados por Diego, Robinho & companhia.

Aos quinze minutos do primeiro tempo, toca o interfone. Ana Paula dorme no sofá ao lado, não entende mesmo de futebol.

— Desculpa incomodar o senhor, Seu Mauro. É que a Dona Alice tá de viagem e o Seu Célio, parece que tá doente, de asma, exclusive veio o farmacêutico dar injeção nele, ainda agorinha…

— O que aconteceu desta vez, Nascimento?

— Desce aqui, seu Mauro!

A única coisa que Maurinho gosta de ver na televisão é futebol, ainda mais o seu Santos, com os Meninos da Vila. Desceu. Puto.

— Espia isso daí, Seu Mauro!

Um garoto, de no máximo 11 anos, estava estendido no chão, barriga pra cima, com os braços abertos, bem em frente à portaria. Mauro começou a tremer.

— Não vai me dizer que o menino…

— Não, Seu Mauro, não se jogou, graças a Deus! Não ouviu uma voz gritando Maru, Maru? Pois então, era ele. Maru é a Maria Eugênia, aquela… aquela do décimo-primeiro, a dos seios grandes. O senhor já viu ela, não viu? Como ela não ligou, ele veio aqui, deitou ali no pátio, e me pediu pra mim interfonar pra ela e avisar ela pra dar uma olhada da janela, aqui pra baixo.

— Mas é só tirar o moleque dali e pronto! Precisava me chamar?

— Sabe como é, Seu Mauro… O garoto é o caçula daquele coronel aposentado, do 111-A. O homem já foi síndico não sei quantos anos, é bravo pra caramba. Disse que se eu não fizesse o que ele pediu, ia contar pro pai dele que me pegou no bem-bom com a moreninha que trabalha na casa dele, o senhor tá me compreendendo? Na cozinha da casa do homem, Seu Mauro!

— Aquela moreninha???

— Pediu pra mim interfonar e quando ela olhasse da janela, era pra mim e pro Severino, o porteiro da noite, arrastar ele pra dentro. Espia lá! Se fingindo de morto, Seu Mauro. Vê se pode…

Maurinho chamou o garoto, deu uma dura nele, e perdeu o maior tempo para convencê-lo a esquecer o assunto da garota, que era muito jovem, blá-blá-blá. Voltou para casa aos 33 minutos do segundo tempo, já com 4 a 0 para o Santos.

Acordou a mulher, que continuava dormindo no sofá.

— Não tenho mais saco pra ser conselheiro de porra nenhuma, Aninha! Vou pular fora! Nunca mais entro numa fria dessa. Bando de loucos!

Alguns dias depois, outra reclamação do porteiro:

— Tão fumando cigarro de maconha no condomínio, Seu Mauro!

— Fumando o quê?

— É isso daí que o senhor ouviu, seu Mauro… E tão jogando bituca aqui embaixo, ali perto da churrasqueira. Cada bitucão!

— Nascimento, presta atenção: ninguém joga bituca de maconha nem no cinzeiro! É o fim do mundo!

Nova reunião extraordinária dos condôminos para discutir o assunto. De fato estavam fumando. Jogando bituca???

— Concordo com o Mauro, pessoal. Ninguém joga bituca de baseado fora – disse outro jovem morador do condomínio.

Maurinho aproveitou a reunião e pediu demissão do cargo de Conselheiro. Pouco tempo depois, mudou-se do condomínio. Foi com a jovem esposa para uma casa. Térrea.

Estão na mesma residência há 10 anos. Felizes da vida. Maurão faz parte da Sociedade Amigos do Bairro.

É membro do Conselho…

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